
Corro o sério risco de ser lembrado por aqui como um nostálgico inveterado, mas é difícil abrir mão de algumas lembranças que, volta e meia, parecem tão pertinentes para ilustrar algum comentário ou discussão. Afinal, como comentei vagamente lá no primeiro post, acredito que experiências passadas, principalmente na infância/adolescência, nos dizem muito sobre nossos comportamentos e anseios atuais – Freud concordaria comigo, espero.
Feito este preâmbulo – possivelmente desnecessário – volto alguns anos atrás para recordar uma cena no quarto de minha irmã, quando eu tinha lá meus 13 anos. Eu e ela assistíamos um VHS alugado no dia anterior, que, num primeiro olhar, nada mais era do que um mero disaster movie, daqueles que assistíamos tão somente para ter o prazer de ver ondas gigantes avançando sobre cidades inteiras. O filme era Impacto Profundo (Deep Impact, 1998). Porém, antes que a fita chegasse ao fim, lá estávamos nós, soluçando como duas crianças, totalmente à mercê das lágrimas que corriam soltas sobre o travesseiro. Se alguém nos visse naquele momento, certamente acreditaria que uma tragédia tinha acabado de se abater sobre a nossa família.
Impacto Profundo, que pode ser visto com certa freqüência na Sessão da Tarde, tem seus méritos. Aposta mais nos dramas pessoais do que nos efeitos especiais. Claro, temos alguma ação, capitaneada pelo grupo de astronautas que embarca em missão suicida para tentar impedir que um meteoro gigante dê de cara com a terra (qualquer semelhança com Armageddon, lançado naquele mesmo ano com muito mais alarde, não deve ser mera coincidência). Mas o que cria um vínculo próximo com o espectador é justamente a miríade de personagens em busca de redenção e salvação. São dramas verossímeis (na medida do possível do cinema holywoodiano), como os da mulher que, mesmo às vésperas do fim do mundo, hesita em procurar o pai com quem está brigado há anos; e o do casal de namorados, que têm de escolher entre permanecer com as próprias famílias ou se aventurar para manter vivo esse amor tão precoce e até ingênuo.

Elijah Wood em Impacto Profundo: casório às pressas antes que o mundo acabe.
Enfim. Aposto que muitos que já assistiram a Impacto Profundo ou que ainda vão se aventurar podem considerar o filme banal e dispensável. “Como alguém pode se emocionar, até chorar num filme desse?”, irão se perguntar. E seria uma boa pergunta. E aí eu emendaria outra: “por que, afinal, as pessoas choram em filmes?
Por mais que determinado diretor ou roteirista seja campeão em controlar as emoções alheias, é inegável que cada espectador contribui e muito para que certa seqüência ou personagem faça aflorar aquelas lágrimas que teimamos em esconder da pessoa que está sentada ao nosso lado no sofá ou na poltrona do cinema. E aí reside um dos pontos mais incríveis e compensadores do cinema – e da literatura e da arte, como um todo. A história, as cenas, os diálogos, podem ser os mesmos. Mas serão absorvidos e compreendidos de maneira única por cada espectador. Cada um de nós, mesmo quando paramos para assistir aquele filme de ação ou comédia só para “passar o tempo”, levamos junto uma bagagem pessoal e intransferível. Não se trata somente das emoções representadas na tela pelos atores. São nossos próprios medos, anseios, lembranças e frustrações que encontram eco ali. Se tal filme nos marcou tanto, certamente é porque fez “balançar” certas estruturas dentro de nós.
Mais recentemente, senti-me profundamente comovido ao assistir Na Natureza Selvagem (Into the Wild, 2007). A fotografia do filme, que reverbera em grande parte o interior do Alasca, é belíssima. A trilha sonora, composta por Eddie Veder, é um primor musical, e as atuações são realmente convincentes (se bem que isso é o mínimo que espera de qualquer atuação). Mas o que bateu mesmo foi o drama do jovem bem de vida que larga tudo para cair na estrada em busca de algum sentido maior. No caminho, encontra uma série de pessoas, que transformam sua jornada e são transformadas por ele. O fim é trágico. E, ao mesmo tempo, contemplativo. Ainda mais quando lembramos que essa é uma história real (o livro-reportagem que baseou o filme vale a leitura, apesar de desmistificar a figura do garoto).

E quem nunca pensou em largar tudo e ir viver no mato?
Sim, nos momentos finais, chorei. E muito. Deveria ter vergonha disso? Acredito que não. É clichê, mas chorar faz bem. Ainda mais se estamos chorando em frente à TV, e não durante um velório.
Por isso, se eu posso deixar aqui alguma recomendação, seria essa. Não esconda as lágrimas. Se emocione. Se deixe levar. Filmes não existem somente para “passar o tempo” ou levar a gatinha pra dar uns amassos no cinema. Um filme só faz sentido quando emprestamos à ele nossa própria bagagem. E, assim, somos como o jovem desiludido de Na Natureza Selvagem: ao passo que embarcamos nessa jornada cinematográfica, somos impactados por ela e também deixamos nossas marcas.
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