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CAP na Libertadores ou parábola de um pênalti de minuto e meio aos 50 minutos do segundo tempo antes de um Atletiba desimportante

O primeiro lance do jogo foi a sagração do que veríamos como conceito: Marcelo Cirino – batismo que sempre me remete a Carrossel – chegou atrasado e atropelou o lateral do Sporting Cristal. [Minha companheira paranista passou as duas semanas do confronto chamando o adversário do CAP de Shopping Cristal.]

Foi um destes certames de alta voltagem, quando um esporte parece o coliseu de cada alma. Confesso até ter ficado admirado com o número reduzido de expulsões. O vermelho que levou também a cabo o atleticano foi o mais divertido: um tal de empurrar ao outro sem, de fato, acontecer uma violência. Lembrei-me das brigas de escola que presenciava no ensino primário durante o recreio. Bons tempos.

Quando toda uma narrativa é definida por acontecimentos de ordem dramática considero equivocado analisar uma partida ao fio da razão. Agora sabemos que o Atlético Paranaense está classificado, sabemos que o clube esteve três vezes à beira da morte e sabemos que não morreu.

Quem acompanhou ao vivo – imagina-se no estádio – capturou a eletricidade da decisão e viu muito balão na área, poucas chances claras de gol, a determinação defensiva da equipe do longínquo distrito de Rímac, um CAP sem muitas opções táticas, o gramado da Vila Capanema em 50 tons de verde.

O primeiro gol do jogo, de Manoel-Guerrón, saiu assim por sair, na cobrança de falta mais matreira existente, que faz o goleiro sair da área como se num meeting de patinação artística. Mas se fosse pra ser simples, não se fazia e o CAP caiu na mais inocente das armadilhas de decisões: deu uma falta próximo da área no lance seguinte ao gol conquistado.

O gol de empate dos peruanos fez o jogo se tornar uma angústia graciliana, a torcida ficou menos incisiva, alguns jogadores sumiram, a bola queimando nos pés em efeitos de fantasmagoria, duas chances claras para o Cristal definir a série: eis que no último lance do jogo, aos 50 minutos do segundo tempo, a história esportiva resolveu trazer contornos de tragédia grega a uma partida inóspita de Curitiba. A bola cruza a área dos outros, nenhum dos sete ou oito peruanos consegue dar uma bica decente, dois atleticanos promovem mais um tanto de incompetência e o último dos troianos faz cosplay de Suárez e realiza uma defesa acrobática-ilegal.

É pênalti.

Éderson, o artilheiro com credencial de auxiliar de retrabalho, discreto como um catador de latinha, pega a bola, enquanto os peruanos reclamam por protocolo. Passam-se quase 90 segundos até a cobrança. Foi Sófocles, Win Wenders, Nelson Rodrigues, Ugo Georgetti, toda uma trajetória dramática até ele se encaminhar lentamente à bola – como se não tivesse um Peloponeso a resolver – e cobrar com a tranquilidade de um Dalai Lama redivivo.

Então vieram os pênaltis, mais duas ressurreições atleticanas, Manoel-Guerrón monstro novamente, enfim, o que não mais me interessou tanto quanto Éderson andante no último lance do jogo. Teve também os torcedores chorando nas transmissões dos rádios e uma certa sensação de catatonia em quem viu o que viu.

Porque futebol é sofrimento com esperança, é ressignificado, um esporte que se não é brilhante enquanto possibilidade racional e estética pode ser visceral como um amor perdido ou notícias de um paraíso provisório.

Ricardo Pozzo

Ricardo Pozzo

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