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Família Vende Tudo é retrato politicamente incorreto do Brasil suburbano

Divulgação
Caco Ciocler, entre Marisol Ribeiro e Luana Piovane: o país do vale-tudo.

A população pobre e suburbana das grandes cidades tem estado presente no imaginário do cinema brasileiro há décadas, com bons e maus resultados. Para alguns críticos mais ferozes, ela é, muitas vezes, representada de forma exótica, sem conhecimento de causa, por diretores que pouco ou nenhum convívio tiveram com o cotidiano das periferias. Há os que questionam a obsessão de alguns realizadores por uma certa estética “mundo-cão”, marcada por um mix de pobreza, marginalidade e violência. E também existem os que enxergam, na visão de outros cineastas, um certo idealismo ingênuo, para o qual o destituído é sempre vítima, jamais al­­­goz. A comédia Família Vende Tudo, do paulista Alain Fresnot (de Desmundo), ao mesmo tempo, erra e acerta ao brincar e embaralhar es­­sas noções.

Lima Duarte e Vera Holtz são Ariclenes (curiosamente, o verdadeiro nome do ator) e Rose, casal que sobrevive da contravenção. Camelôs, eles vendem muamba trazida do Paraguai e produtos piratas nas ruas de São Paulo. Vivem aos trancos e barrancos.

Retrato de um Brasil disfuncional
Quando um carregamento deles é confiscado na fronteira, Cida tem uma ideia que pode, em tese, tirá-los do lodaçal: convencer a filha, Lindinha (Marisol Ribeiro), uma garota bonita e de aparência falsamente inocente, a seduzir o cantor brega Ivan Carlos, vivido por Caco Ciocler, impagável em um papel que faz pensar numa ver­­­são serteneja do Latino.

Apesar de ser casado com a peruaça Jennifer (Luana Piovani), Ivan não foge muito ao estereótipo do ídolo popular, à la Latino, cujas turnês pelo interior do país são verdadeiras maratonas sexuais, com a participação entusiasmada das fãs que o assediam em cada buraco onde ele e sua banda se apresentam.

Ao colocar em ação esse plano, ninguém na família se salva da tentação do dinheiro fácil: o filho evangélico (Robson Nunes), que vive citando passagens bíblicas, revela-se um ardiloso negociador e até o caçula entra na roda.

Apostando em um tom politicamente incorreto, que retrata uma família da classe D de forma no mínimo cáustica, Família Vende Tudo assume o enorme risco de pro­­­vocar a ira de quem pode en­­­xergar no filme uma crítica social mediada pelo olhar preconceituoso de um cineasta que mal conhece o universo que pretende retratar (leia matéria na página 4). E isso, em certa medida, é mesmo verdade.

De fato, Fresnot, em alguns mo­­­mentos, pesa a mão ao optar pelo escracho, pelo humor a qualquer custo, sem tentar problematizar o que move os personagens em direção do erro, da desonestidade. Não há heróis nem vítimas no filme. Todos passam todos para trás quase o tempo todo.

Essa amoralidade, no entanto, também oferece ao espectador certo frescor, uma alternativa ao entretenimento formulaico e previsível demais que o cinema comercial brasileiro, sobretudo as comédias, tem apresentado nos últimos tempos. GG1/2

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