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Afetação formal e roteiro linear comprometem a dramaticidade de Foi Apenas um Sonho

Divulgação
Leonardo DiCaprio e Kate Winslet: cenas de um casamento americano.

Quando foi lançado nos Estados Unidos, o romance Foi Apenas um Sonho (Revolutionary Road, 1961), causou impacto na cena literária norte-americana. Mas não foi um sucesso de vendas, assim como o resto da obra do escritor Richard Yates (1926-1992), que jamais teve um best seller. Não é difícil compreender por quê.

O livro de Yates faz um ataque frontal ao chamado american way of life do pós-Segunda Guerra Mundial. Os Estados Unidos, elevados à condição de superpotência econômica após a vitória das forças aliadas, veem a população branca, de classe média, que vive nas grandes cidades, migrar para os subúrbios. Famílias que antes habitavam apartamentos e pequenas residências nos bairros centrais mudam-se para casas espaçosas, de cômodos amplos e cozinhas equipadas com o que havia de mais moderno em termos de eletrodomésticos. Um modo de vida aparentemente perfeito foi forjado.

Foi Apenas um Sonho, agora adaptado para o cinema pelo diretor luso-britânico Sam Mendes, vai na contramão o estereótipo de bem-estar econômico e estabilidade. Livro e filme implodem esse ideal, eviscerando a vida íntima de um jovem casal exemplar, Frank e April Whealer.

Interpretados, respectivamente, por Leonardo DiCaprio e Kate Winslet, o “casal de ouro” de Titanic, os Wheeler são belos, relativamente cultos e sonham viver, na casa que compram na Rua Revolutionary, o sonho americano. Não é o que acontece.

Com o passar dos anos e a chegada dos filhos, a esperança cede lugar à frustração, palavra-chave para o entendimento do que tanto o filme quanto o livro que lhe deu origem querem dizer.
Frank segue uma rotina entediante: todas as manhãs acorda, toma café da manhã com a família, dirige até a estação de trem e embarca rumo a Nova Iorque, onde tem um emprego burocrático na mesma empresa em que o pai trabalhou.

April, por sua vez, aos poucos, encarna o papel de desperate housewife. Aspirante a atriz, mas sem muito talento para se profissionalizar, seu dia-a-dia se divide entre a casa – ícone da América pós-guerra -, os filhos pequenos e as poucas amizades que fez na vizinhança. Dona de um temperamento mais inconformista do que Frank, ela é uma bomba-relógio. Prestes a explodir. Para evitar que isso ocorra, ela sugere ao marido que abandonem tudo e se mudem para Paris, onde poderão ter “uma vida de verdade”.

Sam Mendes, ao optar por adaptar o romance de Yates, revisita um território familiar. Em Beleza Americana (1999), longa-metragem que lhe deu o Oscar de melhor direção, ele já havia disparado contra a classe média suburbana norte-americana. Mas se, em seu premiado trabalho de estreia, ele recorreu ao humor e à ironia (derivados, possivelmente, do roteiro de Alan Ball), em Foi Apenas um Sonho o cineasta optar pela dor. Nua e crua, em tese. Aí começam os problemas do filme.

Indicado ao Oscar em três categorias — ator coadjuvante (Michael Shannon), direção de arte e figurinos –, Foi Apenas um Sonho não consegue o mesmo impacto do livro em que é baseado, apesar dos vários méritos da produção. A frustração de Frank e, sobretudo, a de April não geram empatia. Apenas incomodam, encapsuladas em uma produção requintada, que reproduz com absurdo detalhismo o modo de vida na América dos anos 1950. O requinte técnico, da fotografia de Roger Deakins à trilha sonora jazzística de Thomas Newman, não ajuda a potencializar a trama. A mascara, de certa forma.

O roteiro, um tanto linear e monocórdio, apresenta a triste história dos Wheeler com um distanciamento frustrante. O sofrimento dos personagens, apesar de resultar de inquietações atemporais dos seres humanos, parece aprisionado pela época em que eles vivem. Seus desdobramentos chocam, é verdade, mas não transcendem os limites da tela. Uma pena.

Kate Winslet, uma atriz consumada, se agiganta ao lado de um Leonardo DiCaprio correto, por vezes tocante, mas de maneira geral inadequado para o papel. O personagem, um homem de 30 anos com uma guerra nos ombros e muita insatisfação represada, estaria em melhores mãos se tivesse sido vivido por um ator um pouco mais maduro, como Edward Norton, Aaron Eckhart ou mesmo Ryan Gosling. Quem rouba as poucas cenas nas quais aparece é Michael Shannon (de Possuídos), indicado ao Oscar por seu brilhante desempenho como o matemático esquizofrênico John Givings, que serve como uma espécie “subconsciente terceirizado” dos Wheeler, precipitando verdades reprimidas e perigosas.

Escrito sob a luz da explosão da psicanálise nos Estados Unidos, Foi Apenas um Sonho (relançado no Brasil pela Alfaguara) resultou num filme visualmente belo, porém frustrante. Frio, jamais mergulha por inteiro na subjetividade que pretende discutir.

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