Publicidade
Entrelinhas

Entrelinhas

Entrevistas exclusivas com protagonistas da política brasileira. Debates profundos sobre os principais assuntos da atualidade.

Entrevista

Consultor internacional francês defende investigação das eleições brasileiras: “Desconfiança estrutural”

(Foto: Divulgação/ Safar)

Ouça este conteúdo

A situação do senador Flávio Bolsonaro (PL), as dúvidas levantadas sobre o processo eleitoral brasileiro, as semelhanças entre Brasil e Venezuela e os possíveis efeitos das eleições de meio de mandato nos Estados Unidos sobre a América Latina estão entre os temas desta entrevista com o francês Jacob Safar, consultor em assuntos estratégicos internacionais especializado nos Estados Unidos e no Oriente Médio.

Da França, Safar afirma que a situação de Flávio Bolsonaro é vista, nos meios conservadores e por parte da opinião pública, como uma operação política para neutralizar um adversário que representa uma alternativa forte, e não apenas como uma questão judicial. Segundo ele, o caso já provoca debates nos Estados Unidos, onde há quem o considere um exemplo de lawfare.

O consultor também defende uma investigação internacional independente sobre o processo eleitoral brasileiro e aponta semelhanças entre o funcionamento das instituições no Brasil e na Venezuela, embora ressalte que os dois países não sejam equivalentes. Na entrevista, ele ainda analisa a política de Donald Trump para a América Latina, o combate ao PCC e ao Comando Vermelho e as causas da violência que tem marcado manifestações na França.

Entrelinhas: Da França, como você percebe hoje a situação de Flávio Bolsonaro, que afirma ser vítima de perseguição política e deixou o Brasil para poder continuar seu combate político a partir do exterior? Como esse caso é percebido pelos governos e pela opinião pública ocidentais?

Jacob Safar: Da França, a situação de Flávio Bolsonaro é amplamente vista, nos meios conservadores e por parte da opinião pública, como uma operação política, mais do que como uma questão puramente judicial. O esquema clássico consiste em instrumentalizar as instituições para neutralizar um opositor que representa uma alternativa forte.

O fato de ele ter deixado o país reforça essa percepção. Muitos veem nisso um sinal de que a disputa política já não é possível nas condições atuais do Brasil. O caso é acompanhado com certa distância pelos governos europeus, mas já alimenta o debate nos Estados Unidos, onde vários responsáveis e observadores consideram que se trata de um caso de lawfare.

Entrelinhas: Flávio Bolsonaro também questiona a regularidade do processo eleitoral brasileiro. Quais mecanismos poderiam, na sua opinião, restaurar a confiança no processo eleitoral?

Jacob Safar: Os fatos mostram uma dinâmica bolsonarista muito clara no país, que se traduziu nos resultados das eleições legislativas e para os governos estaduais. No entanto, essa onda desaparece apenas no segundo turno da eleição presidencial. Matematicamente, como observou Elon Musk, essa discrepância levanta questões.

Flávio Bolsonaro inicialmente reconheceu as eleições e, depois, deixou o país afirmando ser o verdadeiro líder do Brasil. Para muitos, isso se parece com uma estratégia destinada a sair da armadilha judicial e, ao mesmo tempo, manter a contestação. Donald Trump também levantou dúvidas sobre o processo brasileiro.

Diante desses elementos, uma investigação internacional independente seria a única maneira séria de esclarecer a situação. Sem uma auditoria completa, transparente e contraditória, a desconfiança continuará sendo estrutural.

Entrelinhas: Alguns observadores estabelecem paralelos entre a evolução política do Brasil e a experiência da Venezuela de Hugo Chávez e Nicolás Maduro, mencionando a politização da Justiça, o enfraquecimento dos contrapesos e a pressão sobre a oposição. Você vê realmente semelhanças entre os dois países? E onde estariam, na sua avaliação, as principais diferenças?

Jacob Safar: As semelhanças existem. Na Venezuela, a última eleição, que opôs Nicolás Maduro a Edmundo González, mostrou como a Justiça e as instituições podem ser inteiramente mobilizadas para garantir o resultado. No Brasil, observa-se uma lógica semelhante: politização da Justiça, pressão sobre a oposição e enfraquecimento dos contrapesos.

Uma diferença importante está na maneira como Lula se cercou. Ele condecorou e incorporou figuras que não eram necessariamente de seu campo político, inclusive nomes vindos da direita, para assegurar o controle de uma parte do establishment judicial e institucional. Isso lhe permitiu neutralizar os contrapesos de maneira mais eficaz do que por meio de uma simples dominação partidária.

O Brasil não é a Venezuela, mas o mecanismo de captura das instituições é comparável.

Entrelinhas: Você tem um conhecimento particular da política americana. Com a aproximação das eleições de meio de mandato, quais serão, na sua avaliação, os principais desafios para Donald Trump e os republicanos? Em que medida o resultado das midterms poderá modificar a política americana em relação à América Latina, especialmente ao Brasil?

Jacob Safar: Para Trump e os republicanos, as eleições de meio de mandato serão decididas principalmente pela economia, pelo custo de vida e pelo controle das fronteiras. Esses são os temas que determinarão a força de sua posição.

Um bom resultado republicano endureceria a linha americana na América Latina, especialmente em relação aos governos de esquerda e às redes criminosas. O Brasil seria observado de perto. Uma maioria democrata, por outro lado, daria mais margem de manobra a Brasília.

A política americana, no entanto, continuará pragmática: exercerá pressão sobre questões comerciais e de segurança, sem tentar redesenhar a estrutura institucional brasileira.

Entrelinhas: O combate ao narcoterrorismo se tornou um eixo importante da política americana no hemisfério ocidental. Depois das medidas adotadas contra os grandes cartéis e organizações criminosas latino-americanas, você acredita que Washington deveria avançar no combate ao PCC e ao Comando Vermelho no Brasil? Até onde os Estados Unidos podem atuar no Brasil?

Jacob Safar: Os Estados Unidos não vão intervir diretamente no Brasil. É um Estado soberano e uma grande potência regional. Trump, aliás, deixou isso claramente indicado.

Washington pode reforçar o trabalho de inteligência, as sanções direcionadas e a cooperação judicial contra o PCC e o Comando Vermelho, que são estruturas de narcoterrorismo. Mas qualquer ação deve respeitar a soberania brasileira.

Uma cooperação firme é possível e desejável; uma intervenção militar ou política direta, não. O Brasil tem condições de enfrentar essas ameaças se houver vontade política para isso.

Entrelinhas: Na França, várias manifestações recentes foram marcadas por violência, depredações e confrontos. Na sua avaliação, quais são as causas profundas desse aumento da violência política e social? Trata-se principalmente de um problema de segurança pública, de uma crise política mais profunda ou de um fenômeno relacionado à imigração e ao fracasso da integração?

Jacob Safar: A violência recente na França é multifatorial. Há, primeiro, um problema econômico e uma gestão deficiente da juventude: desemprego, falta de perspectivas e sentimento de abandono em determinadas regiões.

Também houve orientações para a manutenção da ordem mais prudentes, às vezes excessivamente prudentes, que deixaram espaço para as depredações. Além disso, autoridades como Emmanuel Macron e Édouard Philippe já mencionaram as dificuldades relacionadas aos jovens das periferias e das áreas mais afastadas.

Esses fatores se acumulam. Não se trata apenas de um problema de segurança pública, nem apenas de uma questão de imigração. É a soma de várias deficiências que produz essas explosões.

Use este espaço apenas para a comunicação de erros

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.