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Retratos de Frederick Douglas.
Retratos de Frederick Douglas.| Foto: Reprodução/Bienal de São Paulo

Nos dias atuais tenho refletido sobre a importância da imagem. Acredito que se a escola vanguardista Bauhaus surgisse hoje, o lema “Forma x Função” seria substituído para “Imagem x Função”.

Explico-me: a célebre frase “forma segue a função”, foi proferida pelo arquiteto Louis Sullivan no final do século 19 e, posteriormente, adotada pela Bauhaus. O intuito era uma oposição à tendência do ornamento, em voga na época. Para o design e a arquitetura, a mensagem era clara, uma crítica ao formalismo.

A imagem é o suprassumo dos dias atuais. Com a valorização das mídias sociais, as imagens ganharam uma notória importância, e tal qual antecipava o artista Andy Warhol, todos procuram seus cinco minutos de fama. Vale tudo pelo registro de uma imagem incrível, na busca incessante por likes.

Locais por vezes sem significado são replicados a escala de milhões, por simplesmente ficarem belos nas telas de cada celular. Algumas Instalações e/ou obras de arte parecem serem criadas única e exclusivamente para este propósito, muito alinhadas com o pensamento crítico do filósofo Walter Benjamim (1892-1940), da Escola de Frankfurt. Para a Escola, a indústria cultural (texto de 1947) teria por finalidade produzir bens de cultura como mercadoria e estratégia de controle social.

E, assim, cabe a reflexão, será ainda válida a máxima de que uma imagem vale mais do que dez mil palavras? Pelo que pude observar em duas recentes visitações: a Bienal de Arte de São Paulo e a Bienal de Arquitetura de Veneza, não mais.

Em ambas as exposições, o recado é claro. A imagem deve trazer um significado mais amplo. Na Bienal de Arte de São Paulo, me deparei, por exemplo, com os retratos do abolicionista negro norte-americano Frederik Douglas. Ele utiliza-se de sua imagem (140 fotos tiradas no decorrer de sua vida) como elemento político e transformador.
Filho de uma escrava negra com um homem branco, foi adotado por amigos do fazendeiro, que o ensinaram a ler. Escapou para Nova York, onde gozou de sua liberdade e fluência com as palavras. Tornou-se um dos principais personagens na luta abolicionista americana, sobretudo com uso de sua imagem. E até hoje suas imagens estão vivas, e fazem um convite à reflexão.

Não menos impactante é a Instalação com objetos de arte do Museu Nacional. Traz uma catalogação de pedras que, de alguma maneira, atravessaram o fogo, que chegou a 450°C. Como uma pedra ametista que, exposta ao fogo, transformou-se em citrino. Uma imagem que demonstra a importância da resistência e da transformação.

A Bienal de Veneza também traz reflexões necessárias em seu tema “How will we live together” (Como iremos viver juntos?). Traz também temas como mudança climática, problemas sociais, o despertar pós pandemia global… tudo relacionado ao (bem) viver coletivo.

São instalações que trazem a necessária reflexão no mundo contemporâneo. Como a projetada por Maeid, na qual um braço robótico solda estruturas, que serão totalmente cobertas por fungo até o final da exposição. Por lá, ainda pequenos chips tecnológicos transformam-se em objetos pontiagudos amarrados a uma haste, um novo contexto sobre os utensílios para sobrevivência em caso de um cataclismo mundial.

Num mundo no qual digerimos imagens, de forma tão voraz quanto uma comida de fast food, é necessário trazer a reflexão do papel da imagem, da arte, do design e do que é realmente o belo.

Uma cadeira “feita à mão”, na qual o artesão responsável por sua confecção é mal remunerado e precisa produzir em escalas quase industriais, é uma cadeira bela? Uma poltrona feita com a injeção de policarbonato, que poluirá oceanos e que se utiliza de combustível fóssil em sua confecção, é bela? Uma arquitetura de estética comum, que não valorize o contexto e a cultura local, é bela? Uma obra de arte imersiva e colorida sem embasamento no seu pensar é bela?

Na humilde opinião desde colunista, o papel da arte é absolutamente maior que entretenimento imagético. Não basta mais o “bonitinho, mas ordinário”.

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