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Não morra antes de morrer
| Foto: Unsplash e Freepik. Imagem: Maryane Vioto Silva/Gazeta do Povo

Nestes dias de tamanha apreensão com a vida, precisamos recordar a lição de vida que a jornalista Lorena Aubrift Klenk ganhou de Flora Munhoz da Rocha, a ex-primeira dama do Paraná que nos deixou há sete anos, em 16 de novembro de 2014, com os seus muito bem vividos 103 anos. Conta Lorena que a viúva de Bento Munhoz da Rocha Netto tinha uns 85 anos e havia acabado de comprar um apartamento no Rio, para passar temporadas, quando a entrevistou: “Fiquei impressionada com a energia da dona Flora, com seu ânimo para fazer planos numa fase da vida em que muitos preferem se acomodar. Ela então contou uma história que ficou pra mim como um ensinamento. Disse que toda manhã, ao acordar, olhava para o espelho e dizia para si mesma: Flora, não morra antes de morrer!”.

Com os seus 103 anos e dotada do espírito de um brotinho, dona Flora parecia ter vivido tanto tempo porque Deus, com toda a sua sensibilidade, fez de conta que não a ouviu na hora da chamada e voltou aos seus outros afazeres. Mais ou menos como aconteceu com o casal Munhoz da Rocha numa das viagens a Nova York. Quem conta é a própria Flora Munhoz da Rocha (a cronista e nossa confreira da Academia Paranaense de Letras) no seu livro “A imagem que ficou”, onde resgata a memória do marido.

“Bento era governador quando recebeu a visita de Nelson Rockefeller. Tornaram-se amigos após haverem sido companheiros de desdita. Parece que nada aproxima mais duas pessoas que enfrentaram juntas o mesmo perigo. Foi o que aconteceu com ambos. Rockefeller, atraído pelo Norte do Paraná, chegou a Curitiba no seu avião. Bento o acompanhou em visita ao Norte do Estado. Entretanto, o piloto americano mal doutrinado ou nada doutrinado e habituado com espaçosos campos de pouso, principiou a aterrissar no meio do campo e o campo acabou. O avião atravessou a cerca de arame farpado e foi aos tropeços, derrubando arbustos até conseguir parar. Felizmente, além da crise de nervos da senhora Rockefeller, tudo não passou de um grande susto. Desse dia em diante, Bento e Rockefeller cultivaram cordial relacionamento e até o fim da sua vida, Bento recebeu dele o tradicional cartão de Natal”.

“Em determinada ocasião, fizemos uma visita aos Estados Unidos. Por aquela época, Rockefeller era governador de Nova York. Quando soube que Bento se encontrava lá, o nosso hotel foi avisado de que o governador iria comparecer em estipulada hora, a fim de apresentar seus cumprimentos ao brasileiro Bento Munhoz da Rocha Netto. Imediatamente fomos comunicados do que fora estabelecido.

Deveríamos esperar no saguão e, no que ele chegasse, seríamos conduzidos ao salão. Obedientemente ficamos sentados aguardando. Subitamente, surgiu um desusado movimento como se algo grave tivesse acontecido. Nós dois ali, apreciando displicentemente, o vaivém de empregados aflitos chamando por mister Nito. Bento comentou: ‘…problema com algum japonês!’. Intrigados com a demora, fomos ao balcão da recepção, saber se havia notícia sobre a visita. Pois tinha acontecido o pior: o tal “mister Nito”, tão solicitado, era o próprio Bento que estava sendo chamado pelo final de seu sobrenome ‘Netto’ e que os americanos pronunciam ‘Nito’. Nelson Rockefeller tinha estado, esperado e deixado o cartão, sentindo não poder abraçá-lo”.

A lição de Dona Flora é para se guardar para o resto da vida: “Não morra antes de morrer!”. E mais, digo eu: se Ele chamar, devemos fazer de conta que é com um tal de mister Nito!

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