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Humor, chistes e cheiros
| Foto: Daniel Nardes/Gazeta do Povo

Com seu próprio espírito, o próprio sotaque e um jeito único de contar histórias e chistes, o humor curitibano não tem sotaque carioca, paulista, baiano, catarina, gaúcho ou mineiro. No Paraná, o anedotário acentua a falsa ingenuidade, o temperamento arredio e tímido da capital mais fria do Brasil.

Dentro deste figurino quase sempre com bordados eslavos, o médico e jornalista João Dedeus Freitas Neto (antigamente os jornalistas eram híbridos) era um dos nossos melhores e mais espirituosos contadores de causos. Foi um dos nossos tipos inesquecíveis que faziam uso das linhas e entrelinhas do humor para estancar o ressentimento, o rancor e a injustiça. Cultor do mais fino humor, Freitas Neto não era daqueles que apelavam ao chiste grosseiro para embrulhar a falta de imaginação com o papel da estupidez.

Saul Steinberg (1914-1999), um dos maiores artistas do século passado, nasceu na Romênia e ganhou o mundo através das capas da revista The New Yorker. No notável pequeno livro ilustrado com alguns de seus desenhos, “Reflexos e sombras”, Steinberg abre as gavetas da nossa memória:

“De vez em quando, certos cheiros que não sinto desde criança retornam, não ao nariz, como um cheiro propriamente dito, mas ao cérebro do nariz; cheiros vagos e precisos ao mesmo tempo: cheiro de outono; de certas lojas; cheiro de começo de inverno, de início do frio: o primeiro fogo em casa, as luzes a partir das cinco da tarde. A estufa de metal, acesa pela primeira vez, tinha um cheiro peculiar, também porque a superfície fora untada para evitar a ferrugem. E sempre o cheiro do lampião de querosene. Gosto muito de sentir de novo esse cheiro, mas não é possível evocá-lo por um esforço de vontade. Mesmo assim, de vez em quando acontece que, de repente, por alguma razão misteriosa, a memória desse cheiro retorna”.

Numa memorável festa em homenagem ao advogado e jornalista Nireu Teixeira, Freitas Neto fez um discurso que entrou para os anais do humor curitibano.

Curitiba – começou Freitas Neto – tem muitos cheiros, Nireu Teixeira. Tem o cheiro da Confeitaria das Famílias; tem o cheiro das empadinhas do Caruso; tem o cheiro dos ipês da Praça Tiradentes; tem o cheiro do cafezinho da Boca Maldita; tem o cheiro de chope na vizinhança da fábrica da Brahma; tem o cheiro de cachorro-quente na Carlos de Carvalho; tem o cheiro de cebola na Churrascaria do Erwin; tem o cheiro de filé na grelha do Bar Palácio; tem o cheiro de pipoca do Passeio Público; tem o cheiro de pão fresco da Padaria América; e foi em frente Freitas Neto, com o seu apurado olfato de quem conhece a cidade de olhos fechados, para finalizar com maestria:

– Curitiba, Nireu, te cheira!

Em 1961, o jornal O Estado do Paraná resolveu aderir à Campanha da Legalidade, desencadeada por Brizola para garantir a posse de João Goulart na Presidência da República. Secretário de redação, João Dedeus pediu um editorial na primeira página, com uma tarja verde-amarela. José Augusto Ribeiro, que depois brilharia nas principais redações do país, era o jovem e já muito respeitado editorialista do jornal e, apesar de naquele dia combalido por uma crise de hemorroidas, fez questão de escrever o dito editorial. Com o traseiro em chamas, Zé Augusto pediu que pusessem uma máquina sobre o balcão, já que na situação em que estava não era aconselhável se sentar.

Quando suspeitou que o bravo redator estivesse nos finalmente do editorial, Freitas Neto se aproximou e ditou o título do editorial:

“Em pé, pelo Brasil!”

Em respeito a João Dedeus Freitas Netto e José Augusto Ribeiro, Saul Steinberg, Nireu Teixeira e tantos outros que nunca se curvaram perante a estupidez, não vamos cair de bruços, muito menos de quatro. Devemos seguir em pé, pelo Brasil!

E que se danem as hemorroidas!

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