

Edgar Allan Poe: contos de terror e mistério.
Poe é talvez o primeiro grande escritor americano de ficção. Mais do que isso: é um dos grandes nomes da literatura moderna.
Quem diz não sou eu, claro. É Jorge Luis Borges. Segundo ele, é impossível pensar a literatura moderna sem Poe (e sem Walt Whitman, disse ele, mas essa é outra história).
A importância dos contos de Poe não foi reconhecida durante a sua vida. Dá para entender o porquê.
Primeiro, o sujeito não tinha lá um comportamento que favorecesse reconhecer nele um grande intelectual. Vivia bêbado, principalmente depois da morte da mulher. É provável, inclusive, que tenha sido essa a causa de sua morte.
Depois, o que ele escrevia deveria ser muito estranho para a época. Gente emparedada, pessoas que abriam caixões depois de mortas, mistérios policiais envolvendo gorilas…
Poe é mesmo esquisito. Mas, como tempo, o romantismo ganhando força, outros escritores passaram a reconhecer nele um pioneiro.
Foi o caso principalmente dos contos policiais. Os mistérios colocados por ele hoje parecem simples. “A carta roubada”, por exemplo. Todo o conto consiste no furto da carta e na explicação de como o detetive a encontrou.
Se for pensar nas idas e vindas ultracomplicadas de qualquer novela policial de hoje, parece tolo demais. Mas, na época, era todo um novo ramo de literatura que surgia.
Meu conto favorito, porém, é “O poço e o pêndulo”. Talvez seja a descrição mais angustiante que exista sobre a morte iminente de uma pessoa.
A história é a de um prisioneiro da Inquisição colocado num ambiente fechado, e da pena que vai ser aplicada a ele. A parte torturante é a descrição de como um pêndulo pendurado do teto vai se aproximando do peito dele com uma lâmina na ponta.
O conto se alonga por várias páginas com sofrimento, tortura, angústia. e termina com apenas um pequeno trecho que resolve todo o problema com maestria de concisão jamais vista.
É a história do sofrimento humano, imposto por outros seres humanos, e de como pode ser aflitivo ver a morte tão perto sem ter chance de escapar dela.
Poe era mestre exatamente nisso: no terror psicológico. Em nos fazer ver o quanto estamos expostos a um perigo, mas, muitas vezes, sem precisar mostrar a face desse risco.
É o que acontece em “O poço e o pêndulo”. Em nenhum momento você “vê” o carrasco. Ou o ouve. Ou sabe o que o move. Ou vê quem está tentando salvar o personagem.
Tudo ocorre em primeira pessoa, com alguém relatando algo inexplicável, ou tremendamente perturbador, sem que você saiba como aquilo vai chegar a um fim.
Às vezes, as histórias podem parecer infantis para quem já conviveu com duzentos anos de invenção ficcional depois daquilo. Mas é difícil não ficar aflito ou impressionado com certos trechos.
Poeta dos românticos perturbados, rei dos contos de horror, inventor da novela policial, Poe acaba sendo lembrado mesmo na literatura como um gênio capaz de criar climas como ninguém com o simples uso de palavras.
Mais do que um mestre do mistério, é um estilista de primeira linha.
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