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Museu de Arte de São Paulo (Masp).
Museu de Arte de São Paulo (Masp).| Foto: Divulgação

A arte salvará o mundo, bem dizia Dostoiévski! Na coluna passada, realcei que investimentos públicos em cultura e arte trazem grande ganho e desenvolvimento para um país. Descrevi casos como o da França (anos 1980) e da Coreia do Sul (atualmente). Em ambos, tais investimentos são considerados política pública e levam a grandes resultados.

Mesmo assim, no entanto, temos acompanhado, nos últimos anos, um real desprestígio nos investimentos à cultura. Lamentavelmente! Mas a arte, como sempre, sobrevive, pois é líquida e resiliente e se faz sempre presente e necessária a nossa humanidade.

Testemunhei em outras colunas um interessante momento em que diversas exposições de arte ocorreram pelo país, com destaque às exposições no Museu de Arte de São Paulo (Masp).

Faço esta introdução para conduzir à seguinte reflexão: você já parou para pensar sobre o sentido da arte?

Pablo Picasso considerava que uma obra de arte valia pelo tanto de história que carregava; no entanto, num mundo tão liquefeito, onde até o PIB mundial é 70% especulativo, notamos, muitas vezes, numa visão apressada, que algumas não nos fazem sentido, custam muito e seus artistas não necessariamente carregam história consistente. No mundo do instagramável, do “fast food” imagético, nunca foi tão importante saber entender e distinguir o sentido da arte.

Particularmente, acredito que a obra de arte tem sempre um papel de educar, de incomodar, de levar a sociedade a reflexões ou simplesmente de mostrar ao mundo uma nova forma de expressão.

Pode-se pensar a partir da Arte “Polvera” italiana, que em paralelo ao pensamento da Pop Arte, trouxe uma crítica à economia capitalista e à sociedade de consumo. No Brasil, tivemos movimentos igualmente importantes, como a Semana de Arte Moderna e sua antropofagia, que trazia a reflexão de uma transformação do que ocorria na arte mundial, incorporada com nossas raízes locais. Ou ainda o Movimento Armorial, liderado por Ariano Suassuna.

O fato é que entender o mundo da arte é algo paradoxal, intuitivo e complexo. Dado seu papel avant-garde, sempre à frente do tempo, nunca é simples observá-la, ou melhor, compreendê-la. Conhecimento sobre a evolução do artista e consideração de recuo histórico são sempre pontos importantes para que se inicie uma boa reflexão.

No entanto, uma certeza se tem: a importância do papel reflexivo da arte. Ela nos projeta em novas compreensões da realidade e, mais do que isso, antecipa significações que pairam apenas no inconsciente coletivo.

Por essa complexidade de sentidos, a arte requer e solicita o papel da curadoria, que quando bem realizada, nos ajuda a compreender os sentidos ocultos e nem sempre aparentes de uma ou muita arte.

É importante valorizar as exposições de arte que nos ensinam a olhar criticamente e a refletir duplamente perante um momento social. Em um Brasil dividido, com vieses de exclusão das minorias negras e indígenas, surge uma exposição registrando tais fazeres, e conscientizando através da arte.

Nesse momento, o mundo da cultura brasileira está em êxtase, pelo brilhante trabalho desenvolvido pelo curador de artes visuais do Masp (desde 2016), Adriano Pedrosa. Pedrosa foi nomeado como curador de uma das mais importantes e prestigiadas bienais de arte do mundo: la Biennale di Venezia. Será responsável pela 60ª Exposição de Arte Internacional.

Na carta convite foram realçadas como suas qualidades, “o olhar para a arte contemporânea, não para fornecer um catálogo do existente, mas para dar forma às contradições, diálogos e parentescos sem os quais a arte permaneceria um enclave desprovido de seiva vital.”

Comecei esta coluna relembrando a frase de Dostoiévski exatamente porque acredito que a arte traduzida por um olhar curado como o de Pedrosa, sim, salvará o mundo!

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