Encontre matérias e conteúdos da Gazeta do Povo

Sobre calcinhas, bandeiras e prudência

Vinícius André Dias sobre imagens do Stock.Xchng
Pode ou não pode brincar com a cor da bandeira da Argentina?

Hoje (20) é dia da bandeira da Argentina. Por isso, para mim, hoje também é dia da prudência. Estranho? Explico. Uma das lições mais marcantes que tive, no Jornalismo e na vida, ocorreu em 2005. Com vinte e poucos anos, eu acabava de ser contratado pela Gazeta do Povo, para ser repórter da editoria de Turismo. Minha primeira missão foi escrever uma reportagem sobre Buenos Aires, cidade que eu visitara semanas antes à admissão no jornal. Empolgado com o novo emprego e inspirado pela maravilhosa capital argentina, escrevi um texto cheio de graça – e gracinhas, como constatou a editora-chefe de então.

Eu começava a reportagem com um jogo de oposições entre Brasil e Argentina, com provocações para os dois lados, tentando mostrar que brasileiros e argentinos implicam uns com os outros porque são irmãos, e porque, no fundo, admiram-se e se gostam. Lá pelas tantas, eu escrevia que Buenos Aires tinha bandeiras da Argentina por todos os lados, e que, com inveja desse patriotismo bonito dos hermanos, só restava ao demoniozinho tupiniquim cutucar: a cor da bandeira argentina é “azul-calcinha”. Ao ler isso, a editora-chefe me chamou à sua mesa. Com metade de minha altura, mas o dobro de minha autoridade, ela impunha respeito. Tremi nas bases. Mas a lição veio na medida, incisiva e suave como uma injeção bem aplicada. Depois de me elogiar pelo estilo (de gente estilosa, o inferno está cheio), ela cravou, rimando: “Com mãe e com bandeira não se faz brincadeira”.

O versinho ficou na minha cabeça — e eu passei a tomar muito mais cuidado. A questão não é tão simples quanto parece. Abomino a rabugenta patrulha do “politicamente correto”. Penso que devemos ser tolerantes sempre, inclusive com o humor “politicamente incorreto”, muitas vezes de gosto duvidoso – lembrando que, no fundo, todo gosto é duvidoso. O filtro deve(ria) ser o bom-senso. E há aí outro problema: infelizmente, esse filtro anda todo furado. Afinal, como uma leitora atenta alertou noutra ocasião, há tempos que bom-senso deixou de ser sinônimo de senso comum. Hoje, cada um tem o seu próprio “bom-senso” – e muitos sensos maus passam por bons.

Em outro contexto, num show humorístico, por exemplo, a gracinha com a cor da bandeira argentina até seria cabível. Numa reportagem sobre os encantos turísticos de Buenos Aires, era algo desnecessário, capaz de gerar muita confusão para pouco benefício. Depois daquela lição, passei a ser mais crítico com o que penso, falo, escrevo e faço. Continuo dando bobeira, claro. Mas hoje tento constantemente refinar o filtro do bom-senso: há momento e lugar para quase tudo, acredito.

Enfim, aquela lição me fez ser mais prudente. A receita é simples e eficaz como canja de galinha: antes de qualquer ação, conto até dez, tento pensar em todo o contexto e me coloco no lugar de quem vou atingir com a ação. A execução da receita não é tão fácil quanto parece, mas a prática leva, senão à perfeição, a um agir mais consciente – o que nos faz humanos, inclusive. Por tudo isso, comemoro hoje (e sempre) o dia da prudência. E viva a bandeira da Argentina… Mas que o azul da bandeira brasileira é mais bonito, ah, isso é.

***

Agudas

– “Uma das características da prudência é que o que se pode fazer por bem, não se faça por mal.” (Miguel de Cervantes)

– “O homem prudente não diz tudo quanto pensa, mas pensa tudo quanto diz.” (Aristóteles)

– Aliás, é sempre bom recordar o filtro triplo de Sócrates: o que você vai dizer é verdadeiro, é bom, é útil? Se não for, provavelmente o melhor a fazer é se calar.

***

Siga o blog no Twitter!

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.