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Na foto, Curitiba, um dos exemplos de gestão humanista para o colunista Pedro Franco.
Na foto, Curitiba, um dos exemplos de gestão humanista para o colunista Pedro Franco.| Foto: Rodrigo Cunha/ Arquivo/Tribuna do Paraná

Adoro andar pelas ruas paulistanas observando a paisagem urbana, talvez por ser arquiteto e filho de urbanista. Nos últimos tempos, vem me causando estranheza a verticalização desordenada da cidade. Pequenas casas geminadas dão lugar a grandes edifícios. Quando achava que estávamos livres do “copy and paste” arquitetônico do estilo “brega” neoclássico tardio, começo a me deparar com construções modulares de arquitetura igualmente duvidosa.

A interferência da especulação imobiliária é perceptível (literalmente) a olhos vistos. Primeiramente, os gabaritos com altura devidamente estabelecida pelos planos diretores foram vitimados pelo custo adicional de construção, ou seja, pagando-se, pode-se construir até acima dos limites determinados. Mais recentemente, a interligação dos novos edifícios com a cidade também foi comprometida pela autorização de edifícios sem subsolo, com garagens nos primeiros níveis. O resultado? Grandes paredões urbanos. Fazendo um recuo histórico, é uma contradição aos aprendizados obtidos com os famigerados edifícios garagem, comuns nos anos 1970 e, posteriormente, proibidos.

Me questiono sobre qual pode ser o valor a ser recompensado para a cidade ao gerar tamanho impacto na sua fluidez e diálogo com a população. Pelo bem-estar de poucos, põe-se em xeque o interesse de muitos. Em tempos mais recentes, problemas de alagamentos assolam as cidades, sem dúvidas impactadas pela mudança climática global.

Porém, o que estamos fazendo frente a isso? Não apenas no sentido sustentável, mas arquitetônico? Será que transformar áreas permeáveis em construção não acarreta consequências? Em meus 46 anos vividos na cidade de São Paulo, não havia visto tamanho alagamento pelas ruas de Moema. Outras diversas ruas que passaram pelo mesmo problema também não alagavam no passado. Coincidentemente são situadas em bairro cujo índice de novas construção é altíssimo.

Indo além de São Paulo, o mesmo ocorre em diversas outras regiões do Brasil. Estive há pouco tempo em Balneário Camboriú, cidade que não visitava há ao menos 10 anos. Me assombrei com o que vi. Ali, chegamos ao limite do ponto que a especulação imobiliária pode alcançar. Edifícios com alturas monstruosas à beira-mar. A consequência: investimento público para tentar solucionar o problema gerado. Como o nobre leitor vem acompanhando nos noticiários, uma obra de engenharia faraônica tenta sanar o problema, aterrando parte do mar – solução que vem se mostrando ineficaz. Mês a mês, o município tenta repor a faixa artificial de areia.

Já pudemos observar em outras praias brasileiras que mexer com o equilíbrio da natureza traz consequência; basta observar o que Porto do Suape trouxe como consequência para as praias recifenses. Estive há pouco em Fortaleza e pude observar que o mesmo fenômeno acontece por lá. Na Avenida Beira-mar, inicia-se a construção de arranha-céu nababesco. À parte a agressão ao olhar, trará fatalmente outras consequências.

Voltando a São Paulo, a mesma especulação imobiliária dobra até mesmo bairros tombados, como o Pacaembu. Por lá, o espaço público transforma-se em privado. No início das discussões pré-privatização da administração do estádio, ventilou-se a bela solução de demolir o (infeliz) tobogã retomando a saudosa concha acústica, destinada a shows de outrora. Bastou a aprovação e o repasse para a iniciativa particular para que o projeto ficasse como promessa, e desse lugar à torre de lojas e escritórios comerciais. Ou seja, o público virando privado.

Termino essa coluna nostálgico de Curitiba sob a gestão humanista do arquiteto Jaime Lerner: uma cidade pensada para todos, e na qual planejamento urbano era uma palavra imperativa junto à administração pública. Em São Paulo, um dos poucos projetos urbanísticos, se assim se pode dizer, que pude observar nos últimos tempos foi o fechamento da Avenida Paulista para as pessoas nos finais de semana. O resultado? Imenso sucesso e a herança de uma avenida feita para as pessoas.

Encerro com o desejo (talvez utópico) de que possamos vislumbrar um desenvolvimento urbano mais humano, em detrimento a paisagens panamenhas e miamianas.

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