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Um estudo recente chega a uma conclusão desconfortável para a era da superexposição visual: provar com vídeo não funciona. Ao contrário do que se imagina, imagens não encerram disputas nem produzem consenso. Elas tendem a reforçar crenças prévias e a tornar posições ainda mais rígidas. Diante do mesmo registro visual, grupos diferentes não apenas discordam. Eles passam a se sentir mais certos do que já pensavam antes de assistir. A evidência visual não corrige o viés. Em muitos casos, o aprofunda.
Essa conclusão é apresentada em um trabalho publicado pela newsletter acadêmica The Power of Us, assinado por Anni Sternisko, pesquisadora em psicologia social, Dominic Packer, professor de psicologia na Universidade de Lehigh, e Jay Van Bavel, professor da Universidade de Nova York e um dos principais especialistas mundiais em identidade social e polarização. O estudo reúne evidências experimentais e análises de casos reais para mostrar como identidade, pertencimento e lealdade a grupos moldam não apenas a interpretação, mas o próprio ato de ver.
A crença de que 'agora está tudo filmado' convive com a incapacidade prática de concordar sobre o que se vê. O vídeo não funciona mais como árbitro da realidade. Funciona como extensão da disputa identitária
Um dos exemplos centrais analisados é um caso concreto ocorrido nos Estados Unidos, que se transformou em uma grande polêmica nacional. Em Minneapolis, uma jovem mulher foi morta durante uma abordagem do ICE, o Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos. O ICE é uma agência federal responsável por fiscalizar imigração e executar deportações, e sua atuação já é, por si só, objeto de forte controvérsia política no país.
A mulher estava sozinha em seu carro, em uma área urbana, quando agentes do ICE tentaram abordá-la. Ao perceber a ação, ela tentou fugir com o veículo. O episódio foi registrado por múltiplas câmeras, incluindo imagens de celulares, de sistemas de vigilância e dos próprios agentes. Houve vídeos de vários ângulos, com áudio, sequência temporal e boa qualidade de imagem. Tudo aquilo que costuma ser exigido quando alguém diz que é preciso “ver o vídeo” antes de formar opinião. O presidente Donald Trump decidiu divulgar oficialmente o vídeo da abordagem policial para encerrar a discussão sobre o tema. O efeito foi exatamente o oposto do esperado.
Autoridades federais afirmaram que a agente agiu em legítima defesa, sustentando que o carro teria sido usado como arma. Outras autoridades, juristas, ativistas e lideranças políticas afirmaram que as imagens não sustentavam essa versão. Celebridades, comentaristas e figuras públicas se posicionaram de forma veemente. Protestos se espalharam. Cada novo vídeo divulgado não reduzia a controvérsia. A intensificava.
Quanto mais imagens surgiam, mais as pessoas se aferravam às convicções que já tinham antes de assistir a qualquer uma delas. Quem desconfiava da atuação do ICE via confirmação de abuso em cada frame. Quem defendia a agência via prova de ameaça em exatamente as mesmas cenas. O vídeo deixou de ser evidência e passou a ser munição. Servia para confirmar identidades, não para esclarecer fatos.
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É exatamente esse mecanismo que o estudo descreve. A percepção visual não é neutra. Ela é orientada por expectativas, valores e pertencimento a grupos. Pessoas não assistem a vídeos para descobrir o que aconteceu. Assistem para confirmar quem são e de que lado estão. O cérebro seleciona detalhes, ignora outros e constrói causalidade de acordo com narrativas prévias. A prova visual não dissolve o conflito. Ela se encaixa nele.
Isso ajuda a explicar um paradoxo central do nosso tempo. Nunca houve tantas câmeras, tantos registros, tantos vídeos disponíveis. E nunca foi tão difícil construir uma narrativa comum sobre os fatos. A crença de que “agora está tudo filmado” convive com a incapacidade prática de concordar sobre o que se vê. O vídeo não funciona mais como árbitro da realidade. Funciona como extensão da disputa identitária.
Esse fenômeno não se limita a casos extremos ou a grandes conflitos raciais e institucionais nos Estados Unidos. Ele aparece no cotidiano, em discussões familiares, em brigas de trânsito, em denúncias de abuso, em disputas políticas locais. Alguém mostra um vídeo acreditando que aquilo encerrará a conversa. A resposta quase sempre vem rápida: isso não prova nada, falta contexto, o recorte é enviesado. Não necessariamente por má-fé, mas porque as pessoas realmente não estão vendo a mesma coisa.
O estudo aponta para um limite estrutural da vida contemporânea. Não basta registrar a realidade. É preciso reconhecer que olhamos para ela carregando identidades, medos e compromissos prévios. Enquanto insistirmos na fantasia de que a imagem fala por si, continuaremos frustrados. O conflito não está na falta de provas. Está na dificuldade de admitir que ver não é o mesmo que compreender.
Conteúdo editado por: Jocelaine Santos





