Encontre matérias e conteúdos da Gazeta do Povo

Livro da semana – “O Ano do Pensamento Mágico”

David Shankbone/Wikimedia Commons

A vida se transforma rapidamente.
A vida muda num instante.
Você se senta para jantar, e aquela vida que você conhecia acaba de repente.
A questão da autopiedade.

Joan Didion diz que essas foram as primeiras palavras que ela escreveu depois da morte do marido, John, em 2004. Mais tarde, ela transformaria essas anotações na abertura de um livro de memórias que rodou o mundo.

“O Ano do Pensamento Mágico” fala exatamente sobre isso. Escrito num período de três meses, logo após a morte de John Gregory Dunne, o homem com quem ela tinha compartilhado quase toda a sua vida adulta, virou um best-seller.

Não é difícil entender o porquê da empatia que o público teve com o livro. Em certo sentido, ele fala só sobre temas universais. Amor e morte.

A morte, num primeiro momento, parece quase o tema único do livro. Joan Didion descreve em detalhes como foi a noite em que seu marido morreu, subitamente. A corrida ao hospital, a notícia da morte, depois o enterro…

Além disso, a escritora passou por uma segunda tragédia familiar exatamente no mesmo período. Sua filha, Quintana, teve uma doença grave e acabou morrendo pouco depois da publicação do livro (Didion escreveu outro livro sobre isso, “Blue Nights”, que acaba de sair nos Estados Unidos).

O livro fala muito sobre a morte. Mas mais do ponto de vista de quem fica. De quem tem de encarar o vazio. E imaginar como tudo se passou, como tudo é. Repetidamente. Por muito tempo.

A ideia da repetição, aliás, é central no livro. Ela escreve e reescreve os mesmos trechos porque parece que é isso tudo o que ela podia fazer naquele momento. Viver e reviver aqueles momentos, para tentar explicá-los.

E aí é que entra o tal pensamento mágico. Não jogar fora os sapatos porque, sabe-se lá como, pode ser que o morto volte. E possa precisar deles… Como atos ou pensamentos mágicos poderiam mudar o imutável.

Mas a morte não é o único tema. No fundo, é um livro sobre o amor. A intimidade. A vida a dois. Afinal, John e Joan viveram a vida juntos. Tiveram uma filha juntos. Até que a morte os separou.

e no livro ela se lembra de tudo. De como era o dia a dia deles, dois escritores, pensando juntos em como fazer as coisas. Lendo os mesmos livros. pensando em “como os livros funcionavam”.

Eles escreveram coisas juntos, inclusive: roteiros de cinema, principalmente. E não deve ser fácil, depois de tudo isso, ver a morte pegar alguém de quem se coinhece tanto. Que é tão grande parte de si mesma.

É isso que ela tenta retratar. Não a morte em si. Não a morte do ponto de vista de quem vai. Mas do ponto de vista de quem fica. De quem remói tudo isso infinitamente.

Não a morte em si só. Mas a morte do ponto de vista daquele que ama quem morreu.

Siga o blog no Twitter.

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.