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Foto: Pedro Pardo/AFP
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A migração em massa é um dos fenômenos que mais chamam a atenção de quem se der ao trabalho de ler as notícias internacionais, hoje em dia. No México estão, atualmente, milhares de nicaraguenses, hondurenhos e guatemaltecos fugindo da explosão de violência em seus países e buscando asilo nos Estados Unidos. É uma caminhada que faz lembrar o êxodo dos hebreus do Egito em busca da Terra Prometida, história que faz parte inextrincável do inconsciente cultural do Ocidente. Na Europa, vastas multidões oriundas da África e do Oriente Médio, às quais se somam grupos avantajados de fugitivos do Afeganistão, ameaçam sobrepujar os sistemas de acolhimento oferecidos pelos governos locais.

Nada disso, contudo, é novidade. Como a própria história do êxodo dos hebreus nos mostra, vastas mudanças populacionais são uma constante na história humana. O que é novidade, contudo, é o que muita gente no Ocidente tende a considerar fato natural, trocando assim o específico pelo universal e o universal pelo específico: a existência de fronteiras e, mais ainda, de Estados nacionais. Os Estados nacionais, que confluem numa só entidade a nação e o governo, são uma invenção tremendamente recente e já em vias de desaparecimento. E, como todo fenômeno social que chega próximo de seu fim, eles sofrem com o recrudescimento de tentativas de manter pela força o que não se mantém mais pela coesão social espontânea.

Na verdade, todavia, os Estados nacionais sempre foram um fenômeno perfeita e completamente artificial. Todos, ou quase todos os Estados nacionais surgiram pela violência, aniquilando física ou culturalmente enorme número de pequenas nações em seu território, destruindo línguas, fazendo terra arrasada de hábitos pluricentenários, impondo costumes da nação mais forte e, em suma, reduzindo os habitantes de um Estado à participação na cultura da nação mais forte. Foi assim que a França praticamente eliminou a existência cultural da Ocitânia, da Bretanha e de tantas outras nações que deram o azar de estarem submetidas aos francos, ou franceses. A partir da Revolução Francesa, a língua de Paris sobrepujou todas as inúmeras línguas locais; os hábitos de Paris tornaram-se os únicos possíveis naquele vasto território hexagonal.

Estas vastas construções artificiais que são os Estados nacionais, com suas artificialíssimas fronteiras, dificultaram sobremaneira o tradicional exercício migratório, por tentar congelar ou cristalizar a cultura “nacional” construída pela força e impedir a entrada de novos componentes étnicos e culturais. Normalmente, a fronteira entre uma cultura é outra não foi jamais abrupta. Tem-se sempre uma passagem culturalmente intermediária, como ainda hoje temos no extremo Sul do Brasil, onde a cultura gaúcha está em ambos os lados da fronteira dos Estados nacionais lusófono e hispanófonos. O gaúcho pode ser brasileiro, uruguaio ou argentino, e será sempre fundamentalmente gaúcho.

Já outras fronteiras, mais artificiais, operam de um modo que causaria horror a qualquer um de nossos antepassados. É o caso da fronteira entre os EUA e o México, uma linha traçada em um mapa pelos conquistadores anglo-saxões, alijando de seu território ancestral inúmeras populações e criando uma situação absurda em que de um lado de uma linha arbitrária tem-se uma língua e uma cultura e, do outro, outra, sem intermediações culturais. Torna-se, por sua história e pelo que está a ocorrer no momento, um excelente caso de estudo o do vasto grupo de migrantes que ora se aproxima da fronteira americana – incluindo, em perfeita reverência à pós-modernidade do século 21, um grupo isolado de cerca de um milhar de pessoas com atração sexual por gente do mesmo sexo, que acabaram por se unir para não serem maltratados em meio aos demais migrantes, gente sobremaneira tradicional em seus modos.

Aquela região – grosseiramente englobando pelo menos do Texas ao sul da Califórnia, ao norte, até a Nicarágua, ao sul – sempre foi terreno migratório. As populações de lá sofreram enormes reviravoltas nos últimos 600 anos, e estima-se que antes disso o fenômeno tampouco era desconhecido. Afinal, o homem é um ser deambulante; quando a situação em um lugar não está boa, há sempre a opção de “votar com os pés” e ir em busca de uma terra da promissão alhures. Em termos históricos, a novidade não é a migração, mas a fixação no solo e, muitíssimo mais recentemente, o estabelecimento de Estados nacionais com fronteiras artificiais. Vejamos um pouco da história daquele cantinho tão quente do mundo.

O povo vivo de estabelecimento mais antigo na região é o dos maias. Quando da chegada dos espanhóis, na virada do século 15 para o 16, todavia, a civilização maia já havia caído na mais completa decadência. Suas cidades gigantescas haviam sido abandonadas, com a população revertendo a um modo de viver muito mais primitivo. Para piorar a situação, um grupo a que chamamos astecas havia imigrado em massa do que hoje é o Texas, impondo aos maias que cativou uma religião vingativa e cruel – não que a dos maias não fosse algo semelhante, claro; ambas tinham sacrifícios humanos. A diferença é que os deuses astecas demandavam muito mais sangue que os deuses maias, ao ponto de despovoar vastas regiões. Eram dezenas ou centenas de sacrifícios humanos por dia. Até hoje, contudo, há quem fale maia na Península do Yucatán, onde os astecas não conseguiram impor plenamente seu domínio, ao sul. Foram os 400 cavaleiros espanhóis sob Cortéz a ponta de lança que, com auxílio de centenas de milhares de maias e de alguns povos astecas rebeldes, conseguiu destruir o império asteca.

A presença libertadora espanhola passou, então, ao norte, e frades franciscanos missionários, dentre os quais se destaca São Junípero Serra, auxiliados sempre por um pequeno contingente de soldados espanhóis, foram desbravando territórios que nenhum europeu jamais pisara, convertendo tribos inteiras, fazendo cessar os sacrifícios humanos e pacificando antigos conflitos tribais. Jovens espanhóis, em busca de aventuras e riquezas, frequentemente seguiam os missionários e casavam-se com moças locais, criando uma cultura que reunia elementos indígenas e europeus, sempre sob a luz da doutrina católica. Apenas as tribos nômades que se haviam adaptado ao uso de cavalos fugitivos das missões espanholas ou nelas capturados eram ainda arredias aos missionários; a grande maioria dos indígenas, e praticamente todos os que viviam sedentariamente, já era católica.

As tribos guerreiras nômades, todavia, dentre as quais contam-se mais fortemente as ditas apaches – parentes distantes dos astecas, aliás –, continuavam a perseguir os nativos cristianizados. Com sua perfeita adaptação ao uso do cavalo, elas se haviam tornado ainda mais perigosas que as hordas mongóis que assolaram a Europa pouco antes. Com o fim do império espanhol e a independência do México, no início do século 19, passou a ser um dos focos do governo local a proteção dos sedentários contra os nômades. E foi aí que foi feita a grande besteira: o governo mexicano permitiu a entrada de colonos anglo-saxões, desde que eles se convertessem ao catolicismo e aprendessem espanhol, para ajudar na guerra aos nômades. Muitos foram; nenhum cumpriu as exigências.

Para piorar a situação, eles levaram consigo escravos, coisa que – com razão – o governo mexicano não tolerava. Foi formalmente proclamado pelo governo que a escravidão era proibida, e isso levou os colonos anglo-saxões a rebelar-se e declarar a independência da “República do Texas”. Quando o fizeram, passaram imediatamente a expulsar os nativos e colocar em situação calamitosa ou, no mínimo, de indigência todo católico ou pessoa de sangue indígena (coisas que eram mais ou menos sinônimos) remanescente no território que passaram a controlar.

Dez anos depois, os EUA anexaram a “República do Texas” e, ato contínuo, declararam guerra ao México. A guerra foi uma calamidade para este país: o agressor anglo-saxão dominou completamente o México, devastando o país e tomando dele 60% de seu território (a área que hoje compreende os estados da Califórnia, Nevada, Utah, Novo México, Texas e Colorado). Alguns líderes americanos sulistas tentaram anexar todo o resto do território mexicano e avançar mais para o sul na direção da Guatemala, com o objetivo declarado de escravizar toda a população ameríndia católica. Foram, contudo e felizmente, voto vencido. O invasor contentou-se com todo o norte do país. Repetiu-se e intensificou-se, evidentemente, nas áreas conquistadas nesta guerra de agressão o mesmo que já ocorrera no Texas quando da traição dos colonistas anglo-saxões, com o genocídio da população nativa e sua substituição no atacado por colonos etnicamente norte-europeus.

E foi aí que se estabeleceu a fronteira aonde se dirigem os guatemaltecos, nicaraguenses e hondurenhos expulsos pela violência (aliás, em grande medida causada pelas sucessivas intervenções militares e comerciais – uma coisa não se distingue da outra, na prática – americanas na região). Ao contrário da população assassinada em massa na “limpeza étnica” do território conquistado ao México pelos EUA, contudo, eles não são etnicamente astecas. Curiosamente, são maias que estão a fazer o caminho inverso do que fora feito pelos invasores astecas de suas terras séculos atrás, subindo ao norte enquanto aqueles desceram ao sul. No caminho, todavia, estão as tropas dos que invadiram e chacinaram a população local 200 anos atrás, vindas do “Extremo Oriente” europeu.

Para os Estados Unidos, seria excelente negócio receber esses migrantes: só pelo fato da caminhada que fizeram eles já mostraram não serem gente preguiçosa e acomodada. Mais ainda: seria uma injeção civilizacional naquele país tão culturalmente combalido, com gente profundamente religiosa e trabalhadora. A política interna americana, contudo, dificulta que seja feito o correto, na medida em que Trump foi eleito apelando justamente àquele mesmo componente cultural profundamente racista e xenófobo que levou à invasão do México e ao roubo de mais de metade do país, seguidos de genocídio da população nativa. Hoje não dá mais para mandar matar todo mundo; mesmo a morte de uns poucos nas mãos do Exército americano já provocaria uma crise imensa dentro do país, felizmente. Mas tampouco seria possível fazer o evidente e arrancar todas as grades que artificialmente mantêm isolado aquele experimento social maçônico de uma cultura integralmente dedicada a Mammon. Afinal, Trump foi eleito com a promessa de construir um muro!

Idealmente, nosso governo brasileiro poderia mandar navios para recolher os migrantes, trazê-los para cá e espalhá-los pelo país. Afinal, somos – mais que qualquer outro país no mundo – uma nação de migrantes, um cadinho onde todas as culturas se misturam e se enriquecem mutuamente.

Que bom.

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