
Jean-Baptiste Debret – Museu Afro-BrasileiroCrescemos num mundo povoado de frases e atitudes hoje consideradas racistas. O que agora pode levar alguém à cadeia ou gerar grandes protestos, há bem pouco tempo era visto como “normal” por uma parcela dos brasileiros.
Fruto de uma mistura de nacionalidades e raças, eu ficava indignado com aquelas expressões e deboches dos adultos. Meus bisavós e avós eram portugueses, italianos, africanos (da Nigéria?, do Congo, Gabão, Angola, Gana, Moçambique?), austríacos (isso mesmo, de olhos azuis, vindos do norte da península itálica], espanhóis e índios tupis [não me pergunte se eram tupinambás, tupiniquins, tamoios, potiguaras ou caetés].
– Preto quando não caga na entrada, caga na saída.
Essa era uma máxima que usavam para condenar qualquer erro de um afrodescendente.
E se não bastassem tais execrações, parece que nem mesmo os fenômenos naturais ajudavam.
– Hoje foi um dia negro pra mim.
Pior ainda era aquela:
– Sexta-feira negra.
Se fosse sexta-feira negra e dia 13, então, ai meu Deus! Isso sem falar das nuvens negras que pairavam sobre nossas vidas.
– Casar com preto, só depois que eu estiver morto, tá me escutando.
Essa proibição eu ouvi por mais de uma vez.
– Aquela nega pixaim, cabelo ruim, não.
– Você viu?!, a Joana arrumou um negão.
Mas nem tudo era abominável. Havia frases que me faziam sorrir, feliz.
– Preto quando pinta tem cento e trinta.
Kkkkkk. Era a senha da fortaleza física e da longevidade dos negros. E, claro, eu poderia viver mais de cem anos.
Durante muito tempo relutei em escrever sobre esses preconceitos. Como hoje é uma data em que parte do Brasil se propõe a pensar uma sociedade livre de racismo, vale a pena expor costumes que deveremos enterrar para sempre. Somos todos negros, brancos, índios, amarelos, marrons bom-bom e de todas as cores.
Há muito mais discriminações. Minha cabeça de loira não permite lembrar tudo nesse momento.
Deu um branco em mim.



