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Deltan Dallagnol

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Justiça, política e fé

Religião

Fui massacrado por orar em público: coisa da “extrema-direita”

"Fanático", "moralista" e "religião como estratégia": esquerda ataca Deltan depois de oração no The Send Brasil. (Foto: The Send/Divulgação)

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Fui massacrado com críticas da esquerda por ter orado em público num evento cristão em Curitiba. Duvida? Basta olhar os títulos e o teor de algumas manchetes nada lisonjeiras publicadas pela esquerda nos últimos dias: “Dallagnol cai no ridículo, se atira no chão e viraliza ao pregar contra a corrupção”, “Dallagnol vira pastor fanático e pede que Deus afaste os que praticam o mal — assim como aconteceu com ele”, “Deltan Dallagnol, cassado no TSE, lidera oração no The Send Brasil; direita adota religião como estratégia de mobilização”, “O demônio estava à solta em Curitiba” e “Deltan Dallagnol se apresenta como ‘pastor moralista’ nas redes”. Essas são apenas algumas.

Como cristão evangélico batista, oro há muito tempo pelo meu país, em privado e em público: na minha casa, no trabalho, na igreja, em acampamentos, em empresas e em órgãos públicos. A minha fé faz parte da minha vida e se expressa nas suas várias dimensões — como marido, pai, filho, amigo, advogado, jornalista, influenciador digital e… político. Sou uma pessoa só, e a minha fé impacta minha visão de mundo e tudo que faço. Ela me fez ingressar no Ministério Público para servir às pessoas, em amor ao próximo, e depois dar um passo de fé para a política com o mesmo objetivo. O que, então, aconteceu?

Minha oração ocorreu durante o The Send, evento evangélico internacional realizado no último sábado (31) em cinco grandes cidades brasileiras. Em Curitiba, o The Send reuniu cerca de 50 mil pessoas e lotou a Arena da Baixada — um dos principais estádios da cidade — em 12 horas ininterruptas de pregação e louvores conduzidos por alguns dos mais preparados pastores, bandas e músicos evangélicos do país. Foi lindo: eu nunca havia visto tantos jovens reunidos para adorar a Jesus de corpo e alma, em um só lugar. No total, mais de 300 mil pessoas participaram do The Send em todo o Brasil, buscando avivamento espiritual para tornar realidade a vocação missionária que Jesus nos confiou na Bíblia.

Sou uma pessoa só, e a minha fé impacta minha visão de mundo e tudo que faço

Para a esquerda, no entanto, orar em público, em um evento cristão, não é apenas errado: é quase um crime. E se você, além de cristão, for alguém que atua na política ou na causa anticorrupção, então orar em público se torna um pecado imperdoável — tão imperdoável que a esquerda se sente autorizada a te xingar de tudo: demônio, fanático, moralista, picareta, fascista, extrema-direita. Foi a esse ponto que chegamos no Brasil: um nível de intolerância religiosa tão alto em certos setores da esquerda progressista que qualquer manifestação pública da fé cristã passa a ser tratada como desvio moral.

Minha situação é ainda mais curiosa porque eu não sou agente público. Não exerço cargo público algum, eletivo ou não. Sou um cidadão como qualquer outro brasileiro, que também é cristão e que vive a sua fé como milhões de pessoas vivem: indo à igreja, participando de eventos e retiros, e compartilhando isso, quando quer, nas redes sociais. Não cabe à esquerda — nem a ninguém — dizer o que um cristão pode ou não fazer, pode ou não dizer ou pelo que pode ou não orar. É autoritário querer confinar a fé ao privado. Mas foi tudo isso que tentaram fazer comigo.

E há um detalhe revelador: essa intolerância é seletiva. A esquerda só faz isso com cristãos — nunca com outras religiões. Quer um exemplo? Recentemente, viralizou no X (ex-Twitter) um vídeo com a seguinte legenda: “A MACUMBA INTEIRA ESTÁ UNIDA PARA QUE OS ASSASSINOS DO ORELHA PAGUEM!!!”. No vídeo, um rapaz, cercado de velas, cachaça, cachimbos e outros elementos, conduz um ritual de religião de matriz africana, aparentemente amaldiçoando os adolescentes acusados de torturar e matar o cachorro Orelha, vítima de maus-tratos em Santa Catarina. Qual foi a reação da esquerda a esse ritual religioso feito em espaço público, com forte carga simbólica e emocional? Absolutamente nenhuma.

Mas, quando eu dobro os joelhos em oração, em um evento cristão, dentro de um estádio lotado de cristãos, pedindo que Deus “afaste dos cargos aqueles que praticam corrupção, abusam do poder e cometem injustiças”, a esquerda se sente no direito de destilar o mais puro discurso de ódio e a mais explícita intolerância religiosa. Deve ser um ódio e uma intolerância “do bem”, porque, se os sinais ideológicos estivessem trocados, certamente o Ministério Público (MP) agiria com rapidez. Ou alguém já esqueceu do pedido de indenização superior a R$ 2 milhões movido pelo MP da Bahia contra Claudia Leitte por trocar “Iemanjá” (orixá do Candomblé e Umbanda) por “Yeshua” (Jesus, em hebraico) em uma música?

As críticas revelam três coisas. Primeiro, ignorância: pedir a Deus por um Brasil ou por uma política melhor, num evento gospel, não viola a laicidade do Estado, ainda que a oração seja feita por um político. A laicidade, prevista na Constituição, não se confunde com ateísmo estatal. O Estado não deve perseguir nem privilegiar nenhuma religião; deve conviver e cooperar com todas em prol do bem-estar social. Basta lembrar, por exemplo, as imunidades tributárias concedidas às igrejas, justamente porque se reconhece o papel delas na formação moral, no fortalecimento de vínculos familiares e na promoção de ações sociais, filantrópicas e de caridade.

Segundo, as críticas revelam burrice. A esquerda parece não saber — ou querer esquecer — que o próprio conceito de laicidade do Estado nasce da Reforma Protestante, que buscava liberdade religiosa diante de Estados que impunham suas religiões, muitas vezes por meios violentos. A laicidade caminha de mãos dadas com a liberdade religiosa. A perseguição não pode ser feita pelo Estado nem em nome de uma religião, nem em nome de um ateísmo ou secularismo. Ou seja, a laicidade que a esquerda hoje invoca de forma seletiva ou deturpada contra cristãos é, ironicamente, um legado histórico dos evangélicos que ela tanto despreza.

Por fim, as críticas revelam arrogância. Ao atacar cristãos por professarem sua fé em público, a esquerda aliena, ofende e exclui 84% da população brasileira — cerca de 168 milhões de pessoas que se declaram cristãs, segundo o último Censo do IBGE. Pior ainda: a esquerda nega a essas pessoas direitos humanos que alardeia defender — pelo menos em favor de criminosos. Orar, em privado ou em público, é exercício da liberdade religiosa e de expressão, direitos fundamentais de todos. Recentemente, pretendeu-se restringir o direito dos alunos de orar em intervalos escolares. Agora querem restringir o direito dos evangélicos, políticos ou não, de orarem pelo país em seus eventos?

Ao xingar cristãos que oram em público, rotulando-os como “extrema-direita”, a esquerda revela seu autoritarismo, sua intolerância religiosa e dá um tiro no pé impossível de consertar. Religião também é pertencimento. E a mensagem que a esquerda envia aos cristãos é clara: “Nós odiamos vocês, não os entendemos, não os toleramos e não os queremos por perto”. Os cristãos ouvem isso. Compreendem perfeitamente. Quem parece não entender nada é a própria esquerda, que, eleição após eleição, segue dizendo que não compreendeu por que perdeu — e continua perdendo — o voto evangélico.

Por que será, né?

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