

Luis Fernando Verissimo ganhou o prêmio de livro do ano de ficção por Diálogos impossíveis (Objetiva), do Jabuti. Outo premiado foi o jornalista Audálio Dantas, com As duas Guerras de Vlado Herzog: da Perseguição Nazista na Europa à Morte sob Tortura no Brasil (Civilização Brasileira), eleito o livro do ano de não ficção.
Verissimo tem coluna na página 3 aqui da Gazeta do Povo.
A seguir, reproduzo uma das principais crônicas do livro de Verissimo, uma discussão entre Drácula e Batman no asilo:
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A diferença
Uma vez imaginei o encontro de Batman e Drácula numa clínica geriátrica, na Suíça.
Batman não acredita que Drácula tenha mais de 500 anos. Não lhe daria mais de 200.
– Tempo demais – diz Drácula. – Estou na terceira idade do Homem. Depois da mocidade e da maturidade, a indignidade…
O cúmulo da indignidade, para o conde, é a dentadura falsa. Ele não pode ver sua própria dentadura sobre a mesinha de cabeceira sem meditar sobre a crueldade do tempo. Já tentou o suicídio, sem sucesso. Estirou-se numa praia do Caribe ao meio-dia, para que o Sol o reduzisse a nada. Só conseguiu uma boa queimadura. Dedicou-se a uma dieta exclusiva de alho. Só conseguiu que as mulheres o expulsassem da cama. A estaca no coração também não funcionara. Precisava ser de um determinado tipo de madeira benta, usada numa determinada fase da Lua, a logística do empreendimento o derrotara. E ninguém se dispõe a matá-lo, agora que seus caninos são postições e ele não é mais uma ameaça. Drácula está condenado à vida eterna, à velhice sem redenção e à indignidade sem-fim. Internou-se na clínica com a vaga esperança de que a Morte, que vem ali buscar tanta gente, um dia o leve por distração.
E você, Batman? Batman conta que está na clínica para retardar a Morte. Não confessa sua idade, mas recusa-se a tirar a máscara para que não vejam suas rugas. Ele não é um super-herói com superpoderes, inclusive o de não morrer, como o Super-homem. “Eu sou dos que morrem”, diz Batman, com um suspiro. No tom da sua voz está a lamúria milenar da espécie dos que morrem. Drácula parece não ouvi-lo. Esta interessado em outra coisa. “Você vai terminar esse iogurte?”, pergunta.
Mas Batman continua sua queixa. “Eu já não voava. Hoje quase não caminho. Não posso mais dirigir o Batmóvel, não renovaram minha carteira…” Mas ele não quer a redenção da morte. Quer a vida eterna, a mesma vida eterna de um homem de aço. “Vamos fazer um trato”, sugere Drácula. “Quando a Morte vier buscá-lo, trocaremos de lugar. Você veste este meu robe de cetim, e a echarpe de seda, eu visto essa sua fantasia ridícula, e a…” Mas Batman o interrompe com um gesto. A Morte não pode ser enganada. Claro que pode, diz Drácula. “É só você passar um pouco da minha pomada no seu cabelo que a Morte o tomará por mim e…”
– Que cabelo? – pergunta Batman, com outro suspiro, também antigo.
“Não somos muito diferentes”, diz Drácula. “Somos completamente diferentes!”, rebate Batman. “Eu sou o Bem, você é o Mal. Eu salvava as pessoas, você chupava o seu sangue e as transformava em vampiros como você. Somos opostos.” “E no entanto”, volta Drácula com um sorriso, mostrando os caninos de fantasia, “somos, os dois, homens-morcegos…”
Batman come o resto do seu iogurte sob o olhar cobiçoso do conde. Diz:
– A diferença é que eu escolhi o morcego como modelo. Foi uma decisão artística, estética, autônoma.
– E estranha – diz Drácula. – Por que morcego? Eu tenho a desculpa de que não foi uma escolha, foi uma danação genética. Mas você? Por que o morcego e não, por exemplo, o cordeiro, símbolo do Bem? Talvez o que motivasse você fosse uma compulso igual à minha, disfarçada. Durante todo o tempo em que combatia o Mal e fazia o Bem, seu desejo secreto era de chupar pescoços. Sua sede não era de justiça, era de sangue. Desconfie dos paladinos, eles também querem sangue.
– Se eu ainda pudesse fazer um punho você ia ver qual é a minha compulsão neste momento – rosna Batman.
Mas Drácula não perde a calma.
– E veja a ironia, Batman. O Morcego Bom passa, o Morcego Mau fica. Um não quer morrer e morre, o outro quer morrer e não morre. Ou talvez não seja uma ironia, seja uma metáfora para o mundo. O Bem acaba sem recompensa e o único castigo do Mal é nunca acabar.
Drácula continua:
– Somos dois aristocratas, Batman, um feudal e outro urbano, um da Velha Europa e outro da nova América. Eu era Vlad, o Impalador, na Transilvânia, você o herdeiro de uma imensa fortuna em Gotham. Eu era o terror dos aldeães, você um rico caridoso. Os pobres nunca ameaçaram invadir a sua mansão com archotes, mas somos, os dois, da mesma classe, a dos sanguessugas. O que nos diferencia é que eu não tinha remorsos.
Batman pede que Drácula se retire. Dali a pouco chegará Robin com os netos e ele não quer que as crianças se assustem.



