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pesquisAção
A Alpina Chair, da Magis, feita a partir de óleo de cozinha.| Foto: Divulgação

Minha trajetória no design tem 22 anos e foi construída entre Brasil e Itália. Num processo antropofágico, sempre levando adiante minhas raízes brasileiras, porém aprendendo como se desenvolveu a força do design Made in Italy, referência número um no tema. Por lá, uma constante entre dicas e testemunhos de grandes mestres que tive o prazer de conhecer foi a palavra ricerca, pesquisa em português. É inegável o desenvolvimento do design no Brasil nos últimos anos. Porém, acredito que a temática da pesquisAção esteja ainda engatinhando no ambiente do design e da indústria moveleira. Nossas tipologias produtivas permanecem focadas na madeira e processo manuais. Perfeito manter tais tradições, mas é preciso ir além.

Uma das mais impactantes histórias do design foi o caso da B&C, nome original da indústria italiana B&B. O empresário Piero Busnelli queria desenvolver novas possibilidades produtivas e, para tal, foi visitar uma feira automotiva na qual encontrou uma tecnologia inédita utilizada pela Bayer: a injeção de poliuretano, então destinada ao uso exclusivo de produção de bancos para automóveis.

Ali, fechou um contrato de exclusividade que não somente tornaria a sua uma das maiores indústrias produtoras de sofá do mundo, como revolucionaria para sempre a história do design.

Outro momento deu-se nos anos 2000, quando o empresário Claudio Luti, proprietário Kartell, investiu em desenvolvimento e pesquisa transformando o plástico, até então opaco e standard, no maravilhoso acabamento de policarbonato que conhecemos hoje. Na sequência, contratou Philippe Starck, que desenvolveu uma das peças mais vendidas da história de alto design, a Cadeira Ghost. Uma união perfeita, bem embasada na frase do italiano Vico Magistretti: “O design é como o amor. São necessárias duas pessoas apaixonadas: um designer e um industrial.”

Vale ressaltar que tal processo não se restringe a indústrias, mas também ao trabalho solo. Um dos mais importantes nomes do design atual, o holandês Marcel Wanders despontou para o mundo do design ao produzir a cadeira Knot, em 1996. Num processo individual de pesquisa ele enrijeceu a renda manual com o uso de resina.

Outro grande nome do design contemporâneo, Marten Baas, por sua vez, desenvolveu como trabalho de graduação a Smoke Chair, na qual “queimou” peças tradicionais, como a Medalhão, e posteriormente aplicou verniz sobre ela. A peça é, hoje, além de um ícone do design mundial, uma das mais emblemáticas a venda no catálogo da Moooi.

O Brasil, por sua vez,  é um grande terroir de novas matérias-primas. Gosto sempre de citar alguns números relativos à Amazônia. O principal é o fato de que 70% das espécies amazônicas ainda são desconhecidas, e de que é possível fabricar 50% de um automóvel apenas com matéria-prima da região. Imagine, então, aliar a criatividade brasileira a essas fontes de possibilidades?

Acredito que as universidades devam encorajar os profissionais a processos contínuos de pesquisAção e que o governo faça sua parte para que centros de pesquisa sustentável sejam estabelecidos em locais estratégicos.

Em meados de 2010 desenvolvi pesquisas sobre novas possibilidades produtivas na Amazônia. Tais pesquisas acarretaram, por exemplo, na matéria-prima inédita com a qual é produzida minha Cadeira Esqueleto, que utiliza em sua produção resíduo de materiais orgânicos, como sementes de frutos amazônicos. Em função de tal processo, ela pertence ao acervo de novos materiais do Vitra Schadeupot, museu suíço de design.

Sempre digo que a comunidade criativa pode mudar o mundo. Convido essa comunidade brasileira a pesquisar este vasto terroir de possibilidades. Valorizando, sim, o artesanal, mas lembrando que os caminhos que mudaram a história do design transitam entre pesquisAção e novos processos produtivos.

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