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Carlos Alberto Di Franco

Carlos Alberto Di Franco

Potencial desperdiçado

Virar o jogo do desenvolvimento

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Trecho da Floresta Amazônica margeado pelo Rio Negro. (Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil)

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O Brasil atravessa um momento decisivo. O país vive uma perigosa combinação de paralisia institucional, radicalização política e ausência de um projeto nacional consistente. O debate público foi capturado pela lógica simplificadora da polarização. De um lado, o lulopetismo; de outro, o bolsonarismo. No meio desse duelo estéril, o interesse nacional se perde. Cresce, no entanto, um sentimento silencioso na sociedade: o desejo por liderança madura, capaz de olhar além das disputas eleitorais e recolocar o país na trilha do desenvolvimento.

O Brasil precisa de estadistas. Precisa de dirigentes que pensem grande, que compreendam a complexidade do país e que saibam que governar é construir futuro, não apenas administrar crises. O estadista não vive da discórdia; trabalha para superá-la. Não alimenta ressentimentos; convoca a sociedade para uma obra coletiva.

Nos últimos anos, um dos diagnósticos mais lúcidos sobre a paralisia brasileira tem sido apresentado por Aldo Rebelo. Ex-presidente da Câmara dos Deputados, ex-ministro da Defesa e profundo conhecedor da Amazônia, Rebelo tem advertido, com crescente preocupação, sobre o bloqueio institucional que vem impedindo o Brasil de desenvolver plenamente seu potencial.

O problema não é a proteção ambiental. O problema surge quando a proteção ambiental se transforma em instrumento de bloqueio permanente do desenvolvimento

Segundo Rebelo, o país vive um fenômeno preocupante: o desenvolvimento nacional passou a ser sistematicamente travado por uma engrenagem burocrática e judicial que paralisa investimentos, demoniza grandes obras e transforma decisões estratégicas em intermináveis batalhas judiciais.

Os exemplos são numerosos. Um deles é a Ferrogrão, ferrovia projetada para ligar a produção agrícola do Centro-Oeste aos portos do Norte. Trata-se de um projeto essencial para reduzir custos logísticos, aumentar a competitividade do agronegócio e diminuir o transporte rodoviário – mais caro e mais poluente. Mesmo assim, a obra permanece travada há anos em razão de disputas judiciais e questionamentos ambientais que, em muitos casos, ignoram estudos técnicos já realizados.

Outro caso emblemático envolve a exploração mineral na Amazônia. O Brasil possui algumas das maiores reservas de minerais estratégicos do mundo, incluindo as chamadas terras raras, fundamentais para a indústria tecnológica e para a transição energética global. No entanto, projetos de pesquisa e exploração mineral enfrentam um labirinto regulatório que envolve decisões do Ibama, ações do Ministério Público e sucessivas judicializações que acabam chegando ao Supremo Tribunal Federal.

Rebelo tem sido claro ao afirmar que o problema não é a proteção ambiental. O Brasil precisa preservar seus biomas e cumprir rigorosos padrões de sustentabilidade. O problema surge quando a proteção ambiental se transforma em instrumento de bloqueio permanente do desenvolvimento. O país parece viver sob a lógica do veto. Obras estratégicas são suspensas, projetos são judicializados, licenças são contestadas indefinidamente. O resultado é previsível: insegurança jurídica, fuga de investimentos e perda de competitividade internacional.

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A situação se agrava quando decisões administrativas passam a ser substituídas por disputas judiciais intermináveis. A judicialização da política e da economia cria um ambiente em que ninguém decide e ninguém assume responsabilidade. O país entra em compasso de espera. Sem infraestrutura moderna, não há crescimento. Sem segurança jurídica, não há investimento. Sem estratégia nacional, não há desenvolvimento sustentável.

Essa discussão é particularmente relevante quando se observa o papel da Amazônia no século 21. A região reúne três ativos estratégicos globais: biodiversidade, recursos minerais críticos e enorme potencial energético. Trata-se de uma fronteira econômica e tecnológica de primeira grandeza.

Transformar esse potencial em prosperidade exige planejamento de longo prazo, investimento em ciência e tecnologia e integração logística com o restante do país. Exige também instituições capazes de equilibrar preservação ambiental com desenvolvimento econômico.

Nenhum país sério abre mão de seus recursos estratégicos. Nenhuma nação responsável abdica de planejar seu próprio futuro. O Brasil, no entanto, tem frequentemente agido como se o desenvolvimento fosse um problema e não uma solução. Essa mentalidade precisa mudar.

O Brasil tem frequentemente agido como se o desenvolvimento fosse um problema e não uma solução

O combate ao crime organizado, por exemplo, não se faz apenas com operações policiais. Ele exige crescimento econômico, geração de empregos e expansão de oportunidades. O crime prospera onde o Estado desaparece e onde a economia não oferece alternativas.

Uma Amazônia integrada, produtiva e tecnologicamente avançada seria também uma poderosa política de segurança pública. Mas nada disso acontecerá enquanto o país permanecer aprisionado na lógica da polarização e da paralisia institucional. O Brasil precisa virar esse jogo.

A história mostra que nações se transformam quando surgem lideranças capazes de unir a sociedade em torno de um projeto comum. Lideranças que compreendem que o desenvolvimento não é obra de um governo, mas de uma geração.

Chegou a hora de superar o impasse estéril entre extremos ideológicos e recolocar o desenvolvimento nacional no centro da agenda pública. Chegou a hora de trocar incendiários por construtores. Chegou a hora de estadistas.

Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

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