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Entrelinhas

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Entrevista

Às vésperas do 7 de outubro, porta-voz de Israel alerta: “A batalha também é pela narrativa”

(Foto: Divulgação/ assessoria)

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Três anos após os ataques de 7 de outubro de 2023, a guerra entre Israel e Hamas continua sendo travada também no campo da comunicação. Para o Major da reserva Rafael Rozenszajn, primeiro porta-voz das Forças de Defesa de Israel (FDI) para os países de língua portuguesa, a disputa de narrativas se tornou um dos principais desafios enfrentados por Israel desde o início do conflito.

Em entrevista à coluna Entrelinhas, Rozenszajn afirma que a percepção internacional sobre o direito de Israel à autodefesa mudou ao longo dos meses, enquanto imagens e informações sobre a resposta militar passaram a ocupar o espaço que inicialmente era dominado pelo massacre de 7 de outubro. Ele também fala sobre a dificuldade de Israel em competir com a velocidade das informações divulgadas pelo Hamas, o crescimento do antissemitismo após os ataques, as críticas às operações militares em Gaza e o impacto que o terrorismo jihadista pode ter sobre as democracias ocidentais.

O Major estará em Curitiba nesta quarta-feira (8), onde participa do evento “7 de outubro: 3 anos disputando a narrativa”, promovido pela Federação Israelita do Paraná (FEIP) e pelo Instituto Fatos sem Fronteiras.

Entrelinhas: Nas primeiras semanas após o 7 de outubro, Israel recebeu uma ampla onda de solidariedade internacional. Três anos depois, porém, o debate parece ter mudado de foco. Como o senhor avalia essa transformação e o que aconteceu com o reconhecimento internacional do direito de Israel de se defender?

Rafael Rozenszajn: Nas primeiras semanas depois de 7 de outubro, houve uma solidariedade internacional ampla e genuína. O mundo viu o que aconteceu naquele dia: cerca de 1.200 pessoas assassinadas, a maioria civis, e 251 levadas como reféns para Gaza, entre elas crianças, idosos e sobreviventes do Holocausto. Poucos questionavam, naquele momento, que algum país aceitaria algo assim sem responder.

Com o passar dos meses, essa percepção foi se transformando. A atenção se deslocou do ataque terrorista do Hamas para a resposta de Israel, e as imagens da guerra passaram a ocupar o lugar das imagens do massacre. Isso é compreensível, porque uma guerra em área urbana densa produz sofrimento real, e nós não ignoramos esse sofrimento.

O que me preocupa é outra coisa. Em muitos debates, o direito de Israel de se defender passou a ser reconhecido em tese e negado na prática, como se existisse uma forma de enfrentar uma organização armada, entrincheirada sob cidades, sem consequências.

Ao mesmo tempo, percebo que governos e instituições que acompanham o tema de perto, especialmente nas áreas de segurança e defesa, compreendem melhor hoje a natureza da ameaça. A experiência de 7 de outubro mudou nossa doutrina: não podemos mais esperar que organizações terroristas executem seus planos quando constroem túneis, acumulam armas e se posicionam junto às nossas fronteiras. Acredito que essa lição, com o tempo, também será compreendida por outros países.

Entrelinhas: Israel enfrenta uma disputa de narrativas que vai muito além do campo de batalha. Por que tem sido tão difícil comunicar a perspectiva israelense, especialmente diante da imprensa internacional e das redes sociais?

Rafael Rozenszajn: Há uma assimetria estrutural nessa disputa que é muito importante explicar. Uma organização como o Hamas não presta contas a ninguém. Pode divulgar um número, uma imagem ou uma acusação em minutos, sem verificação. Um exército de um Estado democrático precisa checar, investigar e confirmar antes de falar, e isso leva horas ou dias. Quando a informação verificada chega, a primeira versão já percorreu o mundo.

O caso do hospital Al-Ahli, em outubro de 2023, é um exemplo documentado. A notícia de que um ataque israelense teria matado centenas de pessoas foi publicada por veículos importantes no mundo inteiro. Análises posteriores, incluindo avaliações de serviços de inteligência ocidentais e de organizações independentes, apontaram que a explosão foi causada por um foguete lançado por terroristas em uma área próxima ao local atingido rumo a Israel, mas que falhou e caiu em Gaza. A correção existiu, mas nunca alcançou o mesmo público da versão original.

Some-se a isso a lógica das redes sociais, que recompensa a emoção e a velocidade, e não a precisão. Não acredito que a resposta seja reclamar da imprensa. A resposta é oferecer informação rápida, verificável e transparente, inclusive reconhecendo quando erramos, porque a credibilidade se constrói ao longo do tempo e não em uma única manchete.

E é importante que o público desenvolva um hábito simples: diante de uma informação que provoca indignação imediata, perguntar qual é a fonte e se ela foi confirmada.

Entrelinhas: Após o 7 de outubro, o antissemitismo também ganhou visibilidade em diferentes países. Como as Forças de Defesa de Israel enxergam esse fenômeno e até que ponto a guerra contribuiu para o aumento da hostilidade contra judeus, inclusive no Brasil?

Rafael Rozenszajn: As Forças de Defesa de Israel não são uma instituição dedicada a analisar o antissemitismo em outros países, e essa é uma responsabilidade das comunidades locais, das autoridades e da sociedade civil de cada nação. Mas é impossível não observar o fenômeno.

O dado mais revelador, para mim, é cronológico. Em vários países, o aumento de ataques e manifestações contra judeus começou nos dias imediatamente seguintes a 7 de outubro, antes mesmo de qualquer operação terrestre em Gaza. Isso mostra que não se trata simplesmente de uma reação a decisões militares.

No Brasil, entidades representativas da comunidade judaica registraram um aumento expressivo de denúncias, e famílias relatam situações que antes não viviam, inclusive com crianças em escolas.

É fundamental separar duas coisas. Criticar decisões de um governo ou de uma operação militar é legítimo em qualquer democracia. Responsabilizar um estudante judeu em São Paulo ou um comerciante judeu em Belo Horizonte por uma guerra a milhares de quilômetros é outra coisa, e tem nome. Quando a crítica a Israel se transforma em hostilidade contra judeus em qualquer lugar do mundo, ela deixa de ser um debate político e se torna preconceito.

Entrelinhas: Uma das principais críticas feitas a Israel é o elevado número de vítimas civis em Gaza. Como o senhor responde a essas acusações e explica a dificuldade de combater o Hamas em uma área densamente povoada?

Rafael Rozenszajn: Cada civil morto em Gaza é uma tragédia, e não há nada de abstrato nisso para quem está em campo. A pergunta que precisa ser feita é por que essa guerra se desenvolveu dessa forma.

O Hamas construiu, ao longo de quase duas décadas, uma rede de túneis sob uma das áreas mais densamente povoadas do mundo, com centros de comando e depósitos de armas instalados sob ou ao lado de residências, escolas, mesquitas e hospitais. Essa escolha não é acidental. É uma estratégia que transforma a população em escudo e cada imagem de destruição em instrumento de propaganda.

Diante disso, as Forças de Defesa de Israel adotaram medidas como avisos prévios de evacuação, corredores humanitários e pausas operacionais, procedimentos que poucos exércitos aplicam em combate urbano. Isso não significa que não haja erros. Quando ocorrem, são investigados pelos nossos mecanismos internos, que estão sujeitos à revisão do sistema judicial israelense.

Desde o início do cessar-fogo, em outubro de 2025, o esforço humanitário também se intensificou. Segundo dados das Forças de Defesa de Israel, mais de 2 milhões de toneladas de alimentos entraram em Gaza nesse período, cerca de 600 caminhões cruzam diariamente e o número de leitos hospitalares cresceu mais de 50%.

O obstáculo central continua sendo o mesmo: o Hamas interfere na distribuição da ajuda e se recusa a se desarmar, o que é condição para que a segunda fase do acordo avance.

Entrelinhas: O terrorismo jihadista é frequentemente apresentado como uma ameaça regional, mas o senhor afirma que ele diz respeito também às democracias ocidentais. O que está em jogo para países como o Brasil caso grupos como o Hamas e o Hezbollah deixem de ser tratados como uma ameaça à segurança internacional?

Rafael Rozenszajn: O terrorismo jihadista nunca foi um problema apenas israelense, e a história da América Latina mostra isso com clareza. O atentado contra a AMIA, em Buenos Aires, em 1994, que matou 85 pessoas, foi atribuído pela Justiça argentina ao Hezbollah com apoio do Irã. Em 2023, a Polícia Federal brasileira deflagrou uma operação contra suspeitos de serem recrutados pelo Hezbollah para planejar ataques contra alvos judaicos no Brasil.

O Hezbollah, que disparou mais de 20 mil projéteis contra Israel desde 7 de outubro, mantém redes de financiamento, lavagem de dinheiro e crime organizado em vários continentes, incluindo o nosso.

O que está em jogo para o Ocidente, portanto, é um princípio. Se uma organização pode invadir um país soberano, assassinar civis em suas casas e sequestrar crianças, e ainda assim ser tratada como um ator político legítimo, o precedente vale para qualquer democracia.

Não peço que as democracias ocidentais concordem com cada decisão israelense. Peço que julguem Israel pelos mesmos critérios com que julgariam a si mesmas diante de uma ameaça semelhante.

O próprio Líbano, assim como a comunidade internacional, reconhece hoje que o Hezbollah precisa ser desarmado. Esse consenso precisa se aplicar também ao Hamas. A segurança de Israel e a segurança das sociedades livres não são agendas separadas.

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