

O ótimo Russell Crowe vive um um repórter experiente que enfrenta um dilema ético.
Quando o escândalo Watergate veio à tona, os jornalistas Carl Bernstein e Bob Woodward, do The Washington Post, viraram super-heróis da mídia. Reeditaram o mito bíblico do pequeno Davi que derruba o gigante Golias, levando o presidente republicano Richard Nixon a renunciar o cargo, em 1974.
O caso gerou o longa-metragem Todos os Homens do Presidente (1976) e desencadeou um “surto” de filmes sobre a imprensa, como o clássico Rede de Intrigas (1976), de Sidney Lumet, e Ausência de Malícia (1981), de Sidney Pollack.
Produções sobre os bastidores da notícia, contudo, há muito deixaram de ser um filão rentável para o cinema e para a televisão. Talvez porque histórias como a do repórter Jayson Blair, do The New York Times, que plagiou e inventou centenas de reportagens nas fuças dos editores do mais importante jornal do mundo, deixem a opinião pública meio ressabiada quanto aos padrões éticos praticados no meio.
O fato é que um filme como Intrigas de Estado, embora não seja uma obra-prima, é muito bem-vindo – e pertinente. Ainda mais num momento em que os jornais impressos ao redor do mundo, sobretudo nos Estados Unidos, parecem enfrentar uma crise sem precedentes, com o desaparecimento de diários importantes, como o Seattle Post-Intelligencer, cuja versão impressa deixou de circular e hoje só pode ser lido na internet. O thriller político de Kevin McDonald (de O Último Rei da Escócia) é uma espécie de libelo em louvor ao jornalismo impresso.
Baseado na minissérie britânica State of Play (2003), produzida pela BBC, Intrigas de Estado tem como grande mérito mostrar as engrenagens de um jornal em crise, o fictício The Washington Globe. O veículo, com circulação em queda, acaba de ser vendido para um grande grupo e sua diretora de redação (Helen Mirren, de A Rainha) cobra aumento nas vendas, resultados. É nesse momento nevrálgico que duas notícias, uma aparentemente desimportante e outra bombástica, vêm à tona: um ladrão (e talvez traficante) e um ciclista são assassinados à queima-roupa e a assessora do jovem e promissor deputado Stephen Collins (Ben Affleck) morre nos trilhos de uma estação de metrô da capital federal, num aparente caso de suicídio.
Mais interressado em cobrir e desvendar os misteriosos assassinatos, o repórter investigativo Cal McAffrey (Russell Crowe, ótimo como sempre) é atropelado pela outra ocorrência: Stephen Collins é um de seus melhores amigos de juventude e a suposta suicida era amante do deputado.
Apesar de ter reviravoltas um tanto rocambolescas (e até inverossímeis), a trama de Intrigas de Estado retrata com fidelidade as entranhas do processo de produção da notícia – e num momento histórico particularmente intrigante.
O repórter à moda antiga McAffrey, dividido entre cumprir seu papel e ajudar seu amigo, entra em confronto com a novata e ambiciosa Dela Frye (Rachel McAdams), que mantém na versão on-line do The Washington Globe um popular blog político.
De um lado do ringue, a experiência do profissional que acredita na apuração, no cruzamento de fontes e, sobretudo, no cheiro da tinta no papel.
Do outro, o poder da instantaneidade, da interatividade, das notícias que se fazem (e desfazem) em tempo real na tela do computador. Quem ganha é o espectador.



