

Os frios polos da intolerância congelam os corações
Enquanto o planeta sofre com o trágico aquecimento global, a humanidade vem sofrendo com um ainda mais trágico resfriamento. Os frios polos da intolerância estão se expandindo. O calor da bondade, que aquece a humanidade, está arrefecendo. Corações que ainda batem estão sendo congelados. Estamos nos tornando homens de gelo, em um mundo de fogo.
Não sou profeta do apocalipse, mas percebo que a humanidade está chegando ao fim. Não me refiro à extinção da vida humana, mas ao ocaso da essência que nos faz (ou deveria nos fazer) humanos – a humanidade que o dicionário define como “sentimento de clemência de homem para homem” ou “benevolência”. Como escrevi, os polos da intolerância estão se expandindo. A humanidade está no meio, quase sem forças para manter um mínimo de equilíbrio e distância entre os extremos. Quando os polos finalmente colidirem, a humanidade será esmagada. A cena é feia, mas é o que está sendo pintado.
Os sinais desse fim da humanidade podem ser vistos todos os dias, nos pontos da topografia humana em que os polos intolerantes já se chocam – chocando o que resta da humanidade. Está lá, nas capas dos jornais, na televisão, nas ruas da cidade, dentro de casa. Situações de polarização em que parece não haver espaço para meio-termo, para o diálogo, para aquela benevolência que deveria nos caracterizar.
Ou se é a favor do governo, ou se é a favor da oposição. Não dá para ser a favor do país? Ou se participa da Marcha da Maconha ou se participa da Marcha para Jesus. Não dá para participar das duas, ou de nenhuma? Ou se é “100% negro” ou se é neonazista. Não dá para ser humano, simplesmente? Ou se comemora, batendo no peito, um besta dia do orgulho hétero, ou se celebra, com silicone no peito, uma exagerada parada gay. Posso ser um heterossexual, sem nenhum orgulho especial por essa orientação, que compreende e respeita os gays, mas que também não quer sair vestido de mulher numa parada?
Essas são situações de extremismo mais explícito. Mas há outras menos escancaradas, com radicalismo similar. Pequenas demonstrações de intolerância que retocam esse triste quadro. Por exemplo, há algum tempo, escrevi neste blog uma crônica sobre a questão da humanização dos animais. No texto, identifico muitos exageros de gente que trata bichinhos como se fossem pessoas, gastando fortunas com animais, enquanto há seres humanos passando fome. Por outro lado, afirmo ao longo da crônica, mais de uma vez, que gosto de animais e que sou absolutamente contra maus-tratos. Apenas questiono os mimos exagerados. Mas o radicalismo ensurdece e cega – quando se assume uma posição extremista, percebe-se apenas o que convém. E muita gente que leu o texto se revoltou, acusando-me de odiar animais e de promover os maus-tratos. Fui chamado de idiota e ignorante. Houve até quem afirmou desejar a minha extinção. E eles leram o texto! Analfabetismo funcional? Quem nos dera. O caso é mais grave: extremismo disfuncional.
Noutra ocasião, escrevi um texto sobre a polêmica do barulho em Curitiba, a partir de uma inocente crônica que sugeria uma marginalização do assobio: “só falta proibir o assobio”. Pronto. Foi o suficiente para um monte de gente aumentar o volume. E eu só pedia um pouco de moderação, um pouco de bom-senso. Mas, como alertou uma leitora, faz tempo que bom-senso deixou de ser sinônimo de senso-comum – hoje, cada um tem o seu “bom-senso”, e muitos sensos maus passam por bons.
Na falta de parâmetros, como o bom-senso, perde-se o norte da humanidade, nossa bússola existencial deixa de identificar pontos cardinais (tolerância, prudência, bondade), e ficamos perdidos. Localizamos apenas os polos, os extremos, e nos refugiamos em posições radicais. É mais fácil, confortável. Parece até mais seguro. Mas não é. Como afirmava o ex-presidente estadunidense Franklin Delano Roosevelt: “um radical é um homem com os dois pés firmemente plantados no ar”.
É preciso que baixemos nossas guardas, demos alguns passos atrás e abramos espaço para a humanidade tomar fôlego. Ou, em breve, seremos seres humanos sem humanidade.
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Agudas
– Sempre é um bom dia para se promover a tolerância e se derrubar preconceitos. Mas a data de hoje é especialmente significativa: há exatamente 75 anos, o atleta negro estadunidense Jesse Owens ganhava sua terceira medalha de ouro, nas Olimpíadas de Berlim, na Alemanha, sob os bigodes de Hitler. E a tese da supremacia ariana era deixada para trás pelas passadas velozes de Owens (infelizmente, ainda hoje há muitos retardatários se arrastando nessa corrida).
– “Se você odeia alguém, é porque odeia alguma coisa nele que faz parte de você. O que não faz parte de nós não nos perturba.” (Herman Hesse)
– “O preconceito é filho da ignorância.” (William Hazlitt)
– “Época triste a nossa, em que é mais difícil quebrar um preconceito do que um átomo.” (Albert Einstein)
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