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O presidente dos EUA, Donald Trump (L) e o candidato democrata à presidência, Joe Biden.
O presidente dos EUA, Donald Trump (L) e o candidato democrata à presidência, Joe Biden.| Foto: Morry Gash e Jim Watson/AFP

Semana que vem ocorrem as eleições presidenciais nos Estados Unidos. Bom, mais ou menos: afinal, lá se pode votar pelo correio, e já há até quem não só já tenha votado, como quem já o tenha feito, mudado de ideia e esteja querendo votar novamente. Dado o péssimo hábito dos governos americanos de invadir e bombardear meio mundo, há quem diga que todos os habitantes de nosso planetinha deveriam poder votar naquelas eleições. Faz algum sentido, mas, como é bastante improvável que isso um dia venha a ocorrer, por enquanto a briga de cão e gato fica por lá mesmo.

Como sempre, os candidatos finais são dois. Há também outros, correndo por fora como independentes, mas sem chance alguma de ganhar. Fica-se, assim, com, dum lado do ringue, o homem-abóbora Trump; e, do outro, um político sem-vergonha (em todos os sentidos) ao paroxismo, a raposa velha e felpudíssima Joe Biden. Este, ao que dizem, estaria ficando gagá. Aquele, pelo que se vê, nunca bateu bem da bola. Ou seja: tem-se uma escolha entre o menos péssimo. Para piorar a situação, a população americana vem se dividindo de maneira cada vez mais forte. O ponto em que as visões de mundo de cada metade da população se tornaram irreconciliáveis já passou. No momento atual, cada uma delas vê a outra como a encarnação do mal e da oposição ao “sonho americano” (para eles, aliás, as duas coisas são uma só).

Este processo de distanciamento rumo a um dualismo extremado não é novidade alguma, e infelizmente temos importado bastante dele para o discurso político tupiniquim. Mas a diferença cultural faz com que não consigamos, felizmente, sequer nos aproximar do distanciamento absoluto entre os fãs dum e doutro lado nos EUA. O antibolsonarista e o antilulista brasileiros são como um casal de pombinhos loucamente apaixonados perto da esquerda e da direita americana. E, mais ainda, este processo de distanciamento mútuo é algo que se opera apenas nas classes médias brasileiras que, tanto objetiva quanto comparativamente às dos EUA, são uma minoria minúscula da população. Já lá ele se espalha por todo o espectro social, e não há como escapar: ou se está dum lado ou doutro, sem meio-termo possível, sem terreno comum, sem acordo, sem tomar prisioneiros.

O ponto em que as visões de mundo de cada metade da população se tornaram irreconciliáveis já passou. No momento atual, cada uma delas vê a outra como a encarnação do mal e da oposição ao “sonho americano”

Como bem diz um amigo meu, brasileiro que mora por lá, a questão é escolher quais dentre os quatro crimes que bradam aos Céus por vingança a pessoa prefere, pois cada um dos dois partidos principais faz de pelo menos dois deles seus cavalos de batalha. É a escolha entre satanás e belzebu, uma escolha de Sofia tornada obrigatória pela deriva cultural daquele estranho país.

A vitória de Trump na eleição anterior foi uma surpresa absoluta para a esquerda americana, na medida em que a imprensa – majoritariamente de esquerda – dava a vitória de Hillary Clinton como favas contadas. Ao longo do seu primeiro mandato o distanciamento entre os lados se aprofundou ao ponto de agora, às vésperas da eleição, ser mais provável que improvável que – especialmente caso Trump seja reeleito – a legitimidade do próximo governo seja considerada no mínimo duvidosa pelo outro lado.

A imprensa de esquerda, por exemplo, vem publicando que “quando Trump se recusar a conceder ter perdido a eleição” isto ou aquilo há de acontecer. Ou seja: para eles não apenas a vitória eleitoral já são favas contadas (como eram na eleição anterior, aliás), como é necessário desta feita preparar-se para arrancar Trump da Casa Branca na marra, se preciso for. O nome técnico desta operação é “golpe de Estado”, aliás, coisa que os serviços secretos americanos têm enorme experiência em provocar mundo afora.

Ora, ao longo de todo o mandato de Trump estes organismos supostamente de Estado têm feito o possível e o impossível para desautorizá-lo, contê-lo e impedi-lo de cumprir suas promessas de campanha, ao ponto de terem preparado um dossiê que foi usado para tentar impichar o homem-abóbora com a acusação de ser agente russo(!). Não é difícil imaginar que estejam se preparando para ir mais longe ainda desta vez, e também é mais ou menos evidente que teriam nisto apoio das Forças Armadas americanas, que também não morrem de amores por Trump. Ou seja: após a eleição é certo que haverá distúrbios em grande escala no mínimo, com a possibilidade de um golpe de Estado e de, no pior dos casos, uma guerra civil aberta. A situação lá nunca esteve tão complicada.

Para os odiadores de Trump, ele é, claro, Hitler redivivo. No começo do primeiro mandato muitos chegaram a fazer, a sério, preparativos para fugir antes que fossem levados para campos de concentração e chacinados. Ao mesmo tempo que Hitler II, todavia, ele seria também um espião russo, ou ao menos alguém que os russos, por meio de chantagens, poderiam conduzir aonde quisessem. A fonte da chantagem seria, aparentemente, uma filmagem de Trump recebendo uma chuva de urina duma prostituta durante uma viagem a Moscou, e apreciando sobremaneira a experiência. Acho bastante duvidoso, mas vá lá. Entender a relação de americano e sexo já é querer demais.

Já para os odiadores de Biden, ele seria apenas um pau-mandado ou figura de fachada, atrás da qual estariam Hillary Clinton, Kamala Harris (sua candidata a vice) ou ambas. As manifestações de massa durante a pandemia em protesto contra a enésima morte dum acusado negro nas mãos de um policial branco e, mais ainda, o vandalismo que as acompanhou seriam uma primeira etapa dum golpe semelhante às “Revoluções Coloridas” com que os serviços secretos americanos provocaram vários golpes de Estado neste século.

A política acabou nos EUA, tendo sido substituída por um jogo em que o vencedor leva tudo

Ambos os lados acusam o outro de querer destruir as famosas liberdades civis americanas; para os trumpistas, Biden vai lhes tomar as armas e a união da esquerda com o Vale do Silício (Google, Facebook, Twitter etc.) vai lhes calar toda voz. Para os bidenistas, Trump retiraria o direito de cidadania de quem não fosse branco, anglo-saxão, protestante e heterossexual, ou coisa muito parecida, enfiando-os todos em campos de concentração ou deportando-os. Ambos, assim, veem o outro como o destruidor do que percebem como o Sonho Americano. Nenhum deles é mais capaz de colocar-se no lugar do outro, de sentir sua dor e perceber não apenas quais são seus valores, mas qual é a origem deles. Dois Sonhos Americanos mutuamente contraditórios, duas visões duma utopia a buscar, dois conjuntos de imperativos morais categóricos absolutamente antagônicos.

Curiosamente, Trump – cuja única religião é o culto ao dinheiro e que já se havia declarado pró-aborto, além de estar no enésimo casamento, preferindo como “esposas” modelos-e-manequins estrangeiras (da atual, inclusive, há fotos eróticas em circulação pelas redes) – tornou-se quase um novo messias para os “evangélicos” americanos. Estes são os protestantes que aderem a seitas recentes e tendem à direita política, em contraposição aos protestantes que fazem parte de denominações plurisseculares, que em geral colocam-se mais à esquerda. Os evangélicos, em geral, acreditam num plano providencial divino que passaria por uma guerra no Oriente Médio entre Israel e seus vizinhos, e por isso veem com bons olhos qualquer coisa que pareça aumentar a chance de isso acontecer. Além disso, fazem dos EUA, literalmente, a Igreja, vendo como referentes àquele país os textos bíblicos tradicionalmente vistos como tratando da Igreja.

Esta mistura entre religião e política, por outro lado, para os partidários de Biden (em sua maioria ateus ou agnósticos, com um pequeno número de membros de religiões mais liberais, como o unitarianismo, as denominações protestantes mais antigas e o judaísmo reformista), parece apontar para a possibilidade de uma teocracia. Daí, por exemplo, o uso de referências duma série televisiva passada numa distopia teocrática em que as mulheres se vestem como freiras, mas com hábitos vermelhos, para “apontar este perigo” inexistente a quem já tenha medo dele.

Os dois lados, em suma, não têm mais como conversar. A política acabou nos EUA, tendo sido substituída por um jogo em que o vencedor leva tudo, como nas sucessões internas dos antigos países da Cortina de Ferro. Dum lado coloca-se a parte mais pobre (e mais branca) da população americana, especialmente os interioranos, que viram o mundo em que seus pais viveram desaparecer de sob os seus pés e percebem em Trump alguém que quer trazer de volta aquele mundo. Do outro, a população das megalópoles costeiras, que, por trabalhar nos setores de serviços, não tem problema algum com a derrocada do sistema produtivo fabril daquele país (que, hoje, importa praticamente tudo) e percebe as políticas identitárias como uma forma de evidente progresso. São irreconciliáveis. Poderia até valer a cada vez mais frequente afirmação entre os trumpistas de que uma guerra civil seria muito rápida por o outro lado ser contra armas, não fosse o pequeníssimo detalhe de que eles não são contra armas, tout court; são contra armas nas mãos de amadores. As Forças Armadas e os serviços secretos e de segurança federais estão do lado deles, e estes estão tremendamente bem armados.

No meio, ainda que tendendo por outras razões, mais de interesse próprio que realmente culturais, estão as “minorias raciais”. Os EUA cuja suposta grandeza Trump quer trazer de volta eram um país em que a maioria esmagadora da população era branca, com um pequeno contingente de pretos, e estes “sabiam o seu lugar”. Isto começou a mudar com a luta pelos direitos civis nos anos 60 do século passado, que realmente tirou os pretos do papel de cidadãos de segunda (ou antes décima quinta!) classe. Contudo, foi uma vitória de Pirro que acabou por levar a nação dita preta (pois nos EUA, quando se fala de “raça”, na verdade se está falando de nação, não de etnia) a uma posição ainda pior no longo prazo. Isto veio como consequência imprevista de legislações paternalistas que, na prática, levaram à dissolução das famílias e impedem ainda hoje a ascensão social nos padrões da nação branca, ao manter nos bairros pretos uma cultura em que o estudo e o trabalho pesado são mal vistos.

Uma nova nação também apareceu nestas últimas décadas. Aliás duas: os “hispânicos” (ou seja, latino-americanos e seus descendentes) e os asiáticos. Os asiáticos são demasiadamente poucos para ter peso nas eleições, mas os hispânicos já ultrapassaram os pretos em número em muitos lugares, e há estados em que os brancos já são objetivamente uma minoria. Os hispânicos, de modo geral, encaixam-se bem (até demais, infelizmente) no tal Sonho Americano, subindo rapidamente de classe pelo trabalho duro e pelo estudo, mas, mesmo assim, dada a hostilidade que percebem da parte do eleitorado que apoia Trump, tendem a votar contra ele. Os hispânicos evangélicos, todavia, cujo número é tragicamente crescente, muitas vezes apoiam Trump, especialmente se participarem de congregações “racialmente” mistas com cultos em inglês.

Trump, ainda que não seja isolacionista, certamente não tem interesse algum em impor a cultura americana (que nos deu o divórcio, o aborto, o “casamento gay” etc.) fora de seu país

Em todo caso, é praticamente impossível fazer qualquer previsão neste momento, a não ser a mais evidente: qualquer que seja o resultado, ele dificilmente será aceito pelo outro lado. A confusão é certa, e só ela. Ambos estão prontos para acusar o outro de ter roubado as eleições, e dado o enorme peso do que estaria em jogo no imaginário de ambos, conflitos são garantidos. Eu tendo a crer que, em termos de número de votos, Trump provavelmente ganha, mas, como a eleição americana é decidida por um processo em que os votos são apenas um primeiro passo, isso não lhe garantiria nada. Digo isto porque os escândalos que foram batidos para crescer como claras em neve por toda a mídia americana de esquerda para tentar atingir Trump eram tão absurdos, em sua maior parte (as coisas realmente péssimas que ele fez não foram usadas contra ele, mesmo por serem em uma medida ou outra agradáveis à esquerda), que apenas quem já quisesse vê-lo como um monstro poderia crer neles.

Por outro lado, agora, às vésperas das eleições, surgiram provas abundantes de negociatas milionárias de Biden, e a recusa da mídia em divulgá-las, somada à censura das notícias pelos meios de comunicação social, acabaram sendo um segundo escândalo a aumentar o primeiro. Há um número considerável de gente que mudou de ideia e desistiu de votar em Biden por conta disso. Mais ainda, como os trumpistas – nisso imitados pelos bolsonaristas, aliás – tendem a menosprezar o perigo da pandemia, poucos ficarão em casa no dia das eleições (o voto lá não é obrigatório). Já os bidenistas tendem a superestimar este perigo, e é provável que muitos não votem para não ter de se expor ao vírus. Mais ainda na medida em que o discurso da esquerda, como na eleição passada, dá a vitória de Biden como certa.

Para nós, aqui no Brasil, uma vitória trumpista seria provavelmente melhor, por duas razões. A primeira é que Trump, ainda que não seja isolacionista, certamente não tem interesse algum em impor a cultura americana (que nos deu o divórcio, o aborto, o “casamento gay” etc.) fora de seu país. Já a esquerda de Biden/Hillary/Kamala, sempre tomando a última novidade da decadência final daquele país como “direito humano”, tende a querer impor na marra a todos os outros as besteiras que fazem. A segunda é que Bolsonaro apostou tudo nesse cavalo, e se ele perder a situação do Brasil nos organismos multilaterais ficará ainda pior, o que é sempre possível. Quem viver verá.

Conteúdo editado por:Marcio Antonio Campos
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