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semana de arte moderna
O cordel nordestino, elemento da cultura popular, influenciou a criação de uma arte erudita.| Foto: Arquivo Pessoal

É um fato inquestionável a importância Semana de Arte Moderna, que completa 100 anos de sua idealização. Dela derivaram diversos e importantes movimentos, como o Tropicalismo, cinema marginal e tantos outros. Não seria o momento para uma Nova Semana de Arte Moderna?

A etimologia da palavra identidade provém do Latim, de iden (o mesmo) seguido do sufixo dade, indicador de um estado. Ou seja, identificadora daquilo que permanece, de pertencimento. Observo hoje um grande movimento em prol de um resgate de importantes movimentos artísticos e culturais oriundos de diversas regiões e momentos históricos. Estive há pouco em Curitiba, no Museu Oscar Niemeyer (MON), em uma importante exposição de bancos esculpidos e pintados por tribos indígenas do Alto Xingu.

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Exposição dedicada aos 50 anos do Movimento Armorial, criado por Ariano Suassuna nos anos 70, cuja obra prima é o "Auto da Compadecida". | Arquivo Pessoal

A arte indígena vem sendo motivo de pesquisas que venho desenvolvendo (já comentei sobre elas em colunas anteriores). Nela estão expressos milhares de arquétipos ancestrais, que trazem à tona o mais profundo valor estético da expressão indígena através dos grafismos pintados. Remetem à fauna, à flora, à espiritualidade e são uma bela exposição desses que foram os primeiros a ocuparem as terras do país.

Visitei também recentemente, em São Paulo, no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), uma exposição dedicada aos 50 anos do Movimento Armorial, criado por Ariano Suassuna nos anos 1970. Ele procurava criar uma arte erudita a partir de elementos da cultura popular do Nordeste: da música, dança, literatura, arte. Uma obra prima de tal movimento foi a peça "O Auto da Compadecida". Escrita por Suassuna a partir de elementos do tradicional Cordel nordestino, teve as roupas desenhadas por Brennand, e cenários desenhados por Lina Bo Bardi.

Outro ponto interessante é o lindíssimo Alfabeto Nordestino, criado a partir do desenho de ferros de marcar boi.  Aliás, marcar o gado como forma de identificar a propriedade de um animal é ancestral e remonta aos egípcios. O princípio é ressignificado por Suassuna a fim de mostrar uma extrema identificação com sua obra.

E por fim, pude visitar uma outra exposição, dedicada a Bispo do Rosário. O improvável artista (pobre, louco e negro) foi internado em hospital psiquiátrico e dizia aos frades do Mosteiro de São Bento, no Rio de Janeiro, ter vindo para julgar os vivos e os mortos. Isso não sei dizer se o fez, porém conseguiu influenciar uma horda de bons artistas: Clovis Aparecido, Leonilson, Arlindo Oliveira e tantos outros.

Tal feito é descrito pelo curador como efeito Bispo, registrando sua obra não apenas como uma criação, mas sim como criadora. Ele desconstruía tecidos que encontrava no Sanatório reconstruindo-os em obras com mensagens e registros bordados. Transformava o seu entorno em novas e autênticas criações.

Alfabeto Nordestino, criado a partir do desenho de ferros de marcar boi.
Alfabeto Nordestino, criado a partir do desenho de ferros de marcar boi. | Arquivo Pessoal

Por vezes me questiono o porquê de termos, de um lado, tanta aceitação com movimentos populares e, de outro, tanta ojeriza. Gêneros genuínos como Sertanejo, Sertanejo Universitário ou ainda artistas de sucesso mundial, como Anitta e Romero Britto, são amplamente louvados e criticados. Será que estamos prestes a ter uma nova Semana de Arte Moderna, mais inclusiva e gerando uma maior IDENTIFICAÇÃO com a heterogênea população brasileira? Se não o for, não será necessária tal reflexão? Aqui faço um convite aos criativos que lerem esta coluna.

Em aulas de História da Arte nos cursos de Design, Arquitetura, Fotografia, Artes Plástica, acredito que seriam de suma importância a abordagem de tais movimentos/pensamentos. Obviamente que o Regionalismo não é imperativo para uma boa criação. Porém, o conhecimento da história do contexto em que se vive, isso sim é fundamental.

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