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Você também se incomodou com as comparações que faziam no começo da pandemia entre o número de mortes aqui no Brasil e os da Itália (naquele momento, epicentro do contágio), sem considerar que o Brasil tem quase quatro vezes a população da Itália? Cansei de ler e ouvir que o Brasil registrou em 5 ou 10 dias um número de mortes por Covid-19 igual ao que a Itália teve em não sei quantas semanas. Aí vinham os gráficos e as previsões de que a tragédia aqui seria muito maior, com pitadas de desinformação que foram espalhando pânico sem necessidade.

A tragédia é grande, aqui e em qualquer outro lugar, mas a análise com comparações de números que não são comparáveis é destrutiva. Não dá pra dizer que a situação de um país com 210 milhões de habitantes como o Brasil é a mesma de outro com uma população muito menor - o que significa, na visão mais rasa, menos pontos de contágio.

Se fosse comparar com a Itália, que tem 60 milhões de habitantes, deveríamos usar só os números de mortos em São Paulo, Paraná e Santa Catarina, por exemplo, já que juntos os três estados têm mais ou menos o mesmo número da população italiana.

Há muitas estatísticas furadas por aí. Meu incômodo atual é gerado pelo ranking entre países com maior número de casos, que quase nunca vem acompanhado da ressalva de que são números absolutos, que desconsideram uma informação crucial: o tamanho da população.

Os EUA, que atingiram o topo do ranking e de lá não mais saíram, têm quase 5 vezes a população do Reino Unido, por exemplo, e 30 vezes a de Portugal. É óbvio que o número de casos lá seria maior. E também aqui no Brasil. Não vou mencionar a China, porque os números divulgados pelo governo chinês não são confiáveis, mas é de se imaginar que os chineses tenham sido as maiores vítimas da pandemia até agora. Um país com mais de um bilhão de habitantes não pode ter tido apenas 4.638 mortes, como anunciam.

As estatísticas nacionais também precisam ser olhadas em separado, não só porque há diferenças gritantes no número de habitantes de cada região, mas características muito diversas às vezes até entre estados vizinhos, como é o caso aqui do Paraná e de São Paulo, que já foram, inclusive, a mesma unidade da federação (o Paraná foi província de São Paulo até 1853).

Para começar, São Paulo tem metrô e trens urbanos e o Paraná não. Outro ponto importante: as aglomerações são muito menores aqui, simplesmente porque só a cidade de São Paulo tem mais gente do que o Paraná inteiro. Além disso os 11 milhões e meio de paranaenses estão espalhados por 399 municípios, numa extensão territorial muito maior que a da capital paulista.

A verticalização e a grande concentração de pessoas na cidade de São Paulo faz com que paulistanos sejam obrigados a conviver em elevadores de prédio e no transporte coletivo lotado, o que não acontece na imensa maioria das cidades paranaenses.

Por tudo isso, quase três meses depois do primeiro caso de infecção por coronavírus confirmado no Brasil, está mais do que na hora de ignorar as estatísticas que insistem em confundir e espalhar pânico e olhar, sim, para os números de fontes confiáveis (mortes por milhão de habitantes). E sempre atento às diferenças entre países e às desigualdades regionais, que agora, aqui no Brasil, estão mais escancaradas do que nunca.

Infográficos Gazeta do Povo

Preciso dizer que entre os vários gráficos e rankings feitos pela equipe de Infografia aqui da Gazeta do Povo, tem um que eu olho todo dia e aconselho você a olhar também: o ranking de mortes por milhão. É um trabalho gigantesco compilar os dados, mas os gráficos são atualizados todo dia e dão uma noção real de onde a pandemia foi mais violenta, independentemente da causa.

Se você ainda não acessou esses gráficos vou te dar pistas do que tem por lá. Deixo de lado a análise dos porquês. Números não revelam se morreram mais italianos porque a população idosa é maior ou se morreram mais americanos por causa da imensa quantidade de obesos no país – e obesidade é um grande fator de risco para essa doença. O número de mortes por milhão revela a gravidade real da Covid-19 em cada lugar e permite entender também a situação do Brasil na comparação com os demais países.

O vídeo do topo da página, publicado junto com este texto, foi gravado nesta terça-feira (02). Por isso se você for olhar os infográficos agora não se espante caso encontre números diferentes. Como eu disse antes, eles são atualizados todo dia. Em 02 de junho de 2020 sabe qual era o pior país do mundo para estar durante a pandemia? Bélgica.

A Bélgica, que fica na Europa Ocidental, entre a França, Holanda, Alemanha e Luxemburgo, e é o país sede da União Europeia, está com 820 mortes por milhão. Já são quase 10 mil casos fatais para uma população de 11 milhões e meio de habitantes. O número da população belga é bem parecido com a do Paraná e aqui no Paraná o os mortos por Covid-19 até esta terça eram 190, o equivalente a 17 mortes por milhão.

Para você se situar, o Brasil tem neste momento 142 mortos por Covid-19 a cada milhão de habitantes, o que nos coloca em 13° no ranking mundial das mortes por milhão - esse sim um ranking em que dá para acreditar, porque reflete a letalidade real da doença em cada país.

Países sem registro de mortes por Covid-19

De 141 países que divulgam suas estatísticas quatro ainda não tinham registrado nenhuma morte até esta terça (02): Vietnã, Camboja e Mongólia, na Ásia, e Uganda, na África. Em outros 13 países o número de mortes é pequeno a ponto de não ser possível fazer a estatística de mortes por milhão, ou seja, o grau de mortalidade continua constando como zero.

Outro gráfico interessante mostra apenas as novas mortes por milhão (aquelas registradas nas últimas 24 horas). Já são 75 países com resultado zero. Como não houve mortes nas últimas 24h, estatisticamente, a mortalidade da Covid-19 nesses países caiu a zero.

Repito: 75 de uma lista de 151 países não registraram mortes por Covid-19 do dia 2 para o dia 3 de junho. Nesta tabela a lista de países é um pouco maior que a outra, porque mais nações passaram a divulgar os números diários, embora não divulguem os números absolutos, desde o início da pandemia.

O mesmo infográfico mostra que em outros 57 países não é todo dia que morre alguém de Covid-19, a ponto de não se conseguir fazer estatística de novas mortes por milhão - o resultado dá zero vírgula alguma coisa, o que significa que nesses lugares o número de vítimas fatais é insignificante para o tamanho da população ou passam-se alguns dias até alguém morrer devido à infecção por coronavírus. Esse grupo de países, que já inclui a Itália, por exemplo, teve menos de 1 morte por milhão de habitante registrada de segunda para terça-feira.

São números que nos mostram a situação real, o perigo real, onde já é mais tranquilo (ou não) retomar a vida. A Espanha, que viveu semanas terríveis e assustadoras, ainda enfrenta situação preocupante, mas com base na queda das curvas de contágio e de mortes já anunciou que no mês que vem reabre até as fronteiras. O turismo será retomado!

O Brasil ainda não pode relaxar, está no epicentro da epidemia. No ranking das mortes diárias estamos em sexto lugar numa lista de 11 países que ainda têm, a cada dia, mais de uma morte por milhão. Mas viu que há uma boa notícia aí?

Apenas onze países ainda registram mais de uma morte por milhão de habitantes a cada dia neste começo de junho.

Você pode ver o gráfico completo aqui (link no fim do texto também), mas não resisto a antecipar a lista para matar já a sua curiosidade. Os 11 países que ainda tem mais de uma morte diária por milhão são, pela ordem: Reino Unido (8,19 mortes por milhão a cada dia), Peru (3,88), Macedônia e Chile (com 3 vírgula alguma coisa); Moldávia, Brasil, Armênia, Bolívia, Rússia, EUA e Equador (com 2 vírgula alguma coisa – menos de 3 mortes por milhão de habitantes a cada dia). A taxa exata registrada no Brasil nas 24h de segunda para terça-feira desta semana foi de 2,93 mortos por milhão de habitantes.

Números do coronavírus no Brasil

Desigualdades regionais no Brasil (Covid-19)

Os números brasileiros da Covid-19 também são reveladores, mostram o quanto esta doença está escancarando as imensas desigualdade regionais do país. E aqui não se trata apenas de renda per capita, normalmente atrelada à falta de instrução, o que reflete também no descuido com a própria saúde. Essa desigualdade a gente já conhece, mas agora está muito claro como cada estado vem sendo governado ao longo de décadas, como o governo federal olhou para as várias regiões no passado recente, que investimentos foram feitos em áreas primordiais como saneamento e saúde.

O Amazonas, maior estado brasileiro em extensão territorial, com uma ocupação urbana desordenada em Manaus, não tinha hospitais nem leitos de UTI suficientes para enfrentar um vírus desconhecido e altamente contagioso, que ataca de forma mais grave quem já não tem muita saúde. O que aconteceu? A taxa de mortos por milhão no Amazonas é de 500, quando a média nacional é de 142 e há estados, como Mato Grosso do Sul, com 7 mortos por milhão.

Neste mesmo país de 7 ou 500 mortos por milhão, estão Minas Gerais, com 13 mortes registradas a cada milhão de habitantes; Paraná com 17; Goiás, 18; Mato Grosso, 19; Rio Grande do Sul e Santa Catarina, com 20 mortes por milhão cada. No topo do ranking, depois do Amazonas, estão Ceará, com 349 mortes por milhão de habitantes; Pará, com 340; Rio de Janeiro, 316; e Pernambuco, com 301.

É de se perguntar por que isso está acontecendo. Como esses estados vêm sendo governados? Que políticas públicas de saúde e de prevenção a doenças foram feitas nas últimas décadas por esses governantes que se dizem tão preocupados com o bem estar do povo?

Também estão em situação bem preocupante Roraima, Acre, Amapá, Maranhão, Alagoas, Espírito Santo e São Paulo. São Paulo eu deixaria de fora da análise, porque é o estado mais populoso, tem a capital com o maior aglomerado urbano do país e, como eu disse no começo do texto, tem trem e metrô o que facilita a propagação do vírus, então não acho justo comparar.

Para não dizerem que ignorei a estatística, São Paulo tinha nesta terça 173 mortes por milhão de habitantes, acima da média brasileira de 142, mas bem abaixo das mais de 300 mortes por milhão registradas no Rio de Janeiro, Pará, Ceará e Pernambuco ou das 500 do Amazonas.

Mas o que será que é tão diferente entre os estados do Norte, Nordeste e alguns do Sudeste (Espírito Santo, com 165 mortes por milhão e Rio de Janeiro, com 316) e os estados do Sul e Centro Oeste, que parecem estar num país completamente diferente?

Em quem as populações desses estados têm votado, em quais políticos têm acreditado? Nos coronéis, que prometem mundos e fundos e sempre distribuem migalhas e populismo ou nos que têm perfil de gestor e tentam aplicar as riquezas recolhidas através dos tributos em investimentos duradouros para beneficiar a população como um todo?

As desigualdades brasileiras também são gritantes no que diz respeito a aglomerados urbanos e áreas rurais, capitais e interior, cidades verticalizadas ou com predominância de casas, onde há um isolamento social naturalmente maior. Tudo isso tem feito diferença na pandemia.

Nem vou entrar na comparação entre capitais, porque o texto já está grande e isso renderia uma coluna à parte. Mas posso terminar citando a minha cidade, Curitiba, considerada exemplo para o país em muitas áreas, acredito eu, por boa governança e um povo que respeita o coletivo e atua como fiscal do poder público.

Curitiba está se saindo bem nas estatísticas, embora qualquer palavra positiva que se diga possa ser mal interpretada quando há dezenas de milhares de doentes e de famílias em luto. Mas preciso terminar esse artigo dizendo que Curitiba tem dois milhões de habitantes, menos de 1000 casos confirmados de Covid-19 até este comecinho de junho e 47 mortes, o que dá 23 mortes por milhão de habitantes. E Curitiba está no Brasil.

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