Como você se sentiu com essa matéria?

  • Carregando...
Na imagem, uma scooter estacionando na frente de um prédio antiga.
| Foto: Bigstock

Escrevo esse artigo em solo milanês, onde estou para participar novamente do maior movimento mundial do design: o Salão do Móvel de Milão, o qual será motivo de um novo artigo para a Pinó em algumas semanas.

Porém, o mote sobre o que escrevo hoje não tangibiliza diretamente o tema design. Mas sim o lifestyle, a tendência do compartilhamento. Essa tendência que nos faz acreditar em um mundo melhor.

Eu, por exemplo, escrevo esse artigo olhando o Duomo, um edifício histórico. Sou associado de uma empresa global de compartilhamento de escritórios. Aprendi com a pandemia que a vida pode ser mais nômade. Dessa forma, posso escrever e trabalhar com toda a infraestrutura necessária.

Por aqui, retorno para minha casa (ao menos por esses 30 dias que por aqui permaneço) cada dia com um carro (ou scooter). Por aqui, há diversos serviços de compartilhamento de carros de todos os tipos e tamanhos. É só se associar, olhar no mapa do app a unidade mais próxima, aproximar seu celular e inserir seu código pessoal e voilá.

Intercalo no decorrer do dia me deleitar com as paisagens italianas em uma tradicional scooter ou por meio de diversos minicarros. Vale lembrar que é possível estacionar em qualquer ponto milanês com as máquinas compartilhadas. Minha casa é fruto de compartilhamento via app.

O futuro da boa sustentabilidade é permeado necessariamente com o compartilhamento. Algo não tão simples de entender (e se curvar) para os membros da velha guarda com valores de outrora. Já as gerações dos millenials em diante têm o compartilhamento em seu âmago. Já faz parte do viver da nova geração (que bom!).

O planeta e as galáxias têm seus exemplos do quão necessário é compartilhar. Por meio de sua mecânica celeste eles mantêm-se em equilíbrio pela coordenação das diferentes forças gravitacionais. Um atraindo o outro, um campo magnético de mútua atração que mantêm a todos em perfeito equilíbrio. Conhecimento recente obtido em uma aula de filosofia que assisti. Achei lindo e filosófico.

O mesmo ocorre nas florestas. As árvores compartilham nutrientes uma com as outras através de uma matrix natureba. A grande rede formada por suas raízes de forma subterrânea lhes dá maior chance de sobrevivência.

Na filosofia, Heidegger já refletiu sobre isso com o conceito do Dasein. Tal pensamento reflete que o homem não se mostra como um sujeito individualizado. Ao contrário, perde-se na impessoalidade do mundo compartilhado com os outros e lidando com o que está ao seu redor de modo prático. Complicado? Nem tanto, tendo em vista que ações práticas que embasam tais pensamentos estão expressas nos parágrafos anteriores.

Outro bom exemplo foi estudado pelo filósofo Victor Papanek sobre o tema design e está registrado no livro Design & Natureza (Design for a real world). Ele conta que, em uma pequena cidade da Flórida, cada família possuía, em média, um cortador de grama. Ele refletiu: não seria melhor e mais sustentável que cada bairro tivesse um centro (como uma biblioteca) que disponibilizasse algumas unidades para sua população local? Não seria melhor para todos e para todo o planeta? Visionário, o designer chegou a ser ridicularizado por seus pares.

No entanto, fica aqui o questionamento. Terá se materializado o conceito levantado por Papanek 50 anos atrás? O planeta vem nos dando sinais de que está exaurido pelo excesso de produção industrial, descartes irresponsáveis e poluição. A receita mais eficaz talvez seja compartilhar, consumindo menos, para sobrevivermos.

Deixe sua opinião
Use este espaço apenas para a comunicação de erros
Máximo de 700 caracteres [0]