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Eleito deputado federal pelo Novo nas eleições de 2026, Paulo Martins (Novo-PR) avalia que o crescimento do partido no Paraná está ligado à capacidade de seus candidatos de se conectar às principais pautas da direita, especialmente o combate aos abusos do Supremo Tribunal Federal, a oposição ao PT e a defesa da agenda anticorrupção. Para ele, a marca da Lava Jato permanece viva no imaginário do eleitor paranaense e a pauta anticorrupção continua tão necessária quanto quando a operação ganhou força.
Martins também defende que o Novo participe diretamente de um eventual governo Flávio Bolsonaro e afirma que o partido não pode repetir a postura adotada durante o governo Jair Bolsonaro, quando manteve uma posição crítica mesmo apoiando pautas do Executivo. Na avaliação do deputado eleito, a reforma do Judiciário e a contenção dos poderes do STF devem ser prioridades do novo Congresso. Ele também defende mudanças na legislação penal para o combate ao tráfico de drogas.
Entrelinhas: O Novo teve um crescimento expressivo no Paraná nesta eleição. A que o senhor atribui esse resultado e quanto ele está relacionado à união com o PL e à frente ampla da direita?
Paulo Martins: O Partido Novo teve uma direção que inspirou confiança em candidatos potenciais e conseguiu trazer candidatos que tinham legitimidade para tratar da pauta do momento, que é o problema maior do Brasil: a juristocracia, o Supremo Tribunal Federal, esses abusos de poder e a luta para conter o PT.
Havia alguns quadros na chapa do Partido Novo já reconhecidos pelo público como pessoas que trabalhavam e lutavam por essas pautas. A votação veio, até mais do que no PL. O Partido Novo, na bancada de federais, acabou fazendo mais votos que o PL.
Isso se dá muito por conta disso. Tivemos dois grandes puxadores, pessoas que estavam com os nomes quentes no momento, e isso faz parte da realidade política de hoje, com um futuro muito veloz e redes sociais muito presentes, sendo canais relevantes.
Acho que o Partido Novo foi o que melhor se sintonizou com a demanda social do espectro da direita e conseguiu esse resultado. Isso também ajudou o partido a sobreviver à cláusula de barreira nacional, que era um grande desafio. Agora o partido tem condição de se reorganizar para crescer ainda mais.
E, se Deus quiser, com a pauta superada, que essa não seja mais a pauta da próxima eleição. Que a gente consiga resolver isso tudo na nossa legislatura, o país volte a caminhar e a gente possa projetar um futuro, e não apenas ficar com medo ou lutando para não ser preso e para empichar abusador de poder.
Entrelinhas: A pauta da Lava Jato ainda está muito forte no Paraná e no Brasil, especialmente depois dos últimos escândalos? A pauta anticorrupção teve força nesta eleição?
Paulo Martins: A Lava Jato não é só uma pauta. Ela é um símbolo, é um código, é uma identificação, porque marcou-se na história do país como um momento em que o brasileiro acreditou que o Brasil ficaria um país sério.
O Brasil hoje não é. É uma esculhambação institucional completa. Mas, naquele momento, via-se o rigor da lei sendo aplicado aos líderes poderosos, gente que nunca se imaginou ao alcance do braço da Justiça. E isso aconteceu.
Eu lembro muito bem do momento. As pessoas diziam: “Nossa, agora vai!”. Era esse o sentimento.
Então, não é que a corrupção acabou ou aumentou. Independente disso, aquele tipo de sentimento do brasileiro sério, que é o Brasil bem, permanece. Essa marca da Lava Jato está até no psicológico coletivo. Não é só uma marca no sentido de comunicação. Ela não vai morrer.
E ainda mais no Paraná, onde você tem os atores protagonistas daquele momento como hoje protagonistas da cena política. A pauta da corrupção não foi superada.
A gente está vendo no governo do PT roubalheira, o caso Master. O caso Master, para mim, eu tenho convicção que ele vai se provar logo adiante. Que o Banco Master foi um banco criado não para disputar mercado. Foi um banco criado para substituir o esquema das empreiteiras.
Entrelinhas: O senhor considera o caso Master mais grave do que a Lava Jato?
Paulo Martins: Em números, já é certamente muito maior que a Lava Jato. E, com potencial de dano, pior ainda.
Uma empreiteira, quando quebra, pode gerar um problema de fornecedor, um problema de qualificação técnica. Às vezes uma grande obra não tem outra empresa do porte da Odebrecht para suportar, e isso é um problema.
Mas, quando um banco quebra e arrebenta com o FGC, que é o fundo que garante a saúde do sistema, ele comprometeu, esvaziou o FGC. Ele tem o risco de comprometer todo o sistema bancário nacional.
E também é por isso que está havendo muita reação de gente muito grande, porque aí ele desequilibrou o tabuleiro. O dano do Banco Master, a gente só pegou uma pontinha ainda. O potencial de dano dele era inúmeras vezes maior do que os danos da Lava Jato.
Portanto, a pauta anticorrupção, a pauta da Lava Jato, é tão forte e muito mais necessária ainda do que em 2014, 2015, quando começou a estourar aquilo tudo.
Entrelinhas: Além das questões relacionadas ao STF e à corrupção, a economia também teve peso importante na eleição. O preço no supermercado é o que grita para o eleitor. O senhor acredita que a questão econômica também ajudou a explicar o resultado de Lula no primeiro turno?
Paulo Martins: A inflação é notória. As pessoas chegam no supermercado e o preço está mais caro do que o mês passado, muito maior do que esses índices que o IBGE coloca. O que já é um dano horroroso: a gente já não poder acreditar nos dados do país.
É o que essa gente gerou também. A corrupção de dados, ou seja, a corrupção é generalizada.
O que salva o Brasil hoje, na roda econômica, na minha visão, é a economia do Pix.
Entrelinhas: O que o senhor chama de “economia do Pix”?
Paulo Martins: É aquele cara que estava completamente excluído do sistema bancário, que não conseguia ter meios de fazer um negócio, receber dinheiro, nem pagar nada. E o Pix, com a questão do auxílio emergencial, na pandemia e tudo mais, incluiu esse cara, trouxe esse cara para dentro do sistema.
Hoje, ele vai pedir um dinheiro no semáforo. Se a pessoa não tem uma moeda ali, ele pode deixar um papelzinho com o Pix e a pessoa faz uma doação para ele depois.
Ou se ele vai vender um amendoim e a pessoa não tem o dinheiro que está ali no painel do carro, no console, ele faz um Pix para esse cara depois. Isso teve uma venda que não aconteceria. Isso foi incluindo pessoas, e tem uma economia aí que não era anotada que está girando.
Mas, quando você pega a macroeconomia, a indústria, a economia pesada, aquela economia tradicional, aí não. Essa já estava num nível de atividade e ela depende de fatores macro do governo, de financiamento. Ela depende que o governo esteja bem e não seja o que é hoje como o maior consumidor do crédito do mercado.
O que faz com que o preço do dinheiro suba. Por isso que nós temos juros tão elevados. Então, para uma grande empresa ampliar uma planta, fazer um investimento bilionário que ela vai captar, esse dinheiro é muito caro.
Aí você tem uma trava na roda econômica. Nós estamos falando, então, de um Brasil de dois níveis. Não houvesse aqui essa tecnologia do Pix, e nós dependêssemos apenas da economia tradicional, a gente estaria muito ferrado.
Entrelinhas: O senhor citou Curitiba como exemplo. Como avalia o mercado de trabalho e as políticas sociais nesse cenário?
Paulo Martins: Hoje ainda tem, por exemplo, Curitiba. Eu tocava essa área aqui na cidade. Tem cerca de 10, 11 mil vagas abertas na cidade.
Aí você tem um problema de preenchimento de qualificação e um problema que é a corrupção da população gerada pelo próprio governo, que é o pagamento de bolsa, de uma série de benefícios, que faz com que a pessoa opte por ficar no programa de benefício social do que ser parte da frente de trabalho.
O que é muito danoso. Essa pessoa vai envelhecer, vai entrar na Previdência como beneficiário e custo, sem nunca ter contribuído.
Então, esse tipo de política, porque o governo, nessa situação econômica, armou uma bomba fiscal e social que vai explodir logo ali.
Entrelinhas: Com um possível governo Flávio Bolsonaro se desenhando, qual deve ser o papel do Novo? O partido deve compor o governo?
Paulo Martins: Primeiro, tem que entender qual é a vontade pessoal deles. Não adianta o partido ter plano para eles se eles não aceitarem esses planos ou não tiverem plano nenhum.
Eu acho que está muito cedo para falar sobre isso ainda e desconheço a posição pessoal deles, mas são pessoas de valor, têm a sua história.
O Zema, apesar da votação muito baixa, foi um governador importante na reorganização de Minas, que está marcado na história de um estado importante do Brasil. O Girão também, como você falou, teve oito anos de um bom mandato. Pessoa respeitável.
E o papel do partido nesse novo Congresso é auxiliar na reorganização do Brasil. O partido tem uma postura de austeridade, tem uma credibilidade nisso e pode ajudar, eu espero que no governo Flávio Bolsonaro, a reorganizar as coisas.
Nós temos problemas fiscais, problemas administrativos e uma série de situações em que esse país vai ter que enfrentar temas duros.
Entrelinhas: O senhor defende que o Novo entre de fato no governo Flávio Bolsonaro, caso ele seja eleito?
Paulo Martins: Eu defendo que o partido venha a ajudar a integrar o governo de fato, e não ter a postura que teve no governo Bolsonaro, que era auxiliar na pauta, às vezes até de forma mais forte do que os próprios governistas, mas mantinha ao mesmo tempo uma postura crítica.
Do ponto de vista de honestidade intelectual, funciona, eu entendo. Mas nós estamos falando de jogo político, de guerra política. Não é sobre quem é mais limpinho que quem.
Você tem que ajudar o governo. Nós temos uma máquina do outro lado, muito poderosa, que é a máquina das esquerdas. Elas não dependem de governo para girar, até porque têm conexões internacionais fortíssimas.
Então acho que o Partido Novo tem que abraçar, de vez, o governo Flávio, ajudar o governo Flávio a acertar a mão, acertar a roda e ter força o suficiente para provar o que precisa ser aprovado, para reorganizar o Brasil.
Inclusive com espaço no governo. Se for o Zema, o ministro, sei lá quem for, mas tem que fazer parte, tem que ter pertencimento, sim. Porque não há espaço para outro tipo de postura, e a votação pífia da candidatura do Zema prova isso.
Entrelinhas: E qual deve ser o papel da oposição nesta reta final do segundo turno, diante da campanha nas redes sociais e das acusações de fake news contra Flávio Bolsonaro?
Paulo Martins: Não pode parar, não pode cessar. O primeiro turno foi apenas uma etapa da campanha.
A luta pelo Brasil é maior, porque, se houver um outro governo Lula, mesmo com o Congresso mais favorável do nosso lado, eles têm muita força, e pode ser que essa pauta que todos nós defendemos não consiga ter nenhum sucesso.
O poderio da máquina, o poder de corrupção, a expertise de corrupção que o PT tem, ninguém tem igual.
Eu às vezes sou muito criticado na direita porque venho e exalto a força do PT. E não é para elogiar o PT, é para demonstrar o quão atenção nós temos que ter para derrotá-lo. Eles sabem fazer.
E eu noto que eles conseguiram acertar o tom da máquina deles. Eles ficaram oito anos perdidos. Hoje conseguiram voltar às ruas, alinharam a comunicação, o dinheiro da Secom está pingando, estão fazendo populismo desenfreado, sem qualquer limite, e fake news num esquema monstruoso que envolve milhões de pessoas.
Por isso que o nosso papel é manter os alertas o tempo inteiro ativos, juntar as equipes. Eu sei que deputados, quando termina, não têm mais os meios de pagar pessoas e tal, mas aí tem que juntar quem acredita, quem tem compromisso e extrair a energia dessas pessoas do seu grupo, do seu time, ao máximo possível para a gente poder fazer frente a essa máquina.
A gente sempre é ao lado da verdade. A verdade tem mais força que a mentira. A mentira do PT é numerosa pra caramba, então a gente tem que ter tudo isso para mostrar a nossa verdade para as pessoas do Brasil.
Entrelinhas: O senhor considera esta a eleição mais suja da história recente do país?
Paulo Martins: A eleição mais suja de todos os tempos, com toda certeza, superando 2022.
2022 não foi somente suja. 2022 foi uma eleição oficialmente sob um regime de exceção.
Por que eu digo oficialmente? Porque a Carmen Lúcia, ministra do Supremo, ao julgar o caso da censura prévia sobre uma peça da Brasil Paralelo, disse: censura prévia no Brasil é inconstitucional, mas até o dia tal pode. Ou seja, ela criou uma exceção.
Nós disputamos a eleição de 2022 sob um regime de exceção instaurado oficialmente por uma ministra do Supremo Tribunal Federal.
Parece um detalhe, mas não é. É bizarro. Se você olhar com o olhar da história, descolado, como é que nós permitimos isso? Como é que o país se permitiu isso?
Entrelinhas: O senhor defende uma reforma do Poder Judiciário. Esse deve ser o principal tema da bancada conservadora eleita pelo Paraná?
Paulo Martins: É natural que o Flávio diga que esse não é o único problema do Brasil, até porque não é, e ele está disputando a Presidência da República. Ele precisa tratar de outros temas que são caros aos setores da população.
Mas, do eixo da bancada de parlamentares eleitos, a reforma do Judiciário e as contenções do STF são o tema principal, com toda certeza.
Eu entendo que, sem segurança jurídica, fica difícil você fazer qualquer outro tipo de reforma, porque você vai aprovar no Congresso e pode ser revogado por uma canetada.
Aconteceu com a reforma trabalhista. A reforma trabalhista não teve uma modificação aprovada pelo Congresso depois. Foi toda ela esculhambada na parte que foi esculhambada pelo Supremo Tribunal Federal, pelos tribunais superiores.
Isso não pode acontecer.
Entrelinhas: Que mudanças concretas o senhor defende para o Supremo Tribunal Federal?
Paulo Martins: Nós temos que conter os poderes dos ministros supremos. As decisões democráticas têm que acabar.
Eu defendo hoje também a adoção de uma idade mínima maior para o ministro supremo, estabelecendo a idade mínima de 65 anos, porque, com 65 anos, alguém já teve tempo suficiente para existir e ter relevância no universo jurídico, já ter uma história estável e aí ter condições de ir para o Supremo para dar sua contribuição para o país, e não para ir lá fazer negociata.
Como a aposentadoria é aos 75, a pessoa ficaria lá até dez anos. Nós chegamos a propor estabelecer mandatos.
A elevação da idade mínima para 65 anos aprimora o filtro e também, de forma muito objetiva, dá um tempo determinado para que aquela pessoa permaneça no Supremo.
A pessoa vai permanecer dez anos se for nomeada aos 65, vai permanecer aos 67, aos 70, mas não mais do que dez anos.
Isso, entre outros pontos, eu poderia falar aqui até amanhã, ponto a ponto. Mas estou dando o espírito do que tem que acontecer para a gente trazer uma normalidade institucional.
Entrelinhas: O senhor também defende mudanças na legislação penal. Qual seria o objetivo?
Paulo Martins: Eu entendo que as coisas estão interligadas. Temos que fazer também, em paralelo a isso, uma reforma de parte da legislação penal para evitar que o país se torne totalmente — porque ele já é parte — um narcoestado.
A legislação brasileira hoje é completamente ineficaz para lidar com o tráfico de drogas. Na verdade, ela praticamente viabilizou o tráfico de drogas.
Essa história de pequeno tráfico deu os parâmetros para os traficantes. “Olha, distribua ainda tantas quantidades para seus aviõezinhos que nada vai acontecer.”
A polícia não consegue dar conta disso. Há um desestímulo das forças policiais para isso também.
E, com o tráfico de crack, eles vão gerando um exército de zumbis, que é isso que essa droga faz com as pessoas, que vão tomando as ruas das nossas grandes cidades, e hoje também das pequenas, gerando uma sensação de desordem plena, destruindo a autoestima da população e a confiança.
Eu não posso tratar o cara que acorrenta alguém quimicamente, que escraviza alguém e destrói ele, o entorno, a família e o ambiente coletivo, como um mero comerciante de uma coisa que não estava liberada, mas que, em pequena quantidade, não causou dano nenhum.
Está tudo errado isso aí.

Mariana Braga é jornalista formada pela UFPR, com mestrado pela École Normale Supérieure de Lyon, na França. Trabalhou como assessora parlamentar na Assembleia Legislativa do Paraná. Foi repórter, apresentadora, editora e chefe de reportagem em emissoras de televisão. Tem formação também em Artes Cênicas e Psicanálise. **Os textos da colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.




