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Crônicas de um Estado laico

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Igreja e Estado

A Igreja que diz “não” a César: as lições de Ambrósio de Milão para nosso mundo

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Detalhe de “Santo Ambrósio impede Teodósio de entrar na catedral de Milão”, de Anthony van Dyck. (Foto: Wikimedia Commons/Domínio público)

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Há uma imagem de que gosto: “quem planta tamareiras não come tâmaras”. Não como botânica, é claro (tamareiras dão frutos muito antes disso), mas como imagem de legado: há coisas que plantamos sabendo que talvez sejam outros a colher seus melhores frutos. Foi essa a reflexão mais interessante que tive ao passar alguns dias no norte da Itália, entre os Alpes – na região de fronteira com a Áustria – e a grande cidade de Milão.

Como tudo no “velho mundo”, a ocupação humana documentada remonta a milênios, atravessando diversos agrupamentos, sociedades, tribos e civilizações. A cada camada de tempo enxergamos elementos comuns: a busca de abrigo contra as intempéries; a luta sempre presente por alimento; a defesa de um território e o impulso pela conquista de mais espaço em ambientes hostis; e, claro, a religião como fator de consolidação de mentalidades e resposta ao impulso transcendente.

Inclusive, uma nota: a natureza é bem radical por aqui, do calor sufocante ao frio congelante, e certamente essa condição ajuda a moldar o caráter das pessoas. Parece ser um lembrete bem prático de que a vida apresenta realidades nada confortáveis e de que a busca do bem, próprio ou de todos (o bem comum), requer esforço, ordem e alguma humildade. Isso se nota no senso prático de muitos dos que vivem na linda e difícil região das Dolomitas – um paraíso para os olhos e um desafio permanente à sobrevivência.

Em Milão, pontos muito marcantes da história cristã ajudam a entender a influência da religião nesta lenta construção civilizatória

Milão, por sua vez, na região da Lombardia, guarda tesouros inestimáveis para a nossa civilização. A antiga Mediolanum foi sede imperial entre 286 e 402 d.C., tornando-se um dos grandes centros políticos do Ocidente romano em sua fase tardia. Aqui, pontos muito marcantes da história cristã ajudam a entender a influência da religião nesta lenta construção civilizatória, que pode ser exemplificada pela própria edificação do imponente Duomo, cuja história de construção atravessa mais de seis séculos.

Antes de chegarmos a Ambrósio, porém, vale uma parada em Antioquia. Ali, cerca de um século antes, o bispo Bábilas havia deixado uma imagem poderosa da função profética da Igreja diante do poder temporal. A tradição antiga registra que um imperador (provavelmente Filipe, o Árabe) foi impedido de participar da assembleia cristã antes de se submeter à penitência por uma falta grave. Bábilas morreria depois na prisão, durante a perseguição de Décio, por volta do ano 250. Guarde essa cena, porque ela reaparecerá em Milão, de modo ainda mais impressionante, com Ambrósio e Teodósio.

Poucas décadas se passam, e uma revolução começa. Em 311, o imperador Galério, um dos responsáveis pela grande perseguição, recua e reconhece aos cristãos a possibilidade de voltar a se reunir. Dois anos mais tarde, em Milão, a mudança ganharia outra dimensão. O império já estava longe do auge dos primeiros séculos e funcionava sob a lógica da tetrarquia, com imperadores disputando poder e espaço até a consolidação de Constantino.

Aliás, falando em Constantino, foi em Milão que ele e Licínio se encontraram em 313, numa reunião também ligada ao casamento de Licínio com Constância, irmã de Constantino. Desse encontro nasceu aquilo que a história consagrou como “Édito de Milão”: não propriamente um édito promulgado ali, mas um acordo que assegurou liberdade religiosa, inclusive aos cristãos, revogou medidas hostis e determinou a restituição dos bens que lhes haviam sido confiscados. Foi nessa cidade que o jogo virou: não porque a Igreja tivesse conquistado o poder, mas porque o poder que tentara eliminá-la passou a reconhecer juridicamente seu direito de existir.

Ali, no complexo episcopal sobre o qual hoje se ergue o Duomo, outro encontro fenomenal mexeu com as bases do cristianismo. Ambrósio de Milão – um catecúmeno de formação jurídica e carreira administrativa, aclamado bispo pela população antes mesmo de ser batizado – fez da Escritura o centro de sua vida e pregação, profundamente marcado pela prática da Lectio Divina. Entre os que o ouviam estava Agostinho de Hipona, profundamente influenciado por sua interpretação espiritual das Escrituras e por ele batizado na Vigília Pascal de 387.

O antigo batistério de San Giovanni alle Fonti, onde isso aconteceu, ainda pode ser visto sob a atual Piazza del Duomo. Ali plantou-se um lindo pé de tâmaras. Caminhar por aquela praça sabendo que, sob nossos pés, ainda estão os restos do batistério onde isso aconteceu dá outra dimensão à história. Aquilo deixa de ser apenas uma página e volta a ser um lugar. Foi Ambrósio um grande pastor de um rebanho que começava a se acostumar a ir para a rua e para a praça, e não mais para as cavernas, tanto para adorar quanto para influenciar a cidade.

A Igreja que só enfrenta César quando César a persegue é corajosa; a Igreja que consegue dizer “não” ao César que a favorece continua sendo livre

Um desses frutos aparece dentro da própria vida da Igreja. Ambrósio escreveu textos litúrgicos e hinos que marcaram tão profundamente a tradição milanesa que ele é considerado o pai da liturgia ambrosiana. O rito ambrosiano, distinto do rito romano, permanece vivo até hoje. Isso, por si só, já diz algo sobre a permanência da influência daquele homem. Devoção, oração e estudo que produziram frutos muito além de uma geração. Tamareiras plantadas.

Outro fato notável surge já na maturidade de Ambrósio, e aqui a história começa a ficar mais ambígua. Em 380, o Édito de Tessalônica, promulgado por Teodósio I juntamente com Graciano e Valentiniano II, estabeleceu o cristianismo niceno como a religião a ser seguida no império. A fé que havia sido perseguida agora recebia o favor do poder. Isso pode parecer apenas o fruto maduro da tamareira, mas trazia consigo um risco novo: a Igreja deixar de ser perseguida por César e passar a ser domesticada por ele.

É justamente aí que Ambrósio se torna ainda mais interessante. Em 390, depois do massacre de Tessalônica, ordenado em represália à morte de um oficial imperial, o bispo escreveu a Teodósio exigindo penitência e deixou claro que não celebraria a Eucaristia em sua presença enquanto ele permanecesse impenitente. O imperador acabou se submetendo publicamente à penitência.

A cena lembra, com todas as diferenças históricas, o episódio atribuído a Bábilas em Antioquia mais de um século antes. Mas agora havia algo ainda mais importante: Ambrósio confrontava não um perseguidor pagão, mas um imperador cristão que favorecia a Igreja. A Igreja que só enfrenta César quando César a persegue é corajosa; a Igreja que consegue dizer “não” ao César que a favorece continua sendo livre. Tamareiras. Tâmaras.

Enfim, são quase 1,7 mil anos de plantio e colheita, geração após geração. Hoje vivemos tempos em que se desafiam as bases, cortam-se raízes sem dó e tentam-se inventar novas formas de preservar a aparência das árvores sem permitir que a seiva que as fez crescer continue correndo e produzindo novas folhas e novos frutos.

O desafio dos que têm “ouvidos para ouvir” nesta geração é não esmorecer. Olhem para trás e vejam o que a postura ousada dos plantadores do passado tem a nos ensinar. Olhem para frente e enxerguem os campos prontos para novas semeaduras. Por seus filhos, pelos filhos deles e por todos os que merecem viver à sombra e comer os frutos dos seus esforços: coragem!

Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

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