Encontre matérias e conteúdos da Gazeta do Povo

Lilia Cabral dispensa botox e brilha em Divã. O filme é melhor do que eu esperava

Divulgação/Downtown
Na comédia, Lília Cabral tem cenas sensuais (e ternas) com Gianecchini.

Se Divã fosse um longa-metragem falado em inglês, com elenco de apelo internacional, Mercedes, a protagonista vivida no filme brasileiro por Lília Cabral, encontraria na britânica Emma Thompson (Retorno a Howards End) a intérprete ideal. Há um forte traço em comum entre as duas atrizes: ambas são capazes, em um mesmo papel – ou, por vezes, numa mesma cena –, de transitar entre o drama e a comédia sem que a mudança de tom pareça algo forçado, artificial. Sem falar que são artistas de verdade, que evitam participar do grotesco circo de celebridades e dispensam os procedimentos estéticos que buscam a juventude eterna (e ilusória).

A artista plástica Mercedes, personagem em torno da qual é construída a trama de Divã, é uma mulher de meia-idade que, ao tomar a decisão de fazer psicoterapia, se descobre menos satisfeita com sua vida do que imaginava. O casamento feliz não é ruim, mas já não a satisfaz. Os filhos, na adolescência, começam a ganhar autonomia. E a ausência de uma vida que seja de fato sua aos poucos se evidencia, colocando Mercedes contra a parede. A partir de seus relatos ao analista, cujo rosto nunca se vê e a voz jamais é ouvida, o roteiro se desdobra.

Adaptação da peça de teatro homônima que, por sua vez, foi inspirada em texto da jornalista e escritora gaúcha Martha Medeiros, Divã tem o grande mérito de trazer para o universo do entretenimento de massa um segmento pouco representado pelo cinema (ou mesmo pela tevê) no Brasil: as mulheres maduras. Muito se fala da crise masculina nessa faixa etária, mas quase nada sobre a contrapartida feminina.

Por conta do afinado e sensível desempenho de Lília Cabral (sem botox ou silicone), que já havia vivido o papel no teatro, Marcedes é complexa o suficiente para provocar reflexões no público. E o roteiro de Marcelo Saback, também autor do monólogo, é esperto no sentido de emprestar à narrativa momentos de alta comicidade, que servem de contraponto para os dilemas existenciais da protagonista.

Funcionam bastante bem tanto o processo de desgaste e separação entre Mercedes e o marido, Gustavo (José Mayer), quanto o idílio extraconjugal entre a personagem e Theo (Reynaldo Gianecchini), um homem mais jovem e solteiro convicto com quem ela vive uma história breve, porém erótica e terna. O mesmo, infelizmente, não pode ser dito do dispensável e artificial envolvimento de Mercedes, já uma divorciada oficial, com um garotão (Cauã Reymond, se repetindo desnecessariamente) de 19 anos. É o ponto baixo de Divã e quase põe tudo a perder.

Entre as virtudes dessa irregular mas sedutora comédia dramática talvez a mais tocante seja a relação entre Marcedes e sua melhor amiga, Mônica (Alexandra Richter), uma perua com quem a protagonista partilha algumas das cenas mais inspiradas de Divã. A amizade das duas percorre um caminho que vai da comédia rasgada ao melodrama assumido. E funciona do início ao fim do filme, que é melhor do que a média das produções que levam a grife Globo Filmes.

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.