Encontre matérias e conteúdos da Gazeta do Povo
Cidadania Digital

Cidadania Digital

Cancelamento

Difamaram Ana Paula Valadão para defender os aiatolás

Mulher segura uma imagem do aiatolá Khomeini (Foto: ABEDIN TAHERKENAREH / EFE)

Ouça este conteúdo

No Irã, ser pego com uma Bíblia pode resultar em anos de prisão. Abandonar o islã para se converter ao cristianismo pode ser punido com morte. É a realidade de um regime teocrático que controla a vida privada, reprime minorias religiosas e trata a liberdade de consciência como crime. Foi nesse contexto que a cantora evangélica Ana Paula Valadão Bessa publicou um vídeo pedindo oração pelos cristãos iranianos. Muitos deles reagiram com esperança cautelosa às notícias sobre a morte do Líder Supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, responsável direto por décadas de perseguição religiosa e repressão política. Para quem vive sob esse regime, qualquer mudança no topo do poder pode significar um pequeno respiro.

Bastou isso para que começasse mais uma campanha de linchamento virtual contra Ana Paula Valadão. Influenciadores e militantes passaram a afirmar que a cantora estaria comemorando a morte de civis iranianos. A acusação se baseou em uma notícia sobre um suposto ataque a uma escola que teria matado centenas de meninas. O detalhe é que essa informação foi divulgada apenas pelo próprio regime iraniano e não pôde ser investigada de forma independente por jornalistas. Mesmo assim, a narrativa se espalhou rapidamente nas redes sociais.

No caso de Ana Paula Valadão, bastou espalhar que ela teria comemorado a morte de crianças. O fato de que ela não disse nada disso no vídeo virou um detalhe irrelevante. A acusação cumpre sua função: gerar indignação, produzir cancelamento e permitir que os acusadores preservem a própria imagem de pessoas virtuosas

Uma semana depois, novas investigações publicadas por jornais americanos passaram a indicar que o ataque poderia ter sido realizado pelos Estados Unidos. No momento em que Ana Paula Valadão publicou seu vídeo, essa informação sequer existia. O que ela comentou foi outra coisa: a precisão dos ataques israelenses contra alvos militares do regime iraniano e o possível impacto disso para civis que vivem sob a ditadura dos aiatolás.

No próprio vídeo ela afirma que não é necessário gostar de Israel para reconhecer que ataques direcionados a estruturas militares podem reduzir riscos para a população civil. A mensagem principal de Ana Paula Valadão era simples: oração pelos cristãos perseguidos e esperança de que o regime responsável por esse sofrimento possa perder força. Mas nada disso importa quando o objetivo é cancelar alguém.

A reação revela um fenômeno cada vez mais comum no ambiente digital. Parte do progressismo brasileiro importou da classe média alta americana uma cartilha ideológica pronta. Nela, os Estados Unidos são sempre o inimigo estrutural. Israel passa automaticamente para o papel de vilão. E qualquer adversário desses dois pólos passa a ser tratado como aliado tático, mesmo quando se trata de um regime teocrático que prende cristãos, executa dissidentes e governa segundo uma interpretação radical da lei islâmica.

Daí surgem situações absurdas. Pessoas que se apresentam como defensoras dos direitos das mulheres acabam relativizando um regime que permite casamento de meninas de nove anos. Militantes que dizem lutar pelos direitos LGBT passam pano para um governo que executa homossexuais. Influenciadores que se proclamam campeões da liberdade defendem uma teocracia que pune conversão religiosa com a morte. Como conciliar essas contradições? Simples: divorciando-se da realidade.

VEJA TAMBÉM:

O problema não é defender o regime iraniano explicitamente. Isso seria constrangedor demais. O caminho mais confortável é outro. Primeiro inventa-se uma acusação monstruosa contra alguém que esteja do lado errado da guerra cultural. Depois se diz que toda a indignação é apenas uma reação moral a essa suposta monstruosidade. Assim, quem passa o dia difamando pode continuar se apresentando como defensor da justiça social.

No caso de Ana Paula Valadão, bastou espalhar que ela teria comemorado a morte de crianças. O fato de que ela não disse nada disso no vídeo virou um detalhe irrelevante. A acusação cumpre sua função: gerar indignação, produzir cancelamento e permitir que os acusadores preservem a própria imagem de pessoas virtuosas. É um comportamento repugnante, mas cada vez mais previsível.

A boa notícia é que esse mecanismo já está ficando evidente para muita gente. A indústria do cancelamento depende de uma encenação moral permanente. Quem participa dela precisa fingir boas intenções enquanto dedica o dia a difamar pessoas e tentar destruir reputações. No fundo, trata-se apenas de mais um ritual de pureza ideológica.

Nesse episódio específico de Ana Paula Valadão, há uma ironia difícil de ignorar. Pessoas que vivem em democracias liberais, com liberdade de expressão e liberdade religiosa, decidiram atacar uma cantora cristã que pediu oração por vítimas de perseguição religiosa. Tudo isso para não precisar admitir o óbvio: o regime dos aiatolás é uma ditadura brutal.

Se os defensores desse regime realmente acreditam que ele representa um avanço civilizatório, a solução é simples: podem sempre fazer as malas e experimentar de perto as maravilhas dessa liberdade que dizem defender. Eu adoraria testemunhar essa experiência.

Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

Você pode se interessar

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.