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Design como política pública
| Foto: Reprodução

Há um tempo estive, a convite do governo da Coréia do Sul, em Seoul para ministrar a palestra “Design & Alma”. Por lá o design é um dos pilares da política pública, o que muito auxiliou na transformação do cenário do país. Para se ter uma ideia da situação, o país aparecia no ranking global bem abaixo do Brasil, cuja renda anual era o dobro dos coreanos.

Nos anos 1980 iniciou-se um processo de investimento em tecnologia e design que revolucionou a história do país. Um bom exemplo são os carros da Hyundai, que dificilmente seriam motivo de escolha nos anos 1980 e 1990 que não pelo preço. Tudo mudou a partir dos anos 2000 com investimento na qualidade e, sobretudo, no design, que colocou os automóveis Hyundai entre os mais desejáveis do mundo.

Há poucas semanas fui convidado para visitar a exposição “Anees 80: Mode, Design et Graphisme em France”, no Museu de Arte Decorativas, em Paris. A exposição narra os furtivos anos 1980, nos quais o país, comandando pelo premier francês François Mitterand, estabeleceu como diretriz de seu governo o investimento na cultura, na construção arquitetônica, no design de mobiliário e gráfico. Nesse período foram construídos ícones da arquitetura francesa, como o Museu d`Orsay, o Parc La Villete, o Instituto do Mundo Árabe, o Arc de la Defense e a Pirâmide do Louvre. Nesse período, criativos geniais surgiram para o mundo, como o designer Philippe Starck, contratado para assinar mobiliários de algumas das edificações públicas que surgiam.

Durante esse período, no qual o budget de investimentos para a cultura foi dobrado, eventos ocorreram na cidade, como o Grand Prix Nacional da Poesia (1981), a festa da Música (1982), a Festa do Cinema (1985) e, no entorno deles, surgiram revistas, lojas e galerias, trazendo o melhor da arte e do design internacional. Até a comunicação visual pública recebeu especial atenção. E a França, que historicamente já tinha grande peso na arquitetura, cultura e artes, recebeu um novo impulso que revolucionou suas formas de expressão.

No Brasil, o investimento em cultura é sempre visto sob o viés do assistencialismo e conta, consequentemente, com valores míseros se considerarmos o percentual em relação ao PIB. Muito se fala sobre a desindustrialização do país. A grande verdade é que produção industrial sem design, no atual cenário de um mercado cada vez mais global, tende por si só a ser reduzida. E quando consideramos o Custo Brasil, o design faz-se ainda mais necessário.

Fico imaginando se tivéssemos a valorização da cultura e da identidade brasileira aliada à grande produção industrial. Tal fato poderia inserir o Brasil no mapa dos grandes representantes mundiais da boa produção industrial. Se quiséssemos trazer um valor ainda maior, aliando o design e a produção sustentável e tecnológica, fatalmente nos tornaríamos um grande player mundial.

Uma das maiores tendências da sociedade atual é a consciência sobre os valores socioambientais. Já comentei por aqui como se faz presente o tema sustentabilidade nas vitrines comerciais de grandes cidades como Milão e Roma. Como são produzidos aqueles óculos de plástico? Os fios da calça jeans? Tudo está ali, explicado em cada vitrine, de forma didática, transformando-se cada vez mais num valor substantivo de um mercado consciente.

A Amazônia tem ainda 70% de suas espécies desconhecidas. Hoje, já seria possível a fabricação de um automóvel com 40% de suas partes sendo produzidas com matérias-primas sustentáveis amazônicas. Pneu, revestimentos internos, bancos já são produzidos com viés sustentável a fim de atender as grandes montadoras mundiais: Mercedes Benz, Volkswagen, Fiat.

O mundo privado já se atentou para a necessidade do valor design em sua produção frente à competitividade necessária do mercado. Se vivemos até hoje no tempo no qual a receita para o sucesso era um bom produto com bom preço, passamos hoje para um novo momento, no qual o design e a emoção são as melhores moedas frente a um necessário processo de internacionalização.

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