

Gourevitch: o cara qjue contou a história do massacre de Ruanda.
O genocídio em Ruanda foi um dos maiores crimes contra a humanidade já perpetrados. Em pouco mais de três meses, um povo foi quase aniquilado. Perto de oitocentos mil tutsis e hutus moderados (aqueles que não aceitavam matar os tutsis) foram assassinados. A golpes de facão, porretadas ou com machetes.
Não foi à toa que o massacre passou quase despercebido no Ocidente. Na verdade, não damos, como regra, a mínima para a África. Só lembramos de ver alguma notícia do continente quando há guerra ou uma onda de fome, como a que assola novamente Etiópia, Somália e região.
E mesmo quando há guerra, não queremos saber os detalhes. São “tribos” se matando. E vamos tocar a vida, que isso não tem nada com a gente, certo?
Fiz isso também. E por isso o choque foi tremendo quando li Philip Gourevitch.
Achei o livro numa prateleira da livraria sem nem imaginar o que esperar. Resolvi levar. O nome do livro já dizia qual era seu tom: “Gostaríamos de informá-lo de que amanhã seremos mortos com nossas famílias”…
Dá para imaginar alguém que tenha de escrever essa frase? Pois esse alguém existiu. E com toda a educação do fraseado, esse grupo de refugiados numa igreja pediu socorro. Sabendo que no outro dia o tempo seria invadido. Mas quem daria socorro a eles?
Filmes como “Hotel Ruanda” são importantes por mostrar a situação a mais gente. Mas costumam mostrar o lado positivo dentro da tragédia. O cara do hotel que fez de tudo para salvar quem pôde. Gourevitch, que foi uma das fontes do filme, também conta histórias assim.
Como a das meninas em sala de aula, tutsis e hutus, que se recusaram a ser separadas de acordo com suas “tribos”. Perguntaram quais ali era tutsis. Todas levantaram a mão, mesmo sabendo o que poderia acontecer com elas.
Mas Gourevitch vai mais longe na narração do horror. E, mais, vai muito além na explicação dos motivos do massacre.
Explica, por exemplo, que os habitantes de Ruanda nunca se consideraram um país: sua formação foi imposta pelos europeus.
Explica que eles nunca se viram como tutsis e hutus: que essa divisão foi feita pelos belgas, interessados em dividir para governar.
Explica como os franceses, durante o governo de Miterrand, armaram o país. E como, mesmo durante o massacre, os países ricos, a ONU e todos nós nos omitimos. E deixamos que a coisa progredisse até quase um milhão de mortes.
Gourevitch ainda encerra seu trabalho mostrando como os tutsis se livraram sozinhos da situação. E como a imprensa mundial mostrou os hutus, muitos deles assassinos, em campo de refugiados, como se fossem eles as vítimas.
Um livro daqueles de mudar a sua compreensão do mundo. Um dos melhores e mais importantes que já li.
Serviço: O livro foi publicado no Brasil pela Companhia das Letras, em tradução de José Geraldo Couto. Existe também em versão de bolso.
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