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Halloween (1978) e o apogeu dos slasher movies

Envolto em sombras e armado com uma faca afiada, ele permanece à espreita, contemplando em silêncio sua vítima. Não há outra resolução permitida. Nos próximos segundos, alguém irá morrer. E até que o assassino seja detido e tenha sua fúria homicida interrompida, muitos outros sucumbirão em seu caminho, deixando as forças da lei correndo em círculos… e os espectadores em polvorosa. Um dos gêneros mais antigos do cinema e, curiosamente, um dos mais populares, o horror segue cativando plateias de todas as idades e todos os lugares, entregando sustos, tensão e imagens de vísceras a quem conseguir manter os olhos presos na tela.

Apesar de dificilmente serem campeãs de bilheteria – não há nenhum filme do gênero na lista das 20 maiores arrecadações nas salas brasileiras em 2012 ou 2013 – as produções de horror possuem um público cativo e, ao que tudo indica, paciente e compreensivo. Afinal, mesmo com a infinidade de filmes lançados a cada ano, originalidade, diversidade e ousadia ainda são palavras-chave distantes do roteiro e da sinopse dos thrillers que abundam nas salas de cinema e nas prateleiras de DVDs.

Halloween (1978), de John Carpenter, não foi o primeiro slasher movie, mas sem dúvida se tornou o mais influente.

Halloween (1978), de John Carpenter, não foi o primeiro slasher movie, mas sem dúvida se tornou o mais influente. (Foto: Divulgação)

Entre os diversos universos e seus monstros particulares que habitam o gênero de horror, nenhum parece mais fadado a viver sob a sombra do cânone do que o slasher movie – como se convencionou chamar a produção protagonizada por um assassino serial que, sem motivo aparente, passa a trama inteira perseguindo e matando jovens, utilizando para isto ferramentas e estratégias explícitas de sadismo. Marcas deste subgênero já são possíveis de observar em filmes clássicos como Psicose (1960) e O Gabinete do Dr. Caligari (1920), mas foi na década de 1970 que elas explodiram na tela e sedimentaram a carreira de uma série de cineastas, como John Carpenter, Wes Craven e Tobe Hooper, para sempre lembrados por suas incursões no terror.

Como reforça o editor da revista Total Film, Jamie Graham, “em termos de quantidade e de qualidade, os anos 1970 marcam o meridiano de sangue para o gênero do terror”. O cenário conturbado da época nos Estados Unidos, principal berço destas produções, ajudou a criar o clima necessário para que o cinema mostrasse assassinos psicóticos entrando dentro das casas e espalhando pânico mesmo em subúrbios pacatos. Ninguém estava a salvo e a família não era mais um reduto seguro inviolável – podendo inclusive ser a fonte de distúrbios que acabariam em um banho de sangue. Eram tempos de Vietnã, feminismo, lutas pelos direitos civis, revolução sexual.

Apesar de Noite do Terror (1974) ter praticamente inaugurado o subgênero, foi Halloween (1978), de John Carpenter, quem o consagrou e consolidou a fórmula que seria seguida à risca a partir de então. No filme roteirizado e dirigido por Carpenter, somos apresentados a Michael Myers, um jovem recém-fugido de um sanatório que, trajado com uma máscara branca, assombra durante uma noite um grupo de amigas em uma cidade pacata. Ao contrário das imitações sangrentas que o seguiriam, Halloween não tem pressa em iniciar a contagem de corpos.

O assassino atrás da porta: Michael Myers e sua máscara branca consolidaram o gênero dos assassinos seriais no cinema.

O assassino atrás da porta: Michael Myers e sua máscara branca consolidaram o gênero dos assassinos seriais no cinema. (Foto: Divulgação)

Ajudado por uma trilha sonora marcante que ecoa durante todo o filme, Carpenter investe no suspense e na inevitabilidade da violência que está prestes a explodir dentro de Myers. A primeira morte, fora a registrada em uma introdução à trama, ocorre somente aos 53 minutos de projeção – o filme tem 1h30min de duração. A própria figura do assassino e seu rosto impassível parece ser suficiente para assombrar o espectador. Ele é quase um ente sobrenatural, sumindo e aparecendo com facilidade nos cantos da tela, ignorado por suas vítimas. O que mais assustava, então, não era o sangue jorrando do peito de um jovem desatento, mas sim a certeza de que, cedo ou tarde, isso iria acontecer.

O suspense quase orquestrado de Halloween cativou o público e até mesmo parte da crítica, que ainda via o horror como um gênero “menor”. O renomado crítico Roger Ebert, do Chicago Sun-Times, chegou a dizer que “Halloween é um thriller absolutamente implacável, um filme tão violento e apavorante que, sim, eu poderia compará-lo a Psicose”. Em sua crítica, Ebert descreveu ainda o filme como uma “experiência visceral”.

Não à toa, a revista Total Film incluiu Halloween na lista dos 67 filmes mais influentes da história do cinema, por, entre outros fatores, ter introduzido um vilão com uma “implacabilidade sobrenatural”. Kathryn Bergeroo, no livro 1001 Filmes para Ver Antes de Morrer lembra que a intensidade da obra de Carpenter “está em situar o terror no ambiente plácido da vida suburbana dos Estados Unidos, onde se presume (ou pelo menos se presumia) que os jovens estejam seguros”.

O Halloween original de 1978 ganhou diversas sequências e remakes, mas não foi nunca superado.

O Halloween original de 1978 ganhou diversas sequências e remakes, mas não foi nunca superado. (Foto: Divulgação)

As situações destacadas por Ebert, Bergeroo e pela Total Film trazem à tona algumas das marcas dos slasher movies que seriam destacadas à exaustão em filmes da década seguinte e permanecem presentes em obras atuais. Em geral, o assassino, mesmo quando é um ser de carne e osso, possui uma resistência física assombrosa: ele nunca será impedido na primeira tentativa, mesmo que seja baleado, esfaqueado ou atingido por uma barra de ferro na cabeça. E, inevitavelmente, buscará um perfil específico de vítima: jovens “transviados”, que ou estão no meio de uma relação sexual ou estão consumindo drogas ou álcool. Não por coincidência, os sobreviventes acabam sendo aqueles que reprimem seus desejos carnais, mas têm suas virtudes recompensadas com o direito a permanecerem vivos – como a tímida e desajeitada babá vivida por Jamie Lee Curtis em Halloween.

O próprio comportamento das vítimas mediante a constatação do perigo acabou se tornando uma característica marcante do gênero, e até motivo de piadas para os espectadores. Não é raro os jovens, em vez de fugirem das casas e cabanas onde estão sendo perseguidos, rumar para ambientes ainda mais inseguros, facilitando a vida do assassino. E, durante a fuga, provavelmente a vítima, quando mulher, perderá algumas peças de roupa, deixando à mostra suas robustas curvas. Em uma bem-humorada reportagem da revista Preview, intitulada “13 táticas para sobreviver em um filme de horror”, a jornalista Michelle Veronese escancara a previsibilidade dos vilões e personagens que povoam os filmes de horror:

 “A cada sequência, esses violões tendem a seguir o mesmo modus operandi: permanecem quietos por um tempo, são despertados acidentalmente por um personagem desastrado, perseguem os mesmos tipos de vítima e só um herói é capaz de derrota-los – depois, claro, de perder todos os amigos e quase bater as botas. Já as vítimas, essas são um (irritante) caso à parte. Quando bate o medo, elas dão adeus ao instinto de sobrevivência e lá se vão, sozinhas e na calada da noite, a explorar sótãos abandonados, casas velhas e florestas sinistras.”

Fica fácil identificar estas características em uma série de filmes lançados nos anos seguintes após Halloween, notadamente as longevas séries Sexta-Feira 13 (1980), A Hora do Pesadelo (1984) e Brinquedo Assassino (1988), além de produções como Pague para Entrar, Reze para Sair (1981), O Pássaro Sangrento (1987), Armadilha para Turistas (1979) e Dia dos Namorados Macabro (1981). Como seria de se imaginar, mesmo com o sucesso de algumas franquias e as inevitáveis continuações, o gênero deu sinais de esgotamento no início da década de 1990, perdendo o interesse dos espectadores – um sucesso de crítica e público do porte de Halloween nunca chegou a ganhar a luz do dia.

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