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Deltan Dallagnol

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Justiça, política e fé

Contratos milionários

Ministros do Supremo e seus parentes gostam muito de dinheiro

Gilmar Mendes, um dos ministros do STF que mais agiram contra a Operação Lava Jato. (Foto: Victor Piemonte/STF)

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No dia 16 de abril de 2024, o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), concedeu uma entrevista ao Jornal Gente, da Rádio Bandeirantes, na qual fez o seguinte comentário a respeito da operação Lava Jato: “Os combatentes da corrupção no Brasil gostam muito de dinheiro”. Qual foi a razão? Um acordo para recuperar valores para os cofres públicos, em que os integrantes da Lava Jato não receberam e não receberiam um centavo sequer.

Contudo, o acordo serviu de pretexto para Gilmar atacar a reputação da Lava Jato e seus integrantes, em sua cruzada contra quem combatia a corrupção. Gilmar já havia dito algo parecido antes e, desde então, não se cansou de repetir a mesma expressão mundo afora, em entrevistas e participações em convescotes chiques no exterior. Será que Gilmar agiu de boa-fé, ainda que equivocado? Será que havia algum princípio ou valor que ele queria defender?

Pois bem: nesta semana, o portal Metrópoles revelou que o escritório de advocacia do ex-ministro do STF e ex-ministro da Justiça de Lula, Ricardo Lewandowski, recebeu um total de R$ 6,25 milhões do Banco Master, por meio de pagamentos mensais de R$ 250 mil. O contrato seria, supostamente, para a prestação de serviços de consultoria — embora ninguém saiba, efetivamente, quais serviços teriam sido prestados. Já achou isso um escândalo? Calma, que piora.

Mesmo após a saída de Lewandowski do escritório para assumir um cargo no governo, o contrato foi mantido e, nos dois anos seguintes, os pagamentos feitos aos filhos de Lewandowski somaram mais de R$ 5 milhões. Isso aconteceu durante o período em que Lewandowski era ministro da Justiça e chefe da Polícia Federal (PF) — a mesma corporação que passou a investigar as fraudes bilionárias de Daniel Vorcaro e do Banco Master. É, quase literalmente, o investigado pagando o investigador.

É fácil imaginar a conversa durante o jantar na casa de Lewandowski no dia em que Malu Gaspar revelou, no jornal O Globo, que o contrato de Viviane Barci, esposa do ministro Alexandre de Moraes, com o Banco Master, previa pagamentos mensais de R$ 3,6 milhões, totalizando quase R$ 130 milhões em três anos. A família Lewandowski deve ter ficado horrorizada, mas pelas razões erradas. Afinal, percebeu que o valor do contrato dos parentes do coleguinha era mais de dez vezes maior do que o seu próprio. Como se diz na internet: problema de gente rica.

Mas vamos repetir a parte mais escandalosa da notícia, para não perdermos o essencial de vista: o Banco Master, investigado por uma das maiores fraudes bancárias da história recente — com prejuízos bilionários e impacto direto sobre milhares de investidores e sobre o Fundo Garantidor de Créditos —, pagava, mês a mês, cifras que alcançavam milhões de reais à família do ministro da Justiça, que era o chefe da polícia que investigava o Master.

A família Lewandowski deve ter ficado horrorizada, mas pelas razões erradas. Afinal, percebeu que o valor do contrato dos parentes do coleguinha era mais de dez vezes maior do que o seu próprio

Não há malabarismo retórico capaz de normalizar isso. É uma questão de ética pública elementar. É aceitável que filhos do ministro da Justiça recebam R$ 250 mil por mês de uma empresa investigada pela estrutura que o próprio pai comanda? Em qualquer democracia séria, isso seria motivo para afastamento imediato e apuração rigorosa. Para a sorte de Lewandowski, ele deixou o Ministério antes que essa bomba estourasse em seu colo — ou talvez tenha saído justamente por saber que a história vazaria para a imprensa.

Façamos um exercício simples de imaginação. Se a imprensa tivesse revelado que a esposa de Sergio Moro recebeu valores semelhantes da Odebrecht enquanto ele conduzia a Lava Jato, o país teria parado. Editorial após editorial falaria em escândalo, conflito de interesses e corrupção sistêmica. Gilmar Mendes — aí com razão — falaria que os agentes da Lava Jato “gostam muito de dinheiro”. Nada disso aconteceu na Lava Jato, mas acontece algo do gênero agora. Gilmar está em silêncio.

As datas não deixam margem para dúvida. O contrato começou em 2023 e se estendeu até 2025. Nesse período, o Banco Master já estava no radar das autoridades. Não foi, portanto, um vínculo remoto ou encerrado antes da posse: foi um fluxo contínuo de dinheiro enquanto a máquina estatal investigava o pagador. Se isso não acende todos os alertas institucionais, nada mais acende.

Esse episódio também desmonta, peça por peça, o discurso moralista que a banda podre do STF — e todos sabem quem é — construiu nos últimos anos. Ministros que posam como guardiões da democracia, da ética e das instituições aparecem, direta ou indiretamente, cercados por contratos milionários, relações nebulosas e blindagens corporativas. A distância entre o discurso público e a prática privada nunca foi tão evidente.

Não é coincidência que, diante dessas revelações, a reação predominante seja o silêncio ou a tentativa de relativização. O mesmo sistema que se mobiliza com rapidez fulminante contra adversários políticos fecha-se, protege-se e se justifica quando os fatos atingem seus próprios integrantes. A régua moral muda conforme o alvo. Ou talvez nunca tenha havido uma régua moral. De todo modo, a narrativa muda conforme o alvo.

O contraste torna-se ainda mais gritante quando se lembra do tom adotado pelo ministro Gilmar Mendes em ataques públicos a procuradores e juízes da Lava Jato, sempre insinuando interesses financeiros, ambições pessoais e desvios inexistentes.

Gilmar chegou a zombar da espiritualidade alheia e da solidariedade de cidadãos indignados: depois que fui condenado injustamente a indenizar Lula em mais de R$ 146 mil pelo episódio do PowerPoint, recebi espontaneamente — sem pedir — mais de 11 mil PIX de pessoas de todo o Brasil. Eu me comprometi a doar todo excedente à indenização. De toda forma, Gilmar Mendes, em entrevista a um blog de extrema esquerda, disse que aquilo era “a espiritualidade do dinheiro” e que eu já podia “fundar uma igreja”.

Por acaso o ministro tem algo a dizer sobre os mais de R$ 6 milhões que o escritório de Lewandowski e seus filhos receberam do Banco Master, inclusive durante as investigações, quando Lewandowski era ministro da Justiça e chefe da PF que investigava Vorcaro? Gilmar Mendes tem algo a dizer sobre o contrato de R$ 129 milhões da esposa de Moraes com o mesmo banco? Gilmar Mendes vai se pronunciar sobre o escândalo envolvendo Dias Toffoli, possível dono oculto de um resort multimilionário, que envolveu transações suspeitas com o próprio Master e a J&F?

Pelo visto, quem gosta muito de dinheiro são os autoproclamados defensores da democracia e seus parentes.

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