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O Banco Master pode vir a se tornar o maior escândalo de corrupção da história do país. Ainda não sabemos o alcance total do que está sendo investigado, nem quantas camadas de poder serão expostas ao longo do caminho. O que já é possível afirmar é que o grau de desespero para impedir que informações cheguem à opinião pública não tem precedentes. Autoridades extremamente poderosas, ligadas a um banco que até pouco tempo atrás era praticamente desconhecido do grande público, passaram a agir de forma atabalhoada, opaca e agressiva. Mesmo dominando as maiores autoridades do país, o banco recorreu a influenciadores digitais.
As informações reveladas pela jornalista Malu Gaspar em O Globo indicam pagamento direto a influenciadores, com valores elevados, intermediações profissionais e contratos desenhados para produzir efeito político. Não se trata de opinião espontânea nem de engajamento orgânico. Houve coordenação clara de ataques ao Banco Central, tentativa deliberada de constranger a investigação da Polícia Federal contra o Banco Master e uso de narrativas conspiratórias para deslocar o foco dos fatos e uma atuação sincronizada em datas estratégicas.
Muitos só conseguem enxergar a milícia digital quando ela atua contra aquilo em que acreditam. Quando beneficia o seu campo, passam a chamar de engajamento, reação legítima ou coragem. É a cegueira seletiva
O dado mais revelador sobre as milícias digitais do Banco Master não é o uso desse método, mas o contexto em que ele foi acionado. Quando instituições, cargos e relações já não são suficientes para conter a circulação de informações, recorre-se ao ruído. A lógica deixa de ser convencer e passa a ser confundir. O objetivo não é construir uma versão sólida, mas tornar qualquer versão indistinta. Criar cansaço, desinformação e medo de se posicionar. A milícia digital entra em cena quando o poder formal já não garante silêncio.
Esse mecanismo não surgiu agora. Ele é antigo, conhecido e amplamente documentado. Em colunas passadas na Gazeta do Povo, mostrei como a militância digital organizada foi estruturada, treinada e financiada ao longo dos anos, com métodos explícitos de coordenação e pagamento. Em Prepare a paciência: CUT ressuscita os MAVs, militância virtual do PT, ficou claro que essas engrenagens nunca desapareceram, apenas se adaptaram ao ambiente das redes.
Em Treinamento do ‘Mensalinho do Twitter’ ensinava a compartilhar notícias de Lindbergh e Tiburi, o modelo foi exposto de forma ainda mais direta, com metas, orientações e pagamento para amplificação coordenada de narrativas.
O que mudou desde então não foi o método, mas sua normalização. A militância paga deixou de ser escândalo para se tornar ferramenta. O que antes era denunciado como fraude do debate público passou a ser tratado como estratégia de comunicação oferecida por agências a empresas privadas. Influenciadores deixaram de ser vistos como intermediários de ideias e passaram a operar como peças contratadas de operações políticas e econômicas.
Nada disso prosperaria sem um elemento central, quase sempre ignorado por conveniência: o público. A milícia digital só funciona porque há terceirização do pensamento.
Pessoas não acompanham processos, não leem documentos, não confrontam versões. Elas confiam. Só que não confiam em quem tem experiência e credibilidade, confiam em quem fala com segurança, indignação performática e aparência de ser do seu grupo. A autoridade é trocada pela identificação emocional.
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O ataque em manada como o do caso Banco Master segue um roteiro conhecido. Um nome com grande alcance lança a narrativa. Outros replicam com pequenas variações. Perfis médios amplificam. Quem questiona vira suspeito. Quem pede prova é acusado de má-fé. Quem tenta compreender é tratado como cúmplice. Não se busca esclarecer, busca-se ocupar o espaço. O silêncio do outro lado passa a ser a vitória.
Há ainda um traço psicológico incômodo nesse processo. Muitos só conseguem enxergar a milícia digital quando ela atua contra aquilo em que acreditam. Quando beneficia o seu campo, passam a chamar de engajamento, reação legítima ou coragem. É a cegueira seletiva de quem prefere preservar a sensação de lucidez a admitir que também está sendo manipulado. Ver o erro no outro virou identidade. Reconhecer o próprio engano virou ameaça.
O caso Banco Master é particularmente revelador porque mostra até onde esse sistema pode ir quando interesses realmente grandes entram em risco. Quando nem o poder institucional, nem a opacidade processual, nem a intimidação simbólica são suficientes, recorre-se ao que hoje é mais eficiente para deformar a realidade pública: a compra de influência em larga escala.
Esse escândalo do Banco Master ainda está em curso e pode revelar muito mais. Inclusive até que ponto a sociedade aceita viver em um ambiente onde opinião é mercadoria, ataque é terceirizado e a verdade depende de quem pagou mais caro para abafá-la. Obviamente é imoral e desonesto participar desse tipo de esquema. Infelizmente, ele será cada vez mais lucrativo enquanto o público continuar delegando o próprio juízo.





