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A universidade brasileira deixou de ser um espaço democrático há muito tempo. Embora os discursos oficiais ainda insistam em palavras como pluralidade, diversidade e liberdade acadêmica, o cotidiano dos campi revela um ambiente cada vez mais hostil à divergência — sobretudo quando ela parte de posições conservadoras ou cristãs. O caso do professor Tassos Lycurgo, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), expõe esse processo de fechamento ideológico.
Titular do Departamento de Artes (Deart), Lycurgo passou a ser alvo de um abaixo-assinado organizado por estudantes e grupos militantes que pedem sua expulsão da universidade. O movimento o acusa de “racismo, transfobia e intolerância”, com base em conteúdos publicados por ele em redes sociais. Na nota pública que acompanha o documento, os organizadores afirmam que o professor — também pastor e influenciador conservador — utilizaria sua visibilidade e o vínculo com uma instituição pública para difundir "discurso de ódio" e "desinformação".
Em entrevista exclusiva à coluna Entrelinhas, Tassos Lycurgo rejeita as acusações e afirma que está diante de uma tentativa explícita de silenciamento. Segundo ele, o problema não é pontual, mas sistêmico. “O que existe hoje no ambiente universitário não é diversidade, mas hegemonia”, afirma o professor. Ele avalia que há uma dominação de pensamento de esquerda que não admite dissenso e que atua de forma radical contra qualquer visão de mundo divergente.
Professor da UFRN desde 1999, quando ingressou como substituto, Lycurgo afirma que sempre deixou claro seu posicionamento em defesa do debate aberto. “Desde a minha primeira aula, meu recado sempre foi o mesmo: sou a favor da pluralidade de ideias, do respeito e da dialética”, diz. Ele acrescenta que discordâncias são naturais e desejáveis no ambiente acadêmico, mas ressalta que “cancelar, punir ou tentar destruir alguém por pensar diferente é incompatível com a própria ideia de universidade”.
Na avaliação do docente, a ausência de pluralidade intelectual compromete diretamente a formação dos estudantes. “É diante da diversidade de ideias e cosmovisões que o aluno cresce intelectualmente”, garante. Em seguida, ele alerta que a imposição de uma única visão produz o efeito oposto: “Quando só existe uma visão possível, o resultado é um emburrecimento programático”.
Lycurgo sustenta suas críticas também com dados. Ele destaca o contraste entre o volume de recursos investidos em educação e os resultados obtidos. “O Brasil investe mais de 6% do PIB em educação, um percentual superior à média dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE)”, analisa. Apesar disso, segundo ele, os indicadores intelectuais são alarmantes. “Temos um QI médio nacional de 83 pontos, o que é vexatório. Se esse número cair mais dez pontos, estaremos falando de uma sociedade funcionalmente incapacitada do ponto de vista intelectual.”
Máquina de doutrinação
O professor também chama atenção para o tamanho da estrutura estatal ligada à educação. Ele explica que mais da metade dos servidores públicos civis da União está vinculada ao Ministério da Educação. “É uma máquina gigantesca, com robustez financeira e poder institucional enorme”, descreve. Para Lycurgo, o problema é que esse aparato não tem sido usado para formar pensamento crítico, mas para promover doutrinação ideológica.
O componente religioso aparece como um dos pontos centrais do conflito. Cristão assumido, o professor afirma que há uma perseguição clara e seletiva dentro das universidades. “Qualquer manifestação religiosa que não seja de índole judaico-cristã é bem aceita”, critica. Em seguida, aponta: “Apenas o cristianismo é atacado com ferocidade e veemência no ambiente universitário”.
Na análise de Lycurgo, isso não ocorre por acaso. Ele argumenta que o cristianismo representa um obstáculo histórico a projetos ideológicos totalitários. “O cristianismo sempre foi um freio moral e cultural a essas ideologias”, destaca. Por isso, segundo ele, há um movimento deliberado de descristianização do Ocidente, que encontra nas universidades um terreno fértil.
As consequências pessoais da perseguição, relata o professor, são graves. Ele afirma ter recebido ameaças de morte e diz temer pela própria segurança ao circular no campus. “É uma tristeza enorme ser acusado de crimes contra os quais lutei durante toda a minha vida, como o racismo”, declara. Ele afirma que esse tipo de acusação configura uma tentativa de assassinato de reputação.
Silêncio da UFRN
Ainda mais preocupante, segundo Lycurgo, é o silêncio da instituição. Ele relata que não recebeu qualquer manifestação de apoio da administração universitária. “Não houve contato do departamento, do centro ou da reitoria”, afirma. Ele avalia que o silêncio institucional acaba legitimando a perseguição.
Apesar disso, o professor diz receber apoio de alunos e ex-alunos, quase sempre de forma privada. “Eles têm medo de se expor”, comenta. Segundo ele, há docentes conservadores e cristãos na universidade, mas a maioria prefere se calar por receio de represálias. “Alguns chegam a se comportar de maneira diferente do que realmente são para sobreviver no ambiente acadêmico”, afirma.
Entre as manifestações de apoio, Lycurgo destaca a de um ex-orientando que se declara comunista e gravou um vídeo público defendendo sua liberdade de expressão. O professor afirma que o gesto evidencia que o problema não deveria ser ideológico, mas civilizacional. “Eu ataco ideias, não pessoas”, ressalta. Ele diz que esse deveria ser o princípio básico da vida universitária.
Para Lycurgo, a universidade brasileira está pagando um preço alto por abandonar sua missão. Ele avalia que a instituição tem se tornado irrelevante. “Em vez de defender a liberdade, ela ataca o pensamento diferente”, afirma. Segundo ele, esse processo afasta famílias e jovens do ensino superior público.
O caso que envolve o professor da UFRN segue sem posicionamento oficial da universidade, enquanto o abaixo-assinado continua circulando. Mais do que uma controvérsia individual, o episódio expõe um cenário já consolidado: a universidade deixou de ser um espaço democrático e passou a operar sob lógica de exclusão ideológica.
Ao final da entrevista, Lycurgo faz um alerta. Ele afirma que, sem liberdade intelectual e religiosa, a universidade perde sua razão de existir. “Se perdermos a liberdade dentro da universidade”, conclui o professor, “ela não servirá para mais nada”.





