
Como já contei aqui no blog no post O Corvo e os devaneios de um adolescente metaleiro, já tive minha fase de coturnos, roupas pretas, anéis de caveira e cabelos compridos. Tudo começou quando encontrei, bem por acaso, uma fita K-7 jogada em uma das gavetas de uma estante da minha avó. Até hoje não sei de quem era a tal fita. Ali, estavam gravadas algumas das principais músicas do famoso black album, do Metallica: Enter Sandman, Sad But True, The Unforgiven, Nothing Else Matters e por aí vai. A partir de então, deixei o Roxette de lado e mergulhei nos outros álbuns do grupo. Gostei principalmente dos três primeiros (como todo bom fã mais xiita). Apesar dos tropeços da banda – entenda-se St. Anger – continuo curtindo o som de Hetfield e cia. Sem camisas pretas nem bandanas, diga-se de passagem.
Assim, foi com um misto de nostalgia e apreensão que fui assistir este fim de semana a Metallica: Through the Never, que estreou por aqui na última sexta-feira. A ideia da banda e do diretor Nimród Antal desde o início soava ousada: gravar um show em 3D da banda e juntar a performance musical com um “arco dramático”, apresentando uma história ficcional que se passasse durante o show. Para o “filme dentro do show”, foi chamado o ator Dane DeHaan, que recentemente protagonizou Poder Sem Limites (Chronicle, 2012) e estará em O Espetacular Homem Aranha 2 (The Amazing Spider-Man 2). Parecia interessante.
Vamos direto ao ponto: o show, filmado durante apresentações da banda em Vancouver e Edmonton, no Canadá, é impressionante; já o “filme”, é totalmente dispensável. O fiapo de roteiro apresenta um ajudante da produção do show que precisa ir às ruas às pressas para resgatar um material que será usado pela banda. Logo, se vê em meio a uma batalha entre policiais e uma horda de “guerreiros urbanos”. Passa a ser perseguido por um sujeito muito estranho em cima de um cavalo. O resto é resto e é difícil achar algum sentido na história. Não espere algum desfecho plausível, até porque nem sequer há desfecho.
A ligação do show com a história de ficção segue uma fórmula que, se não acrescenta muito, ao menos não atrapalha, apesar da trama sorrateira. No intervalo de cada música – ou, em raros momentos, durante as canções – surgem as cenas do “arco dramático”, que também abusam dos efeitos especiais. Há até uma ou outra sequência mais forte, como as imagens de pessoas enforcadas no meio da rua ou o momento em que o protagonista coloca fogo em si mesmo (relaxe, esse spoiler não faz diferença alguma).
Em entrevista ao site The Dissolve, publicada semana passada, o diretor Nimród Antal afirma que a intenção era, mesmo, fazer um filme “abstrato”, até por conta das limitações de tempo. “Eu queria que ele (o filme) fosse obscuro. Eu queria que ele fosse abstrato. Eu não queria que fosse a estrutura de três atos americana, certinha, toda engravatada. Este, por ser primeiramente e de forma mais importante, um concerto-filme, eu tive que criar um conceito que trabalhasse dentro do que eles estivessem fazendo. Você não tem uma hora e meia, você não tem duas horas para gastar com um personagem, você não tem diálogo”, afirmou Antal. O Whiplash traz aqui mais trechos da entrevista, traduzidos em português.
Ao fim, a parte essencial de Metallica: Through the Never é justamente o show da banda, que surge mais extravagante e performática do que nunca. O enorme e complexo palco é uma atração à parte, assim como as explosões, raios de luz e imagens projetadas ao redor e sobre os pés dos músicos – pense em um videoclipe em tempo real. O 3D contribui e muito na imersão do espectador, junto de closes virtuosos das feições de Hetfield, Hammet, Lars e Rob e seus instrumentos. Tudo tem ares de espetáculo: em Ride the Lightning, uma cadeira elétrica desce do teto soltando raios e em …And Justice for All, uma estátua é montada ao lado da bateria, só para ser despedaçada em seguida.
O setlist, apesar de previsível e enxuto – o filme tem uma hora e meia, incluindo as cenas externas – também deve agradar aos fãs, com a presença de clássicos “das antigas” como Master of Puppets, One, Battery, Hit the Lights e For Whom the Bell Tolls. Se puder, assista no IMAX do Shopping Palladium, em Curitiba: seus olhos e ouvidos agradecerão (não, eu não recebi nada para fazer propaganda).
Claro que assistir a um show no cinema, independente do gênero musicial, sempre tem suas limitações. Apesar da sessão que fui estar cheia de metaleiros, nem mesmo os mais empolgados arriscaram fazer coro às músicas ou bater cabeça na poltrona. Ficou faltando também a cerveja gelada e os amendoins. O jeito é aguardar o lançamento em DVD.
Confira o setlist do show:
Creeping Death
For Whom the Bell Tolls
Fuel
Ride the Lightning
One
The Memory Remains
Wherever I May Roam (introdução)
Cyanide
…And Justice for All
Master of Puppets
Battery
Nothing Else Matters
Enter Sandman
Hit the Lights
Orion (créditos)
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