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Couro, pipoca e sacanagem na sala VIP: as primeiras impressões sobre Ninfomaníaca

Assim que cheguei na Redação da Gazeta, na última sexta-feira, fui vasculhar o jornal a fim de me programar para assistir, no fim de semana, a estreia de Ninfomaníaca – Volume 1 (Nymphomaniac – Vol. 1), a última empreitada do dinamarquês Lars Von Trier.  E aí veio a surpresa ao constatar que, por muito pouco, Curitiba quase passou batida no lançamento da obra. O filme está passando em apenas uma sala na capital paranaense, no Espaço Itaú de Cinema (localizado no Shopping Crystal, na Rua Comendador Araújo). O susto também pesou no bolso. Ninfomaníaca – Volume 1 está passando justamente na sala VIP, onde os ingressos, aos sábados e domingos, custam R$ 44. Na página do blog no Facebook, ainda na sexta-feira, fiz a provocação: e aí, será que vale a pena o investimento?

Joe e a amiga B:

Joe e a amiga B: “florescer sexual” inclui competição durante viagem de trem para saber quem transa mais com passageiros. (Foto: Divulgação)

Indo direto ao ponto, posso dizer que, sim, vale. São duas experiências marcantes: se esbaldar nas “poltronas-leitos” da sala VIP e encarar as provocações de Von Trier. Infelizmente, não dá pra reclamar muito do lançamento limitadíssimo em Curitiba. Em todo o Brasil, Ninfomaníaca – Volume 1 estreou em apenas 40 salas — 11 delas em São Paulo. Para efeitos de comparação, Jogos Vorazes: Em Chamas (The Hunger Games: Catching Fire, 2013) estreou em mais de 960 salas no país. A comédia pastelão Até que a Sorte nos Separe 2 ganhou espaço em outras 740 salas. Pelo visto, o diretor dinamarquês, mesmo com todo o alvoroço e polêmica em torno do filme, ainda sofre o estigma de cineasta de filmes difíceis e controversos. E que, por tabela, não têm público.

O que, lógico, é bem relativo. No sábado, as três sessões do filme no Espaço Itaú de Cinema tiveram os ingressos esgotados, mesmo com o valor salgado da tal sala VIP. Interesse há. O suficiente pra encher outras 10 sessões em mais cinemas? Não vamos ter como saber.

O fato é que assistir a um filme como Ninfomaníaca – Volume 1 praticamente deitado em uma imensa poltrona de couro ecológico chega a ser um perigo para alguns espectadores. E aqui, não tirem conclusões maliciosas. Se você acabou de ter um almoço generoso ou está com o sono atrasado por conta da ida ao bar na noite anterior, tome cuidado. As chances de cair no sono e acordar só ao fim do filme, com os acordes pesados da banda alemã Rammstein soando na sala, são grandes. Fora outra característica curiosa: as poltronas são dispostas em duplas e ficam praticamente juntas, com os espectadores tendo que dividir o encosto do meio. Para casais, uma beleza. Para quem vai sozinho ao cinema (o meu caso) e precisa assistir ao filme como se estivesse com um desconhecido sentado ao lado no sofá de casa, nem tanto.

Não vou me estender mais sobre as peculiaridades da sala VIP curitibana porque o colega Cristiano Castilho, aqui da Gazeta do Povo, já escreveu uma espirituosa crônica a respeito um tempinho atrás. Acessem aqui. Vale a pena ler, até pra se preparar para a “experiência”.

Shia LaBeouf e Stacy Martin, a jovem Joe: grande elenco mostra que Von Trier, mesmo adepto de polêmicos, tem prestígio na indústria.

Shia LaBeouf e Stacy Martin, a jovem Joe: grande elenco mostra que Von Trier, mesmo adepto de polêmicos, tem prestígio na indústria. (Foto: Divulgação)

A possibilidade do espectador mais desatento tirar um cochilo durante Ninfomaníaca – Volume 1, queira ou não, já diz muito sobre o filme. O drama de Lars Von Trier certamente não é a obra pornográfica que muita gente esperava, mesmo que toda a divulgação e polêmica anteriores ao lançamento tenham se aproveitado dessa expectativa. Basta se lembrar dos curiosos cartazes que mostravam todo o elenco simulando um orgasmo e dos trailers estrategicamente divulgados com cenas picantes. Houve quem chegou a pensar que veria na tela uma sequência ininterrupta de orgias, separadas aqui e ali por algumas digressões filosóficas. 

Não é o caso. Há sexo explícito em Ninfomaníaca? Sem dúvida. Mas não é a representação do sexo no cinema com a qual nos acostumamos ao longo do tempo nos filmes norte-americanos. Não há, no filme de Lars Von Trier, espaço para o sexo estilizado ou coreografado. Todo o filme assume um ar sóbrio e soturno, o que afeta também as esperadas cenas sexuais, cruas e até brutais em alguns momentos. As sequências, espalhadas ao longo das quase duas horas de projeção, não têm o poder de excitar, mas sim de provocar e, principalmente, incomodar o espectador.

O que vem de encontro à real proposta do filme e do diretor. O sexo aqui não é o tema principal, mas serve como pano de fundo para retratar uma história de vida controversa e sofrida. O vazio existencial que cerca a vida de Joe, a protagonista, é resultado de sua sede insaciável por sexo ou a procura desmedida por parceiros é apenas mais um sintoma desse vazio existencial? Ela merece ser julgada por seu comportamento ou ele é resultado de um transtorno que age por conta própria?

Ao fim da projeção, não temos respostas prontas para essas perguntas, mas já sabemos que a liberdade sexual a que Joe recorre — contra sua vontade ou não — apenas lhe aprisiona e deprime cada vez mais. Longe de ser uma conclusão moralista e tampouco uma tentativa de justificar os excessos na tela. Até porque, vale lembrar, abandonamos a trama na metade. Ninfomaníaca – Volume termina de forma abrupta, sem deixar necessariamente ganchos para o próximo filme. É difícil, assim, analisar a obra como um todo sem saber o que nos aguarda. Menos mal que o Volume 2 estreia em breve, em março.

Uma Thurman interpreta mulher traída que confronta a jovem Joe em um episódio cômico e, ao mesmo tempo, trágico.

Uma Thurman interpreta mulher traída que confronta a jovem Joe em um episódio cômico e, ao mesmo tempo, trágico. (Foto: Divulgação)

Deixando de lado as discussões pseudofilosóficas e esteticamente falando, o filme é puro Lars Von Trier — tanto no bom quanto no mau sentido. Não há as já famosas sequências em “super slow motion” presentes em Anticristo (Antichrist, 2009) e Melancolia (Melancholia, 2011), mas estão lá outros truques visuais e de edição que tornam a obra do diretor tão peculiar: elementos gráficos que se sobrepõem à cena, telas divididas, divisão por capítulos, metáforas que são traduzidas ipsis literis na tela, etc. Alguns desses truques enriquecem a experiência do espectador, outros estão ali tão somente para causar estranheza e desconforto. Em certo momento, por exemplo, em que a narradora discorre sobre a variedade de parceiros sexuais a que se submeteu na juventude, Von Trier joga na tela um longo slide show (literalmente) de closes de órgãos sexuais masculinos, de todos os tamanhos, cores e formas. Em outra ocasião, a narradora relata sua primeira experiência sexual, contando que, em certo momento, o parceiro a virou na cama “como um saco de batatas”, o que é mostrado na cena — não satisfeito, o diretor corta para a imagem de um saco de batatas sendo jogado no chão.

Já a divisão em capítulos tem temas bem definidos em forma de episódios fechados, o que é uma opção que se mostra acertada, apesar de alguns serem, naturalmente, mais profundos ou impactantes que outros. Uma das melhores sequências é aquela vista no “Capítulo 3 – Mr. H“, onde a jovem Joe é confrontada com a família de um de seus parceiros — momento em que Uma Thurman, no papel da mulher traída, fornece sem esforço aquela que é sem dúvida a melhor atuação do filme. Outras sequências também certamente ficarão marcadas na lembrança do espectador, como a que introduz o “Capítulo 4 – Delírio”, o mais sombrio de todos.

Ao fim, é certo que Ninfomaníaca – Volume é daquelas obras que suscitam sentimentos dos mais variados. Alguns se sentirão ofendidos, outros, apenas desconfortáveis, muitos, decepcionados, e há quem amará o filme. Independente da avaliação, é certo que todos sairão da sessão impactados de alguma forma. O jeito é esperar agora a sequência, para, então, descobrir até onde Lars Von Trier quer chegar —  e até onde estamos dispostos a ir.

Já assistiu a Ninfomaníaca – Volume 1? Qual sua avaliação sobre o filme? Deixe seu comentário aqui no blog!

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