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Deltan Dallagnol

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Justiça, política e fé

"Sangue nos olhos"

Moraes usa Estado para se vingar e ministros entram na mira 

Alexandre de Moraes foi atrás de informações potencialmente sensíveis de outros ministros da Corte. (Foto: Antonio Augusto/STF)

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O Supremo Tribunal Federal (STF) vive um momento inédito em sua história: ministros estão indo à imprensa dizer que têm medo de Alexandre de Moraes. Não medo no sentido reverencial do termo, como alguém que teme uma figura de autoridade, mas medo no sentido de uma vítima que teme o criminoso. O medo, aqui, é o de que Moraes esteja usando o aparato do Estado para montar dossiês e operar grampos contra os próprios colegas.

E mais: aliados de Moraes confirmam publicamente que o ministro está com “sangue nos olhos” para se vingar de quem revelou o contrato de R$ 129 milhões de sua esposa com o Banco Master. Um dos ministros temerosos disse a Lauro Jardim, no jornal O Globo, que “o Supremo está desarrumado”. O clima no tribunal, segundo ministros ouvidos pelo jornalista, é péssimo. Ninguém mais confia em ninguém.

A razão do medo é simples: Moraes pediu à Receita Federal o rastreamento de dados fiscais de cerca de 100 pessoas, incluindo ministros do STF e seus familiares. E agora seus colegas se perguntam publicamente: ele quer montar dossiês contra nós? Um ministro disse ao Metrópoles, sob condição de anonimato: “Alguns colegas com quem falei não foram avisados dessa diligência ilícita. Não creio que ninguém tenha receio, mas essa diligência no bojo do inquérito das fake news é um absurdo. O que ele quer com isso? Só falta ele estar grampeando os ministros do STF.”

A suspeita é grave e tem fundamento. Quem tem acesso a dados fiscais — como declarações de Imposto de Renda, movimentações financeiras e patrimônio completo de uma família — tem poder sobre essa pessoa, especialmente se houver algo que ela prefira manter em sigilo. Moraes pediu esses dados de todos os ministros do STF e de todas as suas famílias. Cem pessoas: pais, filhos, irmãos, cônjuges. Isso não é uma investigação criminal; é mapeamento de vulnerabilidades.

O escândalo do Master colocou Moraes e Toffoli na berlinda, e a mensagem que Moraes está mandando é esta: “Tenho informações suas... se eu cair, não caio sozinho.” E o pior: seus próprios aliados confirmam que o objetivo de Moraes é vingança. Um influente ministro do Supremo, próximo a Moraes, disse ao Metrópoles que o magistrado “vai para cima” de quem organizou o que ele considera uma “pancadaria” contra a Corte: “Ele vai para cima de quem organizou esta pancadaria no STF — banqueiros, imprensa, Executivo.”

Um juiz não eleito está usando o inquérito das fake news, aberto em 2019 e instrumentalizado como ferramenta de blindagem institucional, para declarar guerra a banqueiros, à imprensa e ao Poder Executivo, porque alguém teve a ousadia de expor o contrato milionário de sua esposa com o Banco Master. Não há precedente para isso em democracias funcionais. Em nenhum país sério do mundo um magistrado com “sangue nos olhos” usa o aparato estatal para se vingar de quem revelou negócios da própria família.

O escândalo do Master colocou Moraes e Toffoli na berlinda, e a mensagem que Moraes está mandando é esta: “Tenho informações suas... se eu cair, não caio sozinho.”

Além da devassa na Receita, Moraes também ordenou a deflagração de operação da Polícia Federal (PF), em que determinou tornozeleira eletrônica, cancelamento de passaporte e afastamento do cargo contra quatro servidores da Receita em três estados. Quebrou o sigilo bancário e fiscal desses servidores — tudo para descobrir quem pagou, quem organizou, quem está por trás e ir para cima deles. Qualquer semelhança com a paranoia de um Stálin durante seus últimos dias como chefe supremo da União Soviética não é coincidência.

E a grande imprensa, que em grande parte viveu os últimos sete anos passando pano para os abusos de Moraes quando o alvo era Bolsonaro e a direita, agora está na mira. Malu Gaspar, uma exceção entre os jornalistas passadores de pano do Supremo, é um dos alvos: foi ela quem revelou o contrato milionário de dona Viviane. Lauro Jardim, que expôs o aumento patrimonial de 200% dela, é outro. E também Andreza Matais e André Shalders, do Metrópoles, que documentaram a amizade íntima entre Moraes e Daniel Vorcaro, incluindo visitas à mansão do banqueiro em Brasília para fumar charutos e tomar vinhos e uísques importados.

Além da imprensa, banqueiros: algumas matérias contam que Moraes tem certeza de que um dos vazadores de informações comprometedoras sobre ele e Daniel Vorcaro é André Esteves, dono do BTG Pactual. Há também o Executivo, que, para Moraes, teria sido leniente com as ações da Receita e de parte da PF, que investiga com afinco o Banco Master. Todos na lista de alvos de um ministro que transformou o STF em quartel-general de uma operação de retaliação.

E o mais assustador: alguns ministros do Supremo, que deveriam defender a Constituição, estão defendendo o “direito” de Moraes se vingar. Só que essa vingança, agora, pode atingir os próprios ministros.

O STF passou décadas se blindando, agindo em bloco, protegendo uns aos outros. Agora, com o caso Master atingindo Toffoli e Moraes simultaneamente, com ministros acusando Moraes de ilegalidades e suspeitando que ele pode estar montando dossiês contra os próprios colegas, o tribunal está implodindo. Uma instituição dividida é uma instituição fraca. Vulnerável. Exposta.

O que Moraes faz não é justiça. É autoritarismo. É um juiz usando o poder do Estado para proteger a própria família do escrutínio público. É um juiz tendo acesso a informações dos colegas e familiares e, com isso, garantindo sua blindagem. E, se tudo isso não for barrado agora, qualquer um que questionar o poder de Moraes virará alvo da mesma máquina de perseguição.

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