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Sonhando acordado com Catherine Deneuve

A febre da literatura dita erótica trouxe novamente aos holofotes as discussões sobre as fantasias sexuais femininas, principalmente as que envolvem práticas pouco ortodoxas, como o sadomasoquismo. Mesmo a grande imprensa se rendeu às reportagens que tentam desvendar a atração que Christian Grey e derivados exercem sobre a libido das leitoras.

A discussão, claro, não é nova. Volta e meia livros e filmes, sejam ficcionais ou científicos, procuram trazer nova luz para a eterna pergunta “o que querem as mulheres?”, no sentido físico da questão. O Amante de Lady Chatterley (1928), escrito por D. H. Lawrence, já cativava leitoras e leitores pelo mundo não pelas cenas ardentes, mas por falar sobre o desejo sexual feminino sem pudor, do ponto de vista de uma jovem esposa sedenta por carinho.

No cinema, as produções que envolvem o tema são várias, desde as comédias românticas mais “moderninhas” até filmes mais hardcore, que ficam no limiar entre o erótico e o pornográfico. Mas, se formos falar daqueles que realmente deixaram alguma marca, impossível não citar A Bela da Tarde (Belle de Jour, 1967), o enigmático filme francês do surrealista Luis Buñuel.

A Bela da Tarde é uma refinada produção sobre as fantasias da esposa de um médico, Séverine, interpretada por Catherine Deneuve. Apesar de não conseguir ficar à vontade com o marido na cama, sonha acordada (literalmente), com jogos de submissão sexual em que é humilhada e castigada pelo companheiro e por outros homens.

Divulgação.

Até que decide dar vazão a essas fantasias prostituindo-se em um bordel, onde ganha a alcunha de “belle de jour”, justamente por se colocar à disposição só entre a hora do almoço e do café da tarde.

Mas não se engane. Apesar de Buñuel ter descrito o filme como “pornográfico”, A Bela da Tarde está longe de ser uma produção que representa o sexo de forma gráfica. E aí reside um dos seus maiores méritos. Somos levados a explorar ao máximo nossa imaginação, completando lacunas de cenas que deixam apenas subtendidas as intenções e fantasias dos clientes de Séverine. Nem mesmo o corpo da bela é explorado em todo o seu potencial, por assim dizer. Como citei lá em cima, A Bela da Tarde é sensual e refinado, nunca vulgar ou grosseiro.

Neste universo de fantasias, Buñuel brinca com o espectador, mesclando, a todo momento, realidade e sonho. Em várias ocasiões, compreendemos o significado de uma cena somente quando ela termina e a outra começa (e não no decorrer da sequência, como é de praxe). Há uma atmosfera onírica permanente em todo o filme, que, para desgosto dos mais preguiçosos, não traz diferenciações estéticas para estipular o que de fato é sonho e o que de fato é real.

Isto permanece até o fim do filme, que é deliciosamente enigmático. Buñuel abre as portas para mergulharmos na mente de Séverine, e, só assim, percebermos o quanto ela é atormentada por suas fantasias. Do início ao fim, somos cúmplices da “belle de jour”.

Divulgação.
Sonho ou realidade? Ao fim, é o espectador quem decide.

A Bela da Tarde causou certa controvérsia ao ser lançado. Foi taxado de pervertido, talvez justamente por Buñuel ter evitado julgamentos morais sobre a conduta da personagem de Catherine Deneuve. Ou por ter tocado em feridas que permanecem até hoje, como a dificuldade que todos possuímos em lidar com a sexualidade num sentido mais pleno. Felizmente, os méritos artísticos do filme se sobrepuseram às eventuais polêmicas, tanto que levou o Leão de Ouro no Festival de Veneza.

Hoje, é fácil achar o DVD a preços módicos, inclusive em lojas de varejo, como as Americanas. Fuçando no You Tube, dá até pra achar o filme completo. Que tal deixar os “50 Tons de Cinza” e imitações um pouco de lado para saborear esta fantasia realmente sedutora?

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