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Um vídeo publicado nas redes sociais colocou a pesquisadora Aline Borges no centro de um inquérito da Polícia Federal. Conhecida como Nine Borges, ela afirma ter identificado repasses milionários da Secretaria Nacional LGBTQIA+ a uma ONG específica, a partir de dados oficiais do próprio governo federal. A publicação, segundo ela, tinha como objetivo provocar a atuação dos órgãos de controle. O efeito, no entanto, foi outro: a investigada passou a ser a denunciante.
Em entrevista à coluna Entrelinhas e ao programa Sem Rodeios, Aline relata que cruzou informações do Portal da Transparência e encontrou um padrão que considerou atípico. Diferentes ONGs, com CNPJs distintos, recebiam milhões de reais, mas compartilhavam o mesmo endereço. De acordo com registros públicos, mais de R$ 3 milhões teriam sido repassados a uma delas. Munida desses dados, Aline publicou um vídeo detalhando os repasses e apontando a possibilidade de conflito de interesses. “Eram números oficiais, prints do próprio Portal da Transparência”, afirma.
Segundo seu relato, o inquérito foi aberto após o vídeo, a partir de acusações de calúnia, difamação e transfobia. Ela afirma que os dois primeiros crimes foram descartados pelos delegados responsáveis. “O próprio delegado concluiu que não houve calúnia nem difamação”, relata. Ainda assim, o inquérito seguiu para o Ministério Público sob a tipificação de injúria, no entendimento de que ela teria extrapolado os limites da liberdade de expressão, de acordo com a pesquisadora. Ela reclama que, enquanto isso, os repasses denunciados não teriam sido objeto de investigação formal.
Na conversa, Aline contextualiza que não se considera um caso isolado. Para ela, situações semelhantes têm se repetido em diferentes pautas sensíveis. “O curioso é que a pessoa que leva a denúncia, esperando que o Estado investigue, acaba sendo alvo de investigação”, avalia a pesquisadora.
“Wokeísmo silencia o debate”
Ao ser questionada sobre liberdade de expressão, ela critica o que chama de “wokeísmo” e sustenta que o movimento embasa esse tipo de "perseguição" que ela sofre. Segundo Nine, determinadas teorias passam a ser tratadas como dogmas, o que inviabiliza o debate acadêmico.
Aline afirma que a impossibilidade de questionamento tem efeitos diretos sobre a produção de conhecimento. “Discursos acadêmicos, mesmo inconvenientes, precisam ser livres, porque é assim que a ciência avança”, aponta. Para ela, quando a crítica é rotulada automaticamente como preconceito, instala-se um ambiente de estagnação intelectual.
Universidades não aceitam diálogo
Aline considera que parte significativa das instituições de ensino superior abandonou a função central de produzir ciência para assumir um papel de militância. “Quando a universidade decide que sua missão é fazer ‘justiça social’, ela muda completamente sua razão de existir”, argumenta a cientista. Segundo ela, a centralidade deixa de ser o método científico e passa a ser a adequação ideológica.
Borges sustenta que esse movimento compromete tanto a qualidade da pesquisa quanto a formação intelectual dos estudantes. “Tudo passa a valer, desde que se encaixe na narrativa correta”, destaca. Para ela, a ausência de contrapontos e o predomínio de uma única visão de mundo empobrecem o debate acadêmico e esvaziam o papel da universidade como espaço de pensamento crítico.
No Brasil, “o buraco é mais embaixo”
Morando atualmente no Reino Unido, Aline também compara a situação brasileira com a inglesa. Ela reconhece problemas graves de censura e prisões por manifestações online no país europeu, mas argumenta que as instituições britânicas ainda respondem com mais previsibilidade e garantias legais. “As instituições lá são muito mais maduras. A deterioração é lenta”, analisa a pesquisadora. No Brasil, por outro lado, ela enxerga fragilidade institucional e ativismo judicial como fatores que agravam a insegurança jurídica.





