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Projeto hispânico: “Don Gil das calças verdes”

Reprodução/Internet
Tirso de Molina: gênio da comédia.

Os espanhóis da época de Tirso de Molina tinham uma obsessão: a de contar a história de uma moça que, apaixonada, havia se entregado a um homem antes do casamento.

Acontecia sempre do mesmo jeito. Ingênua, a moça – que aliás tinha de ser rica, linda e casta – acreditava na promessa de que ele iria em seguida se cara com ela. E decidia entregar-lhe antes o prêmio da noite de núpcias.

O que acontece a seguir depende do gênero da história: se for um drama, poderá haver vingança e morte. Se for comédia, a mocinha dará um jeito divertido de fazer com que o sujeito volte a seus braços e acabe se casando. É o que acontece, por exemplo, em “Don Gil das Calças Verdes”.

A mocinha enganada da peça é Juana. O marido fujão é um certo Martin, que ela achou lindo, galante, irresistível, e … bem. Você imagina. Só que o pai do rapaz arranja um casamento mais lucrativo em Madri e ele foge. A peça começa com Juana indo atrás dele, vestida de homem, pronta para lhe pregar uma peça.

A partir disso, Tirso de Molina faz uma comédia cheia de reviravoltas. Martin, como está com o nome sujo, se passa por Don Gil para acertar o casamento. Juana, sabendo disso, chega antes à cidade e finge ser ela o noivo. Ao mesmo tempo, quando veste roupas de mulher, se aproxima da noiva, Inés, para terminar de aplicar seu truque.

Esperta, Juana consegue fazer com que Inés se apaixone pelo seu Don Gil. Mas como a noiva é desejada, logo aparecem vários candidatos que dizem ser eles próprios o tal Gil das calças verdes. E ela já nem sabe mais qual é o noivo de verdade. No ápice da peça, há quatro “Gis” diferentes.

Claro que, sendo uma comédia, tudo acaba bem. Há três noivados sendo celebrados no final da peça. Um deles o de Juana com o noivo fujão, que se arrepende de ter deixado para trás a mocinha bonita a quem jurou casamento.

Tirso de Molina, assim como seus contemporâneos Cervantes e Lope de Vega, fazia obras com uma moral forte. A Espanha da virada do século 17 era católica a todo custo e, para agradar aos reis e aos costumes da época, era preciso que a peça, ou a novela, ou o poema, o que fosse, seguisse certas regras.

Aliás, Tirso, Lope e Cervantes foram, os três, ligados a ordens religiosas pelo menos durante um período de sua vida. E o conteúdo do que escreviam certamente era influenciado por isso. A história da mocinha casta e enganada, por exemplo, dava a chance de falar do amor erótico de um ponto de vista da honra ofendida e recuperada (Cervantes escreveu meia dúzia dessas só no Quixote).

O que é curioso é que a peça, apesar de divertidíssima e inteligente, seja tão pouco encenada hoje. Na época, foi um sucesso. O autor, aliás, escreveu cerca de 400 peças. Só sobraram oito que conhecemos – entre elas “O burlador de Sevilha”, que conta a história de Don Juan. E era um dos favoritos da corte em sua época.

Lendo “Don Gil” dá para entender o porquê. É diversão garantida e tremendamente bem escrita.

Ficha
Autor: Tirso de Molina (1579-1648).
Título: Don Gil das Calças Verdes (estreada em 1615).
Por que ler: A peça de três atos é de leitura rápida. Divertida, é um clássico da comédia de enredo.

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