Encontre matérias e conteúdos da Gazeta do Povo

Mudar para não mudar, por quê?

Foto: Wilson Dias/EBC/FotosPúblicas (Foto: )

Empacada na Câmara dos Deputados, a chamada reforma política vai virando lenda. É claro, nunca podemos duvidar da capacidade dos parlamentares de fazerem o que quiserem, ainda mais quando é ruim para o país, mesmo sem tempo e contra todas as probabilidades.

Mas, considerando que uma eventual reforma teria de estar aprovada dentro de um mês, até os primeiros dias de outubro, e que todos os sinais indicam que não exista o consenso ou a maioria necessária para a aprovação de qualquer medida, aumentam as apostas de que nada vai mudar na legislação eleitoral.

O raciocínio dos deputados é simples. No começo das discussões, o desafio lançado foi:

“Nobres colegas, temos de fazer uma reforma da legislação sem alterar a realidade das coisas.”

“Essa ideia é boa, Excelência, mudar para não mudar, não é isso?”

“Isso, vamos mudar as leis, mas no fim, temos de garantir que a gente vá continuar aqui, combinado?”

E assim os deputados se lançaram na tarefa de mudar uma regra aqui, outra ali; ideias maiúsculas, como o distritão e o fundo público para financiar as campanhas. No fundo, as novas regras garantiriam que aqueles que hoje já são deputados continuassem sendo.

Assim, cumpria-se uma dupla função: os deputados poderiam ostentar o discurso de que as regras haviam mudado, enquanto nada mudaria de fato na composição das forças políticas dominantes do Congresso. Estava cumprido o desafio de mudar para não mudar.

Mas alguns perceberam que poderiam surgir armadilhas. Afinal, nem eles confiam na sinceridade dos colegas. E, diante de cada proposta de mudar a lei sem mudar a política, os deputados se perguntavam se aquilo ia dar certo mesmo.

“O mais importante é garantir que a gente vai continuar aqui, você garante?”

Mas quem é que pode garantir? Então surgiram aqueles que entenderam que no distritão seria possível um parlamentar se eleger com ainda menos votos, e não seria difícil romper o bloqueio dos partidos dominantes, já que a cláusula de barreira é incompatível com esse modelo.

Sem muita justificativa, surgiu um acordo confuso sugerindo que o distritão fosse uma transição para outro modelo, o distrital misto. A transição é arriscada e não faz sentido. O burburinho começou nos corredores:

“Para quê mesmo aprovar essa reforma?”

Os defensores do modelo distrital misto, então, surgiram com teses de redução de custos e aproximação dos políticos com as bases. Alguns tremeram na base diante dessa ideia. Outros perguntaram como é que seriam demarcados os distritos.

“Bom, a gente traça uma linha aqui, aqui e aqui, os territórios podem ser divididos em partes ‘socialmente’ equivalentes.”

“Meu Deus, que conversa difícil. Só digo uma coisa: se passar uma linha dividindo os meus eleitores, alguém vai se ver comigo.”

“Calma, calma, tendo tempo, a gente divide os distritos para dar certo para todo mundo.”

“Você acredita nisso mesmo?”

E assim, sem muito alarde, os deputados foram se convencendo de que, se não é para mudar nada, então é melhor que não se mude nada. Deixa as regras como estão, e cada um que se vire para continuar aqui.

Como se diz, “os que forem favoráveis, permaneçam como estão. Aprovado!”

Você pode se interessar

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.