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Índios do Paraná

Wenderson Araujo
Romancil Cretã, no STF: o pai dele foi assassinado em Mangueirinha nos anos 80.

Reportagem publicada hoje na Gazeta do Povo:

O julgamento sobre a demarcação da reserva Raposa Serra do Sol mobilizou lideranças indígenas de todo Brasil. Eles acreditam que o caso de Roraima servirá como base para várias outras ações similares, o que foi referendado pelo presidente do STF, Gilmar Mendes, após a sessão. O caingangue paranaense Romancil Cretã, 36 anos, estava entre os cerca de 20 índios de fora do conflito que deixaram seus estados para acompanhar o julgamento em Brasília.

“Se continuamos sobrevivendo há 500 anos, é porque somos perseverantes e sabemos quando é hora de lutar”, disse. Segundo ele, a prioridade entre as reivindicações dos índios do Paraná é o respeito à aldeia da Serra dos Dourados, no Noroeste do estado, berço dos xetás. A etnia tem apenas seis representantes não-mestiços ainda vivos, mas o espaço é pleiteado por 92 descendentes, miscigenados com outros grupos.

Ao todo, existem 34 áreas ocupadas por índios no Paraná. Entre elas, 19 foram demarcadas oficialmente, 9 estão em processo de delimitação e outras 6 são alvo de disputa. Vivem no estado cerca de 14 mil índios, a maioria caingangues e guaranis.

Coordenador-geral da Articulação dos Povos Indígenas do Sul, Cretã diz que há semelhanças em quase todas as questões de terra envolvendo índios e brancos. “Se o STF mudasse as regras e determinasse a descontinuidade do território em Roraima, a decisão teria um efeito dominó por todo Brasil. Enfrentaríamos todo tipo de problema.”

O caingangue relembra que o Paraná, embora pouco representativo atualmente, foi precursor das organizações indígenas. O pai dele, Ângelo Cretã foi assassinado em 1980 após anos de brigas com produtores rurais da região de Mangueirinha, município do Sudoeste paranaense. “Meu pai foi o primeiro índio brasileiro eleito para um cargo público (era vereador). Juntou tantos inimigos que ficou difícil dizer quem realmente foi o mandante do crime.”

A exemplo de Cretã, o guarani-kaiowá Anastácio Peralta, 48 anos, viajou do Mato Grosso do Sul para acompanhar o julgamento no STF. Ambos integram a Comissão Nacional de Política Indigenista, que discute ações governamentais aplicáveis aos índios. “A decisão causou apreensão no meu estado porque somos a segunda maior população indígena do país”, comentou Peralta.

Atualmente vivem no Mato Grosso do Sul cerca de 70 mil índios, divididos em seis etnias. Desses, ao menos 40 mil moram em tribos moram próximos ao município de Dourados. Vários conflitos no estado também se transformaram em processos que chegaram ao STF.

O mais famoso é o da aldeia Cerro-Marangatu, no município de Antonio João, na fronteira entre Brasil e Paraguai. Peralta conta que a situação dos 500 kaiowás que vivem na região é parecida com a enfrentada pelos índios da Raposa Serra do Sol. A disputa na região começou nos anos 1940 e a população foi praticamente dizimada. “A diferença é que no nosso estado a polícia agiu para retirar os índios e não os invasores”, descreveu.

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