O Irã vive um dos momentos mais críticos de sua história recente, marcado por uma ofensiva militar conjunta dos Estados Unidos e de Israel contra o regime liderado pelos aiatolás. Enquanto o mundo acompanha o desenrolar dos bombardeios, relatos vindos do interior do país pintam um cenário de caos, repressão violenta e um desejo crescente de mudança por parte da população.
Em entrevista concedida à Gazeta do Povo, o professor iraniano radicado na França, Amir Rezae, trouxe detalhes sobre a atmosfera de incerteza em Teerã. Segundo Rezae, o regime tem tentado silenciar as vozes internas através do corte quase total da internet, dificultando a comunicação de familiares com o exterior. No entanto, informações que conseguem ultrapassar a barreira da censura indicam que o medo dos bombardeios divide espaço com a esperança de que este seja o "começo do fim" de um sistema que oprime a nação há quase cinco décadas.
Vácuo de poder e crise de liderança
A situação política agravou-se com relatos da morte do Líder Supremo, Ali Khamenei, durante os primeiros ataques, além da eliminação de outros nomes na linha sucessória. Em uma tentativa de manter o controle, o regime anunciou o filho de Khamenei como o novo líder, uma escolha vista com estranheza pela população, visto que ele nunca teve uma presença pública relevante.
Rezae explica que a dificuldade em derrubar o governo reside no fato de o Irã ser uma teocracia absoluta, onde o líder concentra poderes religiosos, políticos e militares. "Pense no Brasil, se o presidente fosse ao mesmo tempo o Papa e o comandante de todas as forças armadas", ilustrou o professor para explicar a hegemonia do sistema.
Massacre e resistência popular
O custo humano da resistência tem sido devastador. Estimativas indicam que cerca de 40.000 pessoas podem ter sido mortas em massacres recentes, especialmente durante protestos ocorridos no início de janeiro. O massacre é descrito como um dos maiores contra uma população civil pelo próprio governo no último século. A repressão é executada não apenas pelas forças armadas regulares, mas também pela "polícia religiosa", conhecida como Basij.
Apesar do apoio ativo ao regime ser estimado em apenas 10% a 15% da população — em sua maioria dependentes econômicos do Estado — a estrutura teocrática utiliza o medo e a ideologia para se manter.
O fator externo e o futuro
A confluência de fatores como o retorno de Donald Trump à presidência dos EUA e o acesso a tecnologias de comunicação, como o sinal da Starlink de Elon Musk, tem sido apontada como combustível para a coragem dos manifestantes. Nas ruas, nomes como o de Reza Pahlavi, filho do último Xá do Irã, voltaram a ser citados como possíveis figuras de transição para um modelo democrático.
O cenário futuro permanece incerto. Embora o regime tenha demonstrado resiliência no passado, o bombardeio constante de suas bases e a insurreição armada da população podem representar um ponto de inflexão definitivo. Para os iranianos, tanto os que estão no país quanto os que observam do exílio, a expectativa é de que o Irã possa, finalmente, encerrar o que muitos chamam de um "parêntese" de 50 anos em sua milenar história.




