

Precious representa o estado de opressão a que milhões de jovens afro-americanas estão condenadas, mergulhadas em miséria e negligência emocional.
Há muito em comum entre Preciosa — Uma História de Esperança e A Cor Púrpura. Ambos têm como personagens centrais jovens negras e pobres, violentadas pelos próprios pais, dos quais engravidam mais de uma vez. Apesar da bestialidade de que são vítimas, elas tentam escapar do círculo vicioso a que estão expostas, lutando contra o analfabetismo e a falta de escolhas que as condenam a uma miséria mais do que material e aparentemente irreversível. Outro ponto que une os filmes é a origem literária de seus enredos, assinados por autoras afro-americanas — Saphire e Alice Walker, respectivamente. As escritoras fizeram uso dos livros, narrados em primeira pessoa, como libelos contra a opressão que vitimiza suas protagonistas.
A grande diferença entre os dois longas-metragens, além das dezenas de décadas que separam as histórias que contam, são os pontos de vista adotados pelos diretores que as assinam. Enquanto A Cor Púrpura (1985), apesar de belo e comovente, tem a marca do idealismo algo ingênuo de Steven Spielberg, deslumbrado com uma cultura que não é a sua, Preciosa é bem mais cru e, sobretudo, inventivo na forma. Talvez porque o ainda pouco conhecido Lee Daniels seja negro e tenha vivenciado na pele a realidade — o bairro nova-iorquino do Harlem nos anos 80 — que decidiu levar à tela.
Escapando da tentação de fazer de seu longa um estudo sociológico,ou uma obra de denúncia, Daniels permite ao espectador um mergulho na subjetividade de Precious. O ótimo trabalho de edição costura de forma orgânica o cotidiano da personagem a suas digressões fantasiosas e escapistas. Quando o mundo parece desabar sobre sua cabeça, ela sonha estar em um videoclipe, na vant-première de um filme ou dançando com um rapaz de pele mais clara do que a dela, capaz de resgatá-la do inferno em que vive. É quando vem à tona a porção adolescente de alguém cuja infância lhe foi usurpada sem piedade.
Claireece Precious Jones (Gabourey Sidibe), a protagonista do filme, tem 16 anos, é obesa mórbida e, apesar de ir à escola todos os dias, não consegue aprender. Teve sua primeira filha, portadora da Síndrome de Down, aos 12 anos. Além de ter sido, desde a infância, estuprada pelo pai, Precious também sofre em seu dia a dia toda a espécie de abuso por parte da mãe (Mo’Nique, em desempenho extraordinário), que não a perdoa por ter lhe “roubado seu homem”.
Quando a direção da escola de Precious descobre que ela está grávida de novo, a suspendem e a encaminham a outra instituição de ensino, um colégio alternativo onde terá atenção individualizada. A mãe prefere que a garota abandone os estudos e passe, como ela própria, a receber dinheiro da Previdência Social.
Críticado por parte da comunidade afrodescendente por reforçar estereótipos dos negros que vivem nas grandes cidades americanas, Precious causou furor no Festival de Sundance de 2009, onde recebeu diversos prêmios, e está indicado a seis Oscars, inclusive melhor filme, direção, atriz e atriz coadjuvante. É um filme forte, moderno visual e narrativamente, com excelentes interpretações e a coragem de não dourar a pílula. Resulta numa obra devastadora e necessária.



