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A decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de encerrar a CPMI do INSS reacendeu o debate sobre os limites institucionais, o papel do Senado e a capacidade de reação da oposição diante de um cenário político tensionado. Em meio a acusações de blindagem, críticas à condução das Casas Legislativas e articulações para novas investigações, a deputada Adriana Ventura analisa os bastidores de Brasília. Nesta entrevista à coluna Entrelinhas, ela comenta os desdobramentos da comissão, aponta o que considera omissões do Congresso, avalia novos embates políticos e projeta os caminhos da oposição rumo a 2026.
Entrelinhas: Após o fim da CPMI do INSS por decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), como a senhora analisa a pressão da base do governo e o que pode ser feito pela Oposição daqui para frente, diante da postura dos presidentes das Casas?
Adriana Ventura: Eu vou ser muito pragmática. A gente tem que ter esperança sim, mas tem que olhar a realidade como ela é. O Senado que temos é um Senado covarde. Completamente covarde. O presidente do Congresso Nacional, o senador Davi Alcolumbre prevarica o tempo todo, em todos os níveis. Basta ver que uma simples prorrogação, que ele tinha obrigação de fazer, não fez — imagina o resto.
Existe uma falta de indignação. O parlamentar que tiver um pouco de sangue na veia, de decência, tem que se indignar, falar e atuar. Não adianta gravar "videozinho" dizendo “acho errado”. Tem que estar na linha de frente do batalhão, porque a gente está numa guerra. E, numa guerra, você usa as armas da guerra para lutar contra absurdos.
Não é sobre deixar de ser polido ou urbano. Existe um limite, claro. Mas fora isso, tem que brigar pelo que é certo. E, infelizmente, nós não vemos senadores indignados. Vemos cinco, seis, sete — não mais que isso. E não basta assinar, é agir.
Se 50 senadores, por exemplo, não dessem presença, o Senado não andaria. Se pressionassem o presidente, ele teria que agir. Então falta ação concreta. O Senado é responsável por colocar ordem, inclusive nessa questão de CPMI, e não está fazendo. Isso é vergonhoso.
Entrelinhas: Sobre o caso envolvendo o “Lulinha”, o que a senhora tem visto nos bastidores? Existe blindagem?
Adriana Ventura: Ele é um dos indiciados. E não é perseguição nenhuma. O que existe são fatos. Muitos fatos.
Tem várias questões que formam um “elefante na sala”. Viagem para Portugal em primeira classe paga por operador do esquema — confirmado pela defesa. Relações comerciais com pessoas envolvidas — confirmadas. Pagamentos suspeitos — confirmados pela Polícia Federal.
Movimentação de milhões em contas pessoais, empresas sem clareza de atuação, depoimentos, mensagens. É uma lista enorme de indícios. Isso não é narrativa, é documento.
E, desde o começo, a gente percebeu movimentos de blindagem. Quem acompanhou a CPMI viu isso claramente nas votações.
Entrelinhas: Há riscos do relatório da CPMI ser desidratado ou substituído?
Adriana Ventura: Sim, existe esse risco. A base do governo pode tentar derrotar o relatório e colocar outro. Isso já aconteceu em outras comissões.
Eles vão fazer o jogo deles. Podem alegar qualquer coisa, tentar suavizar, mudar narrativa. Não acho nada estranho.
Mas o relatório está robusto, com dezenas de páginas, com provas, indiciamentos, tudo detalhado. Qualquer brasileiro pode consultar.
Nosso papel foi feito: investigar, reunir provas e apresentar. Agora, a briga continua — inclusive na tentativa de instalar outras investigações, como a do Master.
Entrelinhas: Existe expectativa de instalação da CPI do Master ou a senhora acredita que não vai acontecer?
Adriana Ventura: Eu não tenho expectativa de que seja instalada. Pelo mesmo motivo: senadores, em sua maioria, covardes, corruptos ou coniventes. Com algumas exceções, claro.
Eu mesma fui falar com o Davi Alcolumbre, levei ofício assinado por parlamentares, pedi — e nada. A prorrogação de outra CPMI já foi uma novela. Então imagina essa, com pressão de todos os lados: Executivo, Supremo, parlamentares.
A minha esperança é a pressão da sociedade. Porque, sinceramente, esse Senado não está cumprindo seu papel. E digo isso com tristeza. A gente trabalha, dá a cara a tapa, faz reuniões, e o mínimo não é feito.
Se você tiver 10 senadores firmes, batendo a mesa, o presidente fica encurralado. Mas não tem. Parece que muitos estão ali a passeio, e em ano eleitoral isso piora.
A população precisa entender: o Senado será renovado em dois terços. É a oportunidade de tirar o fisiologismo, a corrupção, a covardia e a conivência.
Entrelinhas: Sobre o projeto chamado de “PL da misoginia”, que passou por unanimidade no Senado, é possível revertê-lo na Câmara?
Adriana Ventura: Foi uma surpresa para todos nós. E vou falar como mulher: isso é o caos para as mulheres. Esse tipo de lei trata a mulher como “café com leite”, como alguém frágil, e isso prejudica a igualdade.
A votação unânime chamou muita atenção. Nenhum senador registrou voto contrário, nem os mais combativos. Pelo que soubemos depois, houve um acordo que não foi cumprido — um destaque que seria nominal e não foi.
Eu não tenho total clareza do que aconteceu, mas estamos trabalhando para corrigir isso na Câmara. Quando o projeto chegar, ele vai ser tratado como deve.
Entrelinhas: Indo para o cenário eleitoral, como a senhora vê as articulações da direita para 2026?
Adriana Ventura: A direita precisa se unir. Esse é o ponto principal. Existem vários nomes — como o governador Romeu Zema — que já se colocaram.
Há conversas, articulações, possibilidades de composição. Nada fechado. O cenário ainda vai amadurecer.
Esses escândalos todos também influenciam muito. Eles podem afunilar candidaturas, mudar o jogo.
O objetivo é claro: virar a chave do país. E isso exige estratégia, união e tempo para que os nomes se consolidem.









