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O advogado de Protógenes

Daniel Castellano/Gazeta do Povo
Renato Andrade, que defende o delegado da PF Protógenes Queiroz em Brasília: trâmites da defesa por telefone e email.

Entrevista publicada na edição impressa de hoje da Gazeta do Povo, feita pelo blogueiro que cá escreve:

O delegado responsável pela Operação Satiagraha, Protógenes Queiroz, tentou de todas as formas adiar o depoimento à CPI das Escutas Telefônicas na Câmara dos Deputados, realizado na última quarta-feira. Na retaguarda do policial, surgiu pela primeira vez o advogado curitibano Renato Andrade. O jurista recorreu ao Supremo Tribunal Federal, mas não conseguiu evitar o comparecimento do novo e famoso cliente.

Em entrevista exclusiva à Gazeta do Povo, Andrade explica como conheceu o delegado, critica o presidente da comissão, Marcelo Itagiba (PMDB-RJ), e comenta os últimos acontecimentos do caso. Segundo ele, a tentativa de tentar incriminar Queiroz no episódio de suborno para liberar o banqueiro Daniel Dantas é uma tese de defesa “apenas razoável” dos advogados do empresário Hugo Chicaroni.

O empresário Hugo Chicaroni mudou o depoimento na última quinta-feira e disse que ofereceu propina para livrar Daniel Dantas porque o dinheiro foi pedido pelo delegado Protógenes Queiroz. O que Protógenes tem a dizer sobre isso?
Eu acredito que seja apenas uma nova versão da defesa (de Chicaroni). É uma estratégia tão antiga quanto aquela história de que o réu só confessou na polícia porque foi torturado. Trata-se de uma tese de defesa apenas razoável. Foi uma escolha do advogado dele. Mas o fato é absolutamente inverídico, como as gravações comprovam.

Qual foi o verdadeiro motivo para o afastamento de Protógenes das investigações?
Até onde eu sei, efetivamente, para fazer o curso na Academia Nacional da Polícia Federal. Tudo leva a crer que esse fato é verdadeiro porque o Protógenes teve de ingressar com uma ação judicial para poder freqüentar esse curso. As aulas tiveram início, coincidentemente, com o final da investigação. O afastamento dele foi por esse fato, pelo qual inclusive ele brigou judicialmente.

O conteúdo da gravação editada e distribuída pelo governo condiz com o que houve durante a reunião que definiu o afastamento?
Essa fita tornou-se pública em três minutos de edição. Mal se consegue compreender o que se debatia na reunião. O Protógenes apresenta uma versão que diz respeito ao curso, na qual ele reitera a necessidade de fazê-lo. Mas disse que estaria disposto a permanecer à frente das investigações. O resto é absolutamente desconhecido, inclusive para mim.

A Polícia Federal deu ao Protógenes o respaldo que ele esperava?
Estamos aguardando para agora o respaldo que o Protógenes realmente precisa, que é o abono da falta que ele teve de cometer no curso para comparecer à CPI das Escutas Telefônicas na última terça-feira. Entendo que investigações de grande porte, que envolvem pessoas importantes, como essa, que bateu à porta mais próxima do presidente da República e atingiu seu secretário particular (Gilberto Carvalho), sempre provocam um constrangimento para a instituição. Ele faz parte desse constrangimento, junto com chefes, subordinados, agentes e todas as demais pessoas que participaram da operação. É absolutamente normal.

O presidente da CPI das Escutas Telefônicas, Marcelo Itagiba (PMDB-RJ), também é delegado da Polícia Federal. Ele não aceitou, por julgamento próprio, o pedido de adiamento do depoimento de Protógenes, realizado na última quarta-feira. Há alguma rixa entre os dois?
Não que eu saiba. Tenho participado ao longo da minha vida profissional de muitas CPIs. Acho que é um instrumento válido e importantíssimo para o Poder Legislativo. Mas as pessoas que têm comandado as comissões estão se investindo de um superpoder, que elas não possuem. O doutor Marcelo (Itagiba) indeferiu um pedido absolutamente razoável, adequado, que ele já havia deferido similarmente para o juiz do caso (Fausto De Sanctis). Ele se achou acima do bem e do mal. O adiamento não iria afetar em nada os trabalhos da CPI.

O delegado Protógenes esperava que a Operação Satiagraha tivesse uma repercussão tão grande?
A repercussão era esperada em razão de que a autoridade investigante sabe até onde pode chegar e as pessoas que está investigando. Mas nesse caso específico a projeção do caso extrapolou qualquer expectativa. Mas não que isso vá causar um transtorno pessoal a ele.

Ele se sente perseguido?
Não, absolutamente.

Vários ministros do STF questionaram abusos quanto ao uso de algemas durante a operação. Ele concorda que houve falhas?
Numa operação complexa como essa não há como imaginar que ela irá começar pacífica e terminar pacífica. Toda a investigação foi conduzida com o apoio do Poder Judiciário, com as autorizações necessárias, e com o conhecimento do Ministério Público. Se você me perguntar se foi uma investigação perfeita, vou responder que não. A investigação perfeita ainda está para acontecer, aqui, no FBI ou em qualquer órgão policial do mundo.

Qual é a visão dele sobre as críticas quanto às falhas técnicas que teriam sido cometidas durante o inquérito?
Não houve falhas técnicas. Graças à repercussão do caso, criticaram até mesmo a redação de um relatório tornado público foi objeto de questionamento. Ele foi chamado de dândi, porque tinha um tipo de redação que não seria adequada para um texto policial. Mas daí eu pergunto: seria razoável para uma matéria jornalística ou um livro de memória? Questionaram até isso! Mas do ponto de vista técnico a investigação foi absolutamente regular, adequada. Tanto que ela continua.

Como o senhor conheceu o delegado Protógenes?
No final dos anos 90, em Foz do Iguaçu. Ele era o delegado responsável pela investigação de remessa de divisas ilegais para o exterior, que envolvia o Banestado. Fui apresentado a ele por um cliente que tinha na época. Houve depois algumas coincidências que nos aproximaram e ficamos amigos. No episódio de agora, recebi uma ligação dele perguntando se poderia auxiliá-lo juridicamente e eu e meu sócio (Romeu Bacellar) aceitamos.

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