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Crônicas de um Estado laico

Crônicas de um Estado laico

Preconceito

A Seleção Brasileira, os evangélicos e a teologia do placar

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Os evangélicos Lúcio (esq.) e Kaká (dir.) (em foto de 2009) eram parte da seleção pentacampeã de 2002. (Foto: Oliver Weiken/EFE/EPA)

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Há derrotas que revelam as limitações de um time; outras revelam também os preconceitos da sociedade que o observa. A eliminação do Brasil para a Noruega, nas oitavas de final da Copa do Mundo, deveria produzir a conhecida autópsia do nosso futebol: o pênalti desperdiçado, as oportunidades perdidas, os erros de marcação, a incapacidade de transformar domínio em gol, a formação cada vez mais europeizada dos jogadores brasileiros, as escolhas da CBF e tantos outros problemas que pertencem propriamente ao jogo. Havia, portanto, futebol de sobra para explicar a derrota. Ainda assim, nos dias seguintes à eliminação, uma parcela da torcida, das redes sociais e da intelectualidade de ocasião preferiu procurar uma causa religiosa para o fracasso, como se a bola chutada para fora pudesse ser explicada não pela técnica do jogador, mas pela igreja que ele frequenta aos domingos.

A teoria, apresentada com a solenidade própria das grandes descobertas sociológicas, afirma que o Brasil teria deixado de ganhar copas à medida que seus jogadores se tornaram majoritariamente evangélicos. O antigo futebol brasileiro, segundo essa narrativa, seria produto de uma cultura católica, comunitária, festiva, boêmia e aberta ao improviso; o novo futebol, por sua vez, refletiria uma religiosidade protestante supostamente importada, rígida, individualista, moralista e incapaz de produzir a ginga nacional. Daí surgiram frases como “se reza como gringo, joga como gringo”, além de comentários que associavam o desaparecimento do futebol-arte a uma espécie de esterilização evangélica da cultura brasileira. O argumento parece falar sobre tática, mas na verdade constrói uma antropologia religiosa de botequim, na qual o católico é naturalmente alegre e criativo, enquanto o evangélico seria austero, estrangeirado e emocionalmente incapaz de driblar.

É perfeitamente legítimo estudar a presença da religião no futebol. Aliás, seria difícil ignorá-la. Aliás, todo ano, em maio, codirigimos um curso de Direito e Religião na Universidade Autônoma de Madri, que tem uma disciplina exatamente sobre isso. Igrejas desenvolvem trabalhos de capelania, atletas participam de cultos, jogadores falam publicamente sobre conversão, famílias são alcançadas por comunidades religiosas e manifestações de fé aparecem antes, durante e depois das partidas. Então, este fenômeno existe e merece ser compreendido, antes de rechaçado.

Por que uma explicação tão frágil, associando o fracasso da Seleção Brasileira à quantidade de evangélicos no time, encontrou tamanha receptividade?

O que não existe é qualquer demonstração séria de que a confissão religiosa de um atleta determine sua capacidade de finalizar, marcar, organizar o meio-campo ou interpretar um sistema tático. A própria história da seleção desmente a caricatura: o time campeão de 1994 tinha um grupo expressivo de jogadores evangélicos, entre eles Taffarel e Jorginho, e o pentacampeonato de 2002 também contou com atletas publicamente identificados com a fé evangélica, como Kaká e Lúcio. O confrade de IBDR e filósofo católico Francisco Razzo já mostrou, aqui na Gazeta, a inconsistência da ponte imaginária entre a expansão evangélica e o placar. Nosso interesse, portanto, é avançar uma casa: por que uma explicação tão frágil encontrou tamanha receptividade?

A resposta parece estar menos no futebol e mais na profunda transformação religiosa do Brasil. O Censo de 2022 registrou que os evangélicos já representam 26,9% da população com 10 anos ou mais (agora já passa dos 30%, com certeza), depois de corresponderem a 21,6% em 2010, enquanto levantamentos jornalísticos apontaram que mais de três quartos dos convocados para a Copa professavam alguma forma de fé evangélica. Esses números não provam qualquer relação entre religião e desempenho esportivo, mas demonstram algo muito mais importante: o evangélico brasileiro deixou de ser uma presença marginal, quase invisível, distante dos centros de visibilidade e facilmente ignorada pela elite cultural. Ele agora aparece nas telas, nos estádios, nas universidades, nas empresas, nas artes, nas instituições, no parlamento e em praticamente todos os lugares nos quais a sociedade brasileira pensa, trabalha, decide e se representa.

Durante muito tempo, para parte das elites nacionais, o evangélico era aceitável enquanto permanecesse em três lugares: no templo, na periferia e na nota de rodapé de alguma tese universitária. Podia ser objeto de pesquisa, destinatário de assistência social, número em planilha eleitoral ou personagem pitoresco de uma reportagem sobre costumes populares; o que não podia era tornar-se sujeito, produzir sua própria interpretação da realidade, formar instituições, influenciar debates e disputar legitimamente os rumos da vida comum. Quando servia sopa, recuperava dependentes químicos, visitava presídios ou acolhia famílias destruídas, sua presença era tolerada e até elogiada. Quando passou a falar sobre educação, família, bioética, cultura, economia, eleições e políticas públicas, tornou-se imediatamente uma ameaça ao “Estado laico”. Em outras palavras, o problema nunca foi apenas que o evangélico existisse, mas que deixasse de aceitar o papel socialmente conveniente de objeto observado e passasse a agir como cidadão.

É nesse ponto que uma parcela do progressismo cultural revela os limites de seu próprio discurso sobre diversidade. A diversidade costuma ser celebrada enquanto permanece estética, decorativa e politicamente dócil; aceitam com entusiasmo a identidade que acrescenta cor à fotografia, desde que ela não traga consigo convicções capazes de contrariar o roteiro progressista previamente aprovado. O evangélico produz desconforto justamente porque sua identidade religiosa, quando levada a sério, não se reduz a um adereço privado: ela organiza a compreensão da vida, da dignidade humana, da família, da justiça, do corpo, da liberdade, do certo e do errado. Naturalmente, essas convicções podem ser debatidas, contestadas e criticadas, como acontece com qualquer outra visão de mundo. O que não é democrático é exigir que apenas o cidadão religioso abandone suas premissas mais profundas antes de ingressar na esfera pública, enquanto o progressista, o liberal, o marxista ou o secularista podem participar dela carregando integralmente suas próprias crenças.

A laicidade constitucional brasileira nunca significou a secularização compulsória dos cidadãos. O Estado é laico, mas o jogador, o eleitor, o professor, o médico, o jornalista e o parlamentar não são obrigados a sê-lo (aliás, isso é crime!). Um atleta não deixa sua consciência no vestiário quando entra em campo, assim como um deputado não precisa abandonar sua fé na porta do Congresso ou um professor, na entrada da universidade. A oração realizada antes de uma partida não transforma a CBF em igreja; o jogador ajoelhado depois do apito final não estabelece uma teocracia no gramado; uma declaração pública de fé não obriga o torcedor a compartilhá-la. A laicidade colaborativa brasileira pressupõe separação entre as ordens política e religiosa, mas também liberdade, benevolência, colaboração e igual consideração com todas as crenças, precisamente porque a finalidade da separação não é tornar a religião invisível, e sim impedir que o Estado a capture, favoreça uma confissão ou impeça o livre florescimento das demais.

Não é necessário equiparar histórias distintas de sofrimento e discriminação para perceber o vício contido no argumento. Basta realizar um teste elementar: substituir a palavra “evangélicos” por qualquer outro grupo religioso, racial ou regional e observar o resultado. O Brasil joga pior porque há muitos judeus, muçulmanos, negros ou nordestinos na Seleção? A simples formulação já revelaria preconceito porque atribuir a uma identidade coletiva características como falta de criatividade, incapacidade artística, rigidez emocional ou inferioridade cultural é uma forma clássica de essencialização. Quando o alvo é o evangélico, porém, a mesma operação recebe um verniz acadêmico e passa a circular como interpretação sofisticada da cultura nacional; alguns acham até “bonita” a tal descoberta. O preconceito não adquire método apenas porque aprendeu algumas palavras da sociologia, nem se torna mais inteligente porque foi publicado por alguém que sabe citar Gilberto Freyre.

Se dissessem que o Brasil joga pior porque há muitos judeus, muçulmanos, negros ou nordestinos na Seleção, falariam em preconceito. Quando o alvo é o evangélico, a mesma operação vira interpretação sofisticada da cultura nacional

A caricatura, aliás, não ofende somente os evangélicos; ela também rebaixa os católicos, transformando uma tradição religiosa riquíssima em sinônimo de permissividade, boemia e pecado socialmente charmoso. Em algumas versões da tese, chega-se a romantizar o antigo jogador beberrão, mulherengo e indisciplinado, como se o vício fosse fonte da criatividade brasileira e a sobriedade representasse uma espécie de colonização protestante do corpo nacional. Trata-se de uma inversão moral bastante curiosa: pessoas que normalmente discursam sobre saúde, responsabilidade afetiva e respeito às mulheres passam a tratar o alcoolismo, a promiscuidade e a irresponsabilidade como componentes quase indispensáveis do futebol-arte, desde que isso sirva para ridicularizar o crente. O catolicismo não é uma autorização religiosa para o desregramento, assim como o evangelicalismo não é uma máquina de produzir pessoas sem alegria, cultura ou imaginação. Ambas as tradições são muito maiores, mais plurais e mais profundas do que as fantasias de seus críticos.

Isso não significa que os jogadores evangélicos devam receber alguma imunidade religiosa contra críticas. Não devem. A fé não substitui treinamento, oração não corrige posicionamento defensivo e nenhum versículo faz a bola entrar depois de um chute mal executado. Também é legítimo questionar declarações teologicamente pobres, especialmente quando a expressão “plano de Deus” é utilizada como resposta automática, incapaz de distinguir a soberania divina da responsabilidade humana. Um atleta pode confiar em Deus e, ao mesmo tempo, reconhecer que jogou mal; pode agradecer pelo dom recebido e admitir que não se preparou adequadamente; pode orar antes da partida sem converter a Providência em explicação simplista para cada lance. Igrejas e líderes também precisam resistir à tentação de transformar jogadores famosos em troféus e plataformas de propaganda religiosa. Defender os evangélicos contra o preconceito não exige santificar seus erros, mas apenas conservar uma distinção moral e intelectual elementar: uma coisa é criticar o comportamento, a declaração ou a teologia de determinada pessoa; outra é transformar sua identidade religiosa em causa coletiva da decadência nacional.

A crescente influência evangélica na esfera pública brasileira produzirá tensões, acertos e erros, como acontece com todo grupo que participa ativamente da democracia. Evangélicos não são donos do Brasil, não constituem um bloco homogêneo, não estão sempre certos e não possuem direito especial de impor suas convicções aos demais; entretanto, também não precisam pedir autorização às antigas elites culturais para existir publicamente. Participar não é dominar, influenciar não é estabelecer uma teocracia e votar de acordo com a própria consciência não viola a laicidade. O verdadeiro pluralismo começa quando reconhecemos ao outro não apenas o direito de ocupar a praça pública como figura decorativa, mas a liberdade de falar a partir de convicções das quais discordamos profundamente. Uma democracia que aceita o religioso apenas quando ele silencia sua religião não é pluralista; é apenas um secularismo hegemônico que aprendeu a falar a linguagem da tolerância.

O Brasil voltará a ganhar uma Copa quando organizar melhor seu futebol, formar melhores jogadores, recuperar uma identidade esportiva, administrar competentemente suas instituições e superar seus adversários dentro das quatro linhas. A futura seleção campeã poderá ter evangélicos, católicos, espíritas, adeptos de religiões de matriz africana, pessoas sem religião ou, como é próprio da realidade brasileira, uma mistura de tudo isso. A bola não pede certificado de batismo antes de entrar no gol. O episódio, contudo, deixou uma lição que ultrapassa o esporte: o evangélico brasileiro saiu da periferia estatística, deixou a nota de rodapé e entrou no centro do campo, e o verdadeiro teste de pluralismo consiste em aceitar que ele permaneça ali como cidadão pleno, com o mesmo direito de crer, falar, discordar, influenciar e, naturalmente, também errar. A bola não exige certificado religioso; a democracia tampouco deveria exigir certificado de secularização.

Por fim, quem realmente quiser compreender esse fenômeno, em vez de repetir bobagens nas redes sociais e projetar sobre milhões de brasileiros as próprias neuroses ideológicas, encontrará uma boa oportunidade no documentário O Brasil Evangélico, produzido pela Brasil Paralelo, no qual tivemos a honra de atuar como consultores e também como entrevistados. Sem a pretensão de canonizar os evangélicos ou esconder os problemas existentes em seu meio, a produção faz aquilo que muitos críticos se recusam a fazer: escuta pessoas reais, percorre diferentes tradições, recupera a história do protestantismo brasileiro e apresenta a extraordinária capilaridade social, cultural e política de um movimento que não pode mais ser explicado por meia dúzia de estereótipos.

Antes de culpar a fé dos jogadores pela derrota da Seleção ou reduzir o evangélico a uma caricatura de internet, talvez seja recomendável dedicar algumas horas a conhecê-lo; afinal, discordar depois de conhecer é próprio do debate democrático, mas condenar sem conhecer é apenas preconceito com vocabulário pretensamente sofisticado.

Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

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